Setenta e cinco anos. Esse foi o tempo de espera para finalmente vermos um filme solo da principal heroína da DC: a Mulher-Maravilha. Até então tudo o que tínhamos além dos quadrinhos era a série de TV da década de 70, estrelada por Lynda Carter, e os desenhos animados. Faltava, entretanto, a representatividade feminina nas telonas.Mesmo com uma (inicialmente) criticada escalação, Gal Gadot mostrou ainda em Batman Vs. Superman ser merecedora do título de Mulher-Maravilha, roubando a cena inúmeras vezes e sendo responsável inclusive por uma das melhores cenas do filme.

E por falar em BvS, vale começar lembrando que já havia uma grande preocupação com a aparição da guerreira no universo cinematográfico estendido sem que ela tivesse sido devidamente apresentada ao público. Agora porém a pergunta é outra: como vão continuar um universo estendido sem que as pessoas entendam a conexão entre sua história e as demais? A questão é que o filme solo de Diana consegue ser único e suficiente em si, mas ainda estabelecer todas as conexões necessárias para situá-lo no universo estendido da DC. Após os eventos de BvS, em forma de flashback, Diana relembra sua história, desde a infância até ela se descobrir como Mulher-Maravilha.

Bebendo da fonte dos Novos 52, o filme começa contando a história da pequena Diana, vivida por Lilly Aspell, única criança da ilha de Temíscira, local onde habitam as Amazonas. Mesmo contra a vontade de sua mãe, a Rainha Hipólita (Connie Nielsen), Diana consegue iniciar seu treinamento de batalha sob a tutela de sua tia, a general Antíope (Robin Wright). Essa parte da história tem fundamental importância para que o público compreenda a inocência inicial presente na personagem neste filme, totalmente diferente da experiente amazona que vimos em BvS. Com a chegada de Steve Trevor, nossa Wonder Woman descobre que a verdadeira guerra na verdade acontece fora da proteção de Temiscira e então parte em sua missão. O filme conta a infância de Diana, o seu treinamento, seu anseio por vencer Ares, o deus da Guerra, entre outros aspectos de sua jornada.

Este é um filme de criação e apresentação de personagem e para isso o roteiro de Allan Heinberg (baseado em argumentos de Zack Snyder, Allan Heinberg e Jason Fuchs) é fluído e segue um ritmo leve, não deixando a peteca cair em nenhum momento. Com relação à direção, uma observação mais que pertinente: nada melhor que uma mulher para dirigir um filme da Mulher-Maravilha. Patty Jenkins acerta em cheio e nos presenteia com uma história muito bem retratada, feita com todo o cuidado que um filme desse porte merece. Podemos dizer ainda que a Jenkins tinha uma baita batata quente na mão, já que esse é o primeiro filme da heroína, mas o terceiro do universo estendido da DC (e após dois fracassos de crítica).

Mulher-Maravilha fala de empoderamento e representatividade sem esbanjar conceitos feministas (ao contrário do que muitos pensavam) e tudo acontece de forma natural, mostrando uma Diana que conquista seus espaços sendo quem é, independente dos que diziam “não vá”, “não faça”, e principalmente “uma mulher não pode fazer isso”.

Quanto ao casal vivido por Gadot e Chris Pine, o que podemos contemplar é uma verdadeira “química instantânea” sob o batido (mas vivo) clichê “opostos que se atraem”. A experiência que falta a Diana, ainda que sobre vontade de lutar, abunda em Steve, que mesmo experiente se torna um desacreditado pelas coisas que viu. Um detalhe interessante da trama é que em momento algum a presença de Trevor atrapalha ou ofusca o desenvolvimento da personagem de Gadot. Ainda que falte fé a Steve, que acha tudo o que viu em Temiscira e que ouviu de Diana pura lenda, é perceptível contemplar como o “quê” divino que habita em Diana chama sua atenção.

Além dos dois, soma-se ao grupo mais quatro personagens: Etta Candy, secretaria de Steve, que explica bem como as mulheres eram vistas na época em que o filme é ambientado; e o trio formado pelo árabe Sameer, pelo escocês Charlie e pelo nativo-americano Chefe, responsáveis pelo alívio humorístico com piadas bem colocadas, equilibradas e distante das famosas fórmulas da concorrência marveliana.

A escolha da ambientação na I Guerra Mundial, por mais que fuja do que vimos nos quadrinhos ou na série de TV, é bastante justificável, já que a luta é contra o deus da guerra e a 1ª é considerada a mãe de todas as guerras.

Como nos últimos filmes da DC, a fotografia da produção permanece escura durante a maior parte do filme, mas, longe de ser como o toque de Snyder, aqui essa paleta de cores faz todo sentido. Enquanto em Temiscira percebemos maiores tonalidades de amarelo e dourado, o que ajuda a transparecer a sensação de “paraíso” da ilha, além das fronteiras temos uma Londres cinzenta, com muita fumaça, névoa, e cada vez mais sombria, a medida que a trama avança para o confronto final.

E como nem tudo são flores (e ainda é um filme da DC), Mulher-Maravilha apresenta a já esperada queda no terceiro ato, quando opta por uma resolução de narrativa diferente de tudo o que assistimos até então. Doutora Veneno e o General Ludendorff são bons vilões, mas apresentam tramas rasas e acabam por tornar-se facilmente descartáveis. Até mesmo Ares, principal vilão filme e que participa de todo o enredo como uma força atuante por trás da guerra, não recebe o final merecido. Nem mesmo a fotografia escapa: a fotografia bela ambientação retrô apresentada nos atos iniciais dá lugar a um CGI clichê, como que em uma busca para caracterizar aquele “final de filme de herói”.

Apesar dos problemas, Mulher Maravilha cumpre bem demais seu papel de apresentar às telas dos cinemas a princesa de Temiscira, filha de Zeus. É difícil não sair satisfeito da sala. Sem dúvida, este é o melhor filme da DC após a trilogia de Nolan e parece apresentar uma certa sobrevida ao universo estendido produzido pela Warner. Agora só nos resta esperar dias melhores. Avante DC!

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