Na crítica cultural existem muitos clichês com termos como “fora da caixinha” e “não se prende apenas a um gênero” e a nova série da HBO, Todxs Nós torna a minha vida, como um crítico, muito difícil. Porque todos os chavões citados anteriormente se aplicam, seja para o bem ou para mal, pelo menos no piloto da produção nacional. 

Na trama acompanhamos Rafa, uma pessoa não binária que foge de casa em Botucatu, interior de São Paulo, para a casa do primo, na capital. A esperança de Rafa é que seu primo, um homem gay, entenda melhor sua situação fora do padrão social do que seu pai conservador de cidade pequena. Teria tudo para dar certo se isso não tivesse sido feito totalmente em cima da hora e Vini, o primo, dividisse o apartamento com Maia, uma mulher negra hétero. Daí você já consegue imaginar a confusão. 

Geralmente é muito difícil analisar o que uma série pode ser baseada só no seu primeiro capítulo, mas no caso de Todxs Nós, existe uma curva de aprendizado que, se respeitada, pode tornar a série muito rica. Logo quando somos apresentados à produção e tudo que a envolve, como personagens e trama, tudo parece muito didático. Os primeiros diálogos entre o trio de protagonistas parecem saídos de uma discussão de twitter sobre o que é o espectro de identidade de gênero e sexualidade. 

Mas, conforme o episódio vai andando, a naturalidade de Vini, Rafa e Maia começa a ser mais desenvolvida e passamos a nos envolver com as dificuldades de começar a vida novamente.  

E talvez esse seja o ponto mais positivo do piloto até então. A trajetória de Rafa se torna mais relacionável não só por ser uma pessoa não binária em meio a um mundo que não é seu, é muito forte com o público, ainda mais se tratando de São Paulo. 

A maior cidade da América Latina é o foco de muitas pessoas que buscam mais oportunidades ou um mundo em que sejam menos julgadas, então, ao abordar sobre essa ótica, Todxs Nós alcança um público muito abrangente. 

Ao final do episódio, tudo parece ter muito mais profundidade que no início e começamos a nos identificar com os obstáculos que o trio principal passa. A dinâmica de sitcom ajuda muito a atenuar momentos mais sérios e trazer para a discussão temas que precisam ser falados. 

Caso continue numa escalada de desenvolvimento e aprofundamento, a nova série da HBO tem tudo para ser referência em conteúdo LGBTQI+. 

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