Quem foi que pediu um filme sobre um dos vilões menos interessantes do Batman? Depois de uma infinidade de produções de super-heróis e histórias que parecem caminhar para o esgotamento criativo nos cinemas, transformar um personagem relativamente obscuro dos quadrinhos em protagonista de um longa-metragem parece, no mínimo, uma escolha curiosa. Nesse aspecto, a DC Studios ainda demonstra muito mais disposição para arriscar do que a já preguiçosa Marvel Studios.
Quer dizer, inventar a roda nesta altura do campeonato é uma tarefa praticamente impossível, mas tentar algo diferente continua sendo uma possibilidade bem-vinda. E o insano Cara-De-Barro (Clayface) é justamente esse tipo de aposta maluca: longe de ser perfeito, o filme mistura o universo dos quadrinhos com o horror corporal de A Substância para construir uma história grotesca, envolvente e surpreendentemente divertida. Mas isso tem nome e sobrenome: por trás dessa combinação está Mike Flanagan, um dos responsáveis pelo roteiro e um dos nomes mais interessantes do terror contemporâneo, que sabe transformar angústias humanas em pesadelos palpáveis.
Os acertos e erros do filme
Dirigido por James Watkins, do ótimo e pouco falado Eden Lake, o longa apresenta a origem de Matt Hagen, um homem ambicioso e egocêntrico cuja busca pela perfeição acaba conduzindo-o a uma transformação monstruosa. Assim como outras figuras trágicas do universo do Batman, ele também é produto de um sistema que falha em proteger quem deveria, embora suas próprias escolhas tenham um peso fundamental nessa trajetória. A trama demora um pouco para engrenar, mas encontra sua identidade quando deixa de lado a figura convencional do vilão e começa a explorar o horror de perder o controle sobre o próprio corpo.
É nesse terreno que Flanagan demonstra sua habilidade para misturar drama e monstruosidade, usando a transformação física de Hagen como uma extensão de seus conflitos internos. O problema é que Watkins parece ansioso para chegar ao grande espetáculo de horror e à eventual transformação do protagonista em uma ameaça digna dos quadrinhos, acelerando algumas passagens que mereciam mais tempo para respirar. A grande sacada de Cara-De-Barro está em compreender que a monstruosidade não precisa vir de outro planeta ou de uma dimensão desconhecida.

Ela pode nascer da obsessão pela aparência, da necessidade de ser admirado e da pressão para corresponder a padrões de beleza impossíveis. Em plena era do Ozempic, dos filtros digitais e da exposição constante nas redes sociais, o filme encontra uma maneira bastante pertinente de discutir a indústria da beleza e a falsa perfeição que a mídia vende como sinônimo de sucesso.
A comparação com A Substância é inevitável, especialmente pela maneira como o body horror transforma a busca pela juventude e pela aceitação em algo visceral. A diferença é que aqui essa discussão surge dentro de uma adaptação de quadrinhos, dando um novo significado a um personagem criado décadas atrás. O resultado é uma premissa que poderia parecer banal nas mãos erradas, mas ganha força ao transformar inseguranças bastante reconhecíveis em violência explícita e deformações grotescas.

E é justamente no gore que o filme encontra seus momentos mais memoráveis. Com cenas de violência gráfica que não economizam sangue nem detalhes desagradáveis, Cara-De-Barro abraça a brutalidade sem pedir licença, provando que uma produção de super-heróis não precisa se limitar a pancadaria digital e destruição em escala urbana. Watkins demonstra habilidade para conduzir as sequências mais tensas, ainda que os sustos convencionais não sejam suficientes para transformar o longa em um terror verdadeiramente assustador.
A produção também precisa abrir espaço para os códigos tradicionais dos quadrinhos, situando a história na clássica Gotham sombria e perigosa que já conhecemos de outras produções recentes. Felizmente, o filme não parece desesperado para conectar cada acontecimento a um universo compartilhado maior. Assim como Pinguim (série da HBO), funciona muito bem como uma história relativamente independente, mergulhada no submundo perverso da cidade de Bruce Wayne. É uma decisão acertada, porque permite que o horror e o drama tenham identidade própria.

Tom Rhys Harries (Magnatas do Crime), por sua vez, entrega uma boa atuação como o chato Matt Hagen, construindo um protagonista cuja ambição e egocentrismo tornam sua queda ainda mais trágica. O ator consegue sustentar a transformação emocional e física do personagem, mesmo quando o roteiro parece mais interessado em acelerar sua jornada do que em aprofundá-la. Já Naomi Ackie (I Wanna Dance with Somebody – A História de Whitney Houston), como o interesse romântico de Hagen, fica presa a uma dinâmica de médico e monstro que demora a encontrar consistência. Se é que encontra!
O romance ocupa espaço demais sem desenvolver uma conexão suficientemente envolvente, e os personagens secundários tampouco conseguem escapar de algumas caracterizações pouco inspiradas. Com isso, a busca por vingança acaba diluída em uma narrativa que oscila entre o drama trágico, o romance e o horror grotesco. Quando o filme finalmente encontra seu ritmo, porém, a combinação funciona mais. Há algo de genuinamente perturbador em acompanhar um homem que deseja ser perfeito enquanto perde, pedaço por pedaço, aquilo que o torna humano.

Cara-De-Barro representa uma das apostas mais curiosas dessa nova fase da DC, ainda que o estúdio continue procurando uma identidade consistente para seu universo cinematográfico. O filme tem momentos pesados, outros pouco inspirados e uma pressa que prejudica parte de seu desenvolvimento, mas também possui personalidade suficiente para justificar sua existência. Ao transformar um vilão aparentemente secundário em protagonista de uma história sobre vaidade, rejeição e autodestruição, a produção prova que até os personagens menos óbvios podem render bons filmes quando encontram os realizadores certos.
Mike Flanagan oferece uma base temática interessante, enquanto Watkins garante a violência e a textura grotesca que essa trajetória exige. Não é uma reinvenção definitiva do cinema de super-heróis, longe disso, mas é uma tentativa válida de escapar da fórmula que ameaça sufocar o gênero. E, para uma indústria que insiste em reciclar as mesmas histórias, já é um mérito bastante considerável.

Veredito
Então, respondendo à pergunta inicial: talvez ninguém estivesse esperando por um filme do Cara-De-Barro, mas isso não significa que ele não merecesse um. Com horror corporal, sangue, uma reflexão pertinente sobre a obsessão pela beleza e uma atuação sólida de Tom Rhys Harries, o longa transforma um vilão pouco explorado em uma figura trágica que conversa diretamente com as neuroses do nosso tempo.
O ritmo apressado, o romance pouco convincente e alguns personagens secundários enfadonhos impedem que a produção alcance todo o seu potencial, mas não apagam seus acertos. É um filme divertido, grotesco e envolvente, ainda distante de apontar sozinho o caminho ideal para o futuro da DC, mas que ao menos demonstra coragem para sair da zona de conforto. Que o estúdio tenha mais cara de pau para apostar em histórias assim: imperfeitas, arriscadas e dispostas a mostrar novos perosnagens estranhos e ousados para as telonas.
