O interessante de ter acesso aos projetos estrangeiros da Netflix é exatamente poder consumir filmes que dificilmente viriam para o circuito comercial dos cinemas e, mesmo que grande parte das obras tenham qualidade duvidosa, ao menos, podemos fugir para outro e depois para outro, até que algo nos agrade. Essa jornada nos permite entender que alguns gêneros funcionam melhor em streaming e outros melhor no cinema, mas a Netflix tem um acervo interessante de suspense, que se atualiza com bastante frequência e filmes como ‘A Terra e o Sangue’ (La Terre et le Sang), thriller de ação francês, acabam surpreendendo, por ficar no limbo, não sendo um total desperdício, mas também não sendo inesquecível.

A força do longa está em seu preparo para algo maior e sua construção de atmosfera, apesar de levar mais tempo do que o necessário para se desenvolver, a ambientação que apresenta durante o primeiro ato acaba envolvendo o espectador que, por ter mais informações que os personagens, sabe que algo terrível vai acontecer muito em breve. A trama se passa, grande parte, em uma serralheria no centro de uma floresta, onde o protagonista Saïd (Sami Bouajila), dono do lugar, precisa defender sua terra e sua filha de criminosos que buscam encontrar uma grande quantidade de drogas que havia sido colocada no local. Com isso, sua casa se torna um campo de guerra e a narrativa se intensifica conforme os ânimos vão ficando cada vez mais violentos, e põe violentos nisso, ponto positivo do filme, por sinal.

Outro grande destaque fica por conta da direção de fotografia, que transforma o ambiente em um cenário sombrio, soturno e isolado, por utilizar cores escuras e planos fechados. Isso, somado ao trabalho de direção de Julien Leclercq (O Resgate), experiente com filmes do gênero, cria um clima denso, que contribuí para a imersão do espectador e, com isso, seu envolvimento nas cenas de ação, correria e tiroteio. Quando a trama se cansa de apresentar os personagens e seus dilemas, e preparar o terreno para o clímax, começa a ficar realmente boa. Tanto o roteiro quanto a direção tentam emular uma versão mais contida de ‘Busca Implacável’ e, ao menos no suspense, são bem sucedidos, já que na ação deixa bastante a desejar. As sequências são boas, mas repetitivas. Falta ousadia e uma pitada de loucura, ainda que haja uma cena bem maluca de perseguição com um trator, que só evidencia a proporção pequena do filme, comparada à que a produção tenta alcançar.

O elenco, de forma geral, está bom. São poucos atores, mas todos cumprem o que o roteiro exige, destaque mesmo para Sami Bouajila (Dias de Glória) e a atriz que vive sua filha, Sofia Lesaffre (Os Miseráveis), sem pontos altos. Aliás, essa ausência de profundidade também é algo que afeta o desenvolvimento da trama. Apesar de manter sua proposta clara, o roteiro não passa mensagem nenhuma e nem caminha para lugar algum além do superficial de ser um filme de ação genérico. Faltam camadas no elenco e um pouco mais de emoção em suas jornadas para sobreviver, mesmo que saibamos que o protagonista está em estado terminal (algo citado na primeira cena do filme), sua pose de durão e sua postura séria impedem que haja envolvimento emocional com o público e, com isso, sua eminente morte, assim como sua relação com a filha, passam sem deixar marcas. Fruto de um trabalho de direção cujo foco é apenas o tiroteio e não a construção de seus personagens.

Dessa forma, ‘A Terra e o Sangue’ leva tempo demais preparando seu clímax explosivo e, ainda que a direção saiba trabalhar o suspense e a ação, é promessa demais para pouca entrega. Um thriller de ação vazio e genérico, que desenvolve precariamente seus personagens, mas que, dentro de um catálogo repleto de bombas na Netflix, sua destruição acaba sendo menor, exatamente por trabalhar bem a expectativa do público. Não é péssimo e até possui bons momentos, mas está longe de ser o ‘Busca Implacável’ que tanto sonha.

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