Crítica | Maria e João – Terror gótico como você nunca viu igual

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A difícil tarefa de recontar (e tornar relevante) uma história mais batida que os inúmeros filmes de ‘Robin Hood’, certamente foi o maior desafio de ‘Maria e João – O Conto das Bruxas’ (Gretel & Hansel), que adapta novamente para o cinema o clássico conto infantil dos Irmãos Grimm, que tanto já influenciou a literatura, o teatro e o audiovisual desde o século XVIII. Para fugir da saturação após obras duvidosas, como a fantasia ‘Os Irmãos Grimm’ (2005) e o longa de ação ‘João e Maria: Caçadores de Bruxas’ (2013), a produção pega um caminho paralelo e transforma o conto em uma obra gótica, poética e que tem Maria como a narradora e protagonista. Não que trazer histórias infantis para um contexto sombrio seja alguma novidade, no entanto, a pegada adulta, gore e a atmosfera intensa, faz o terror se afastar de qualquer outra adaptação que já tenha tido e consegue, assim, fazer o mais improvável: surpreender.

A inversão do título, que põe Maria na frente de João, é proposital, afinal, a jovem (vivida pela talentosa Sophia Lillis) é a peça central no tabuleiro obscuro desenvolvido pelo roteiro, que toma o cuidado de elaborar maneiras de trazer uma trama diferente do convencional ao mesclar o típico “terror de shopping” com filmes sofisticados, como ‘A Bruxa’. Digo isso por conta do ritmo. Ainda que lento e desenvolvido no seu tempo, há um suspense crescente realmente intrigante que não permite que a narrativa perca a força em nenhum momento, sendo eficiente tanto na construção da atmosfera de medo, quanto nos poucos sustos em que utiliza jump scares. Até mesmo o uso dessa artimanha é condizente com os momentos de terror e não força a barra para fazer o espectador pular, tudo isso, devido a excelente composição dos ambientes e cenários obscuros.

A direção de arte e o design da produção são os diferenciais que tornam o longa ainda mais peculiar e único. Há uma perfeita união de elementos do começo do século passado com uma arquitetura contemporânea, quase que futurista que, de tão desconexa no contexto da época, funciona como uma luva para criar a estranheza necessária. É como se a bruxa vivesse em uma parte da floresta onde o passado, presente e futuro existissem ao mesmo tempo. As casas minimalistas, triangulares e feitas através de linhas retas provocam desconforto e, com isso, medo. Fora as figuras sombrias espalhadas pela floresta, por vezes, escondidas no fundo dos quadros apenas compondo o cenário, algo muito similar ao que o terror ‘Hereditário’ faz. E essa comparação é um triunfo, já que as técnicas do diretor Ari Aster certamente serviram de inspiração aqui, assim como o macabro telefilme ‘Hansel and Gretel’, dirigido por Tim Burton para o Disney Channel, em 1983.

O trabalho de direção do ator e roteirista Oz Perkins (‘O Último Capítulo’ e ‘Legalmente Loira’, sim, ele também sabe fazer comédia!) é belo. Sua escolha de planos fechados, no rosto dos personagens, desenvolve a emoção com delicadeza, assim como sabe provocar medo sem os típicos exageros do gênero. Um verdadeiro maestro, que usa o som e a fotografia, de modo atraente. Aliás, o desenho de som também é um espetáculo à parte e sabe aproveitar seu terror atmosférico. A intensa trilha Synthpop (outro elemento moderno) e os sons ambientes, como o ranger das árvores, são deliciosamente góticos e assustadores, se colocados ao lado da deslumbrante direção de fotografia, que dá ao filme um ar de singularidade.

Ainda que Sophia Lillis (It: A Coisa) consiga segurar o longa sendo a narradora confiável e a excelente atriz que é, é a ambientação a verdadeira protagonista da história e, por sorte, valorizada pelo diretor, com suas longas tomadas de árvores em plano aberto. Mesmo buscando novas ideias e até possuindo diálogos interessantes, o roteiro certamente é onde se encontram as poucas falhas, principalmente, no desenvolvimento da bruxa (Alice Krige), uma ótima atriz, que poderia ter sido mais bem aproveitada. Sua história de origem é previsível, assim como seu desfecho decepciona, apesar de continuar sendo uma personagem bizarra. João (Sammy Leakey) também é outro que sofre com o mal desenvolvimento, já que o personagem serve apenas como alavanca para a jornada de Maria, sendo a pedra em seu caminho. Isso e a baixa classificação etária (de 13 anos), que o impede de ser mais gore e violento, enfraquecem seu potencial.

Ainda assim, ‘Maria e João – O Conto das Bruxas’ trabalha sua atmosfera com extrema perfeição e utiliza o som e a deslumbrante direção de fotografia para criar uma versão gótica, bizarra e sombria do popular conto infantil. A imersão é tanta, que as poucas, porém significativas, falhas do roteiro são ofuscadas e o resultado é satisfatório se levar em conta a grande quantidade de obras genéricas que são lançadas. Para um filme cuja história já foi contada nos cinemas à exaustão, o terror agrega novidade e se torna um delicioso banquete para os olhos.

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