É admirável (e assustador!) como Stephen King consegue ser transgressor em suas histórias clássicas. Ou será que o mundo é previsível demais? Publicado em 1974, Carrie, A Estranha, um dos livros mais conhecidos do autor, parece ter sido escrito para os dias atuais, e muito disso se deve a uma verdade simples: jovens continuam sendo jovens em qualquer época, e a crueldade também encontra novas maneiras de se manifestar, especialmente na Era do TikTok.
Se Carrie sempre foi uma poderosa metáfora para o bullying, agora, nas mãos do visionário Mike Flanagan, essa história ganha novas camadas ao dialogar diretamente com a violência escolar, o cyberbullying e os atentados que transformaram escolas americanas em cenários de tragédia. O mais interessante, porém, é que Flanagan nunca perde de vista o essencial dessa trama: antes de ser um monstro criado pela sociedade, Carrie é uma pessoa genuinamente gentil que foi empurrada até o seu limite. E talvez seja justamente por isso que sua transformação continue tão assustadora e essencial de ser recontada.
Os acertos e erros da série
Não é segredo para ninguém que Flanagan tem uma verdadeira missão de vida ao adaptar Stephen King para as telonas e telinhas. Como fã declarado da carreira do escritor de 79 anos, ele entende que o horror de King nunca funciona tão bem quando está separado do drama humano. Depois de deixar a Netflix e realizar, na minha opinião, a melhor série da plataforma, A Maldição da Residência Hill, o diretor encontra no Prime Video o espaço para construir uma versão expandida de Carrie, agora em oito episódios bem trabalhados.
E a proposta é bastante diferente da já notável adaptação dos anos 70 de Brian De Palma com Sissy Spacek. Em vez de concentrar tudo na trajetória de Carrie até o baile, a série usa seu formato para respirar, desenvolver os coadjuvantes e mostrar como cada pessoa ao redor daquela adolescente contribui, direta ou indiretamente, para a tragédia. É uma escolha que permite compreender melhor aquele universo e, principalmente, perceber que o monstro não nasce sozinho.

A produção também abraça descaradamente o DNA das séries adolescentes contemporâneas. Há uma trilha sonora potente, misturando clássicos e artistas atuais, uma estética que passeia por Crepúsculo, O Clube da Meia-Noite e Stranger Things, além de toda a ambientação de cidade pequena onde os adolescentes parecem viver em um universo particular de fofocas, desejos, inseguranças e crueldades.
O problema é que, em alguns momentos, a tentativa de aproximar Carrie da Geração Z acaba estereotipando demais seus personagens e tornando algumas situações previsíveis. Diferentemente de séries como Euphoria, a produção não parece muito interessada em subverter o melodrama adolescente: ela abraça seus clichês e trabalha dentro deles. Isso funciona melhor quando a série está desenvolvendo seus personagens, mas pesa nos episódios em que sabemos exatamente para onde tudo está caminhando e falta ação ou terror suficiente para sustentar o interesse.

E é justamente o terror que mais faz falta. Carrie funciona muito mais como um drama psicológico sombrio do que como uma obra de horror propriamente dita durante boa parte de sua duração. Flanagan troca sustos e violência por luto, fanatismo religioso, solidão e relações familiares, temas que ele domina muito bem. Margaret White, vivida pela excelente Samantha Sloyan, talvez seja a melhor versão audiovisual da personagem.
A série encontra humanidade até mesmo naquela mãe terrível, mostrando como o luto e o fanatismo transformaram sua necessidade de proteger a filha em uma prisão sufocante. A produção também abraça um interessante viés feminista ao conectar Carrie às mulheres historicamente perseguidas, julgadas e mortas simplesmente por serem consideradas diferentes. Há uma ideia potente de que aquilo que chamamos de “monstruoso” muitas vezes nasce da própria sociedade que não aceita aquilo que foge de suas regras.

No centro de tudo está Summer H. Howell, uma verdadeira revelação como Carrie. A atriz consegue transitar entre a inocência infantil, a fragilidade, a solidão e a descoberta gradual de um poder que parece grande demais para alguém tão machucada. Flanagan sabe explorar essas nuances até transformar Carrie, no último capítulo, em uma espécie de deusa vingativa e implacável.
Alison Thornton também sustenta muito bem a complexidade da narrativa, enquanto Amber Midthunder interpreta uma professora que percebe que alguma coisa terrível está prestes a acontecer, e Siena Agudong encontra humanidade na personagem que consegue enxergar em Carrie aquilo que quase ninguém mais vê: bondade. Mas é Howell quem carrega o peso da história, repetindo de certa maneira o feito de Spacek ao fazer com que tenhamos pena da garota e, ao mesmo tempo, medo do que ela pode se tornar. Carrie é uma bomba-relógio emocional, e a série sabe exatamente quanto tempo pode deixá-la acumulando pressão.

E quando chega o baile, Flanagan finalmente solta o pino da granada. A famosa sequência é gráfica, violenta e intensa, com sangue, mortes e efeitos especiais que não têm medo de transformar Carrie na criatura furiosa que a história sempre prometeu. Mas talvez a atualização mais importante esteja justamente fora do baile: smartphones, redes sociais e cyberbullying tornam a crueldade adolescente ainda mais instantânea, pública e permanente.
A humilhação que antes terminava no corredor da escola agora pode acompanhar uma pessoa até dentro de casa, multiplicada por milhares de telas. É aí que a série encontra sua maior relevância e consegue se afastar das adaptações anteriores sem trair a essência de King. Ao mesmo tempo, alguns elementos, como o grupo de pessoas especiais usado para expandir a mitologia e garantir possibilidades futuras, parecem deslocados e artificiais, enquanto a ausência de terror em boa parte dos episódios pode frustrar quem esperava uma experiência mais assustadora. Ainda assim, existe muito carinho nessa adaptação, e isso transparece.
Veredito
Carrie, A Estranha encontra em Mike Flanagan alguém capaz de compreender que o verdadeiro horror de Carrie está em o quão atual e cruel essa história ainda é. A série é irregular, às vezes excessivamente preocupada em parecer jovem por um olhar adulto e frequentemente menos assustadora do que deveria, mas compensa essas fragilidades com personagens desenvolvidos, excelentes atuações e uma atualização bastante pertinente de temas que continuam assustadoramente modernos.
É uma Carrie mais feminista sobre cyberbullying, fanatismo, luto, violência e, principalmente, sobre o que acontece quando uma sociedade transforma uma mulher vulnerável em uma vitima. Flanagan pode até mudar de streaming, mas continua encontrando novas maneiras de provar que o melhor horror é aquele que nos emociona e nos faz sentir. E, considerando a maneira como essa história da 1ª temporada termina, talvez essa Estranha querida ainda não tenha terminado de nos impressionar.