“Grandes corporações vs. mais desfavorecidos” é um tema recorrente em Hollywood e infinitas histórias surgem dos lugares mais inesperados. Ideias para roteiros podem nascer em diferentes situações e, sem dúvida, matérias de jornais/revistas são ótimas fontes para encontrar narrativas singulares, como por exemplo, o drama ‘As Golpistas’ e agora o interessante ‘O Preço da Verdade’ (Dark Waters), baseado em um artigo chamado “O advogado que se tornou o pior pesadelo da DuPont”, de Nathaniel Rich, publicado na The New York Times Magazine, em 2016. E por qual motivo é tão relevante? Simples, o artigo reúne dados e depoimentos que desmascara uma enorme corporação que estava envenenando a população de uma cidade através do depósito irregular de resíduos do material teflon próxima as águas de abastecimento.

Com isso, a trama acompanha Robert Bilott (Mark Ruffalo), advogado corporativo que se envolve na história por ter parentes vivendo na mesma cidade onde misteriosas e inexplicáveis mortes estão ocorrendo por conta do consumo de água. Após investigar e descobrir as irregularidades, abre um polêmico e corajoso processo contra a bilionária empresa de produtos químicos DuPont. A partir desse ponto, sua vida vira de pernas para o ar e a trama explora sua bravura e determinação para soltar a verdade no mundo. Se traçar um paralelo com o Brasil atual, há uma enorme coincidência colidindo com seu lançamento e a crise que a cidade do Rio de Janeiro está vivendo por conta da água potável estar contaminada, ou seja, mais relevante que isso, impossível.

O roteiro adaptado é eficiente em apresentar sua proposta desde os primeiros minutos e seguir um bom ritmo enquanto a trama se desdobra, sem muita introdução, mas deixa claro seus intuitos e utiliza artifícios emocionais para aprofundar seu protagonista através de sua vida pessoal, exatamente para aumentar a intensidade do perigo que irá passar ao seguir seus princípios e se colocar de frente contra homens poderosos e manipuladores. O personagem, mesmo que não se encaixe no do lado dos menos favorecidos, se importa e decide ajudar com os artifícios que possui. Mark Ruffalo (Vingadores: Ultimato), que também produz o longa, exerce seu papel com perfeição, carisma e intensidade. O ator, assim como Leonardo DiCaprio, costuma se envolver com projetos que visam ajudar causas ambientais, com isso, seu comprometimento é genuíno. Além disso, Anne Hathaway (Os Miseráveis), que vive a esposa de Robert, brilha em momentos emotivos e íntimos, sendo a excelente atriz que é.

A direção astuta de Todd Haynes (Sem Fôlego, Carol) consegue dosar a narrativa para que a história, relativamente burocrática, e maçante, possa navegar perfeitamente de forma mais vendável e instigante para o grande público. O longa, apesar de ser um drama genuíno, flerta com suspense e até mesmo com o terror em alguns aspectos (como na introdução com os jovens no rio), o que torna a trama mais envolvente, mesmo que exagere em mostrar planos, como por exemplo, o ponto de vista da vaca doente partindo para o ataque. Esse e mais alguns detalhes destoam da proposta séria e podem afetar sim o mergulho do espectador, mas não deve afetar o impacto das mensagens que deseja passar.

Há também uma boa dose de emoção na historia, mas que não fisga tão bem quanto os momentos de descoberta sobre o que, de fato, está acontecendo com a água da cidade. Outro elemento que corteja o suspense é sua direção de fotografia intensa, escura e esverdeada, algo que definitivamente dá ao filme uma personalidade própria, mas que, por outro lado, exagera nas cores fortes e se torna mais um triste caso em que o diretor não sabe a luz adequada para os momentos em que há um ator negro em cena, o deixando extremamente sem iluminação.

De qualquer forma, ‘O Preço da Verdade’, apesar de se passar por um extenso período, consegue ser atual, relevante e conta com uma atuação envolvente de Mark Ruffalo, talvez em um dos seus melhores papéis. O roteiro planta a semente da paranoia em nossas cabeças e irriga com suspense e tensão. Mesmo que tenhamos a sensação de que já vimos histórias como esta outras vezes, o longa não deixa de ser uma importante nascente de reflexão sobre o poder e a ganância de grandes corporações contra nosso único recurso inestimável, fonte inesgotável de vida e energia: a água.

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