Crítica | Digger – O entretenimento como anestesia para um mundo em colapso

Existe aquela máxima de que a arte nunca consegue competir com os absurdos do mundo real. Em um contexto político como o que vivemos, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar onde poder, religião, dinheiro e espetáculo caminham juntos, a realidade parece ter desenvolvido um talento próprio para superar a ficção. Alejandro González Iñárritu (O Regresso), porém, encontrou uma maneira bastante engenhosa de transformar esse absurdo em cinema absoluto.

Digger, sua nova obra, é uma sátira sobre ganância, poder, destruição ambiental e a facilidade com que entregamos o destino coletivo nas mãos de indivíduos que parecem incapazes de enxergar as consequências de suas próprias decisões. E, em época de eleição presidencial como agora, é difícil não enxergar uma camada de urgência em uma história sobre homens que querem controlar tudo enquanto conduzem o mundo ao desastre. Ambicioso, caótico e deliberadamente exagerado, o filme parece interessado em perguntar até onde conseguimos rir da própria desgraça antes que ela deixe de ser engraçada.

Os acertos e erros do filme

A trama, porém, é apenas a primeira camada de uma experiência muito mais elaborada do que o material de divulgação faz parecer. Se você imagina que Digger é apenas a história de um homem megalomaníaco tomando uma sequência de decisões absurdamente ruins, ele também é isso, mas é muito mais subterrâneo. Iñárritu constrói uma narrativa que desconstrói algumas convenções do cinema para criar uma espécie de peça teatral gigantesca, que mistura ficção, documentário, cinema e metalinguagem.

O filme está constantemente brincando com a própria estrutura, com aquilo que estamos assistindo e com a posição do espectador diante daquela história. É justamente aí que surge uma das ideias mais interessantes da obra: Digger é uma farsa dentro de outra farsa. Tanto o filme que estamos vendo quanto o espetáculo que existe dentro dele parecem estar manipulando o público, e perceber essa construção é parte da experiência. O problema é que Iñárritu quer colocar tantas cartas sobre a mesa que, em alguns momentos, a genialidade dá lugar ao excesso.

E esse excesso é provavelmente o maior obstáculo do filme. Digger tem diálogos longos demais, algumas sequências que parecem não encontrar o momento certo para terminar e uma quantidade enorme de ideias disputando espaço dentro de pouco mais de duas horas. É uma obra que exige atenção constante para acompanhar suas duas linhas de raciocínio e entender onde termina a realidade daquele universo e começa o espetáculo que ele está construindo. Para o público mais acostumado a uma narrativa tradicional, isso pode ser especialmente confuso.

Ainda assim, existe algo fascinante nessa experiência porque o filme parece saber exatamente que está sendo exagerado. Iñárritu transforma a falta de sutileza em parte do próprio humor: seus personagens são caricaturas, suas situações são absurdas e suas críticas são colocadas praticamente na nossa cara. Faltam sutilezas, mas talvez seja justamente esse exagero que faça a sátira funcionar.

No centro desse caos está Tom Cruise, absolutamente gigantesco no papel de Digger Rockwell. O ator interpreta um sujeito irritante e egocêntrico, responsável por um desastre ambiental de proporções enormes, mas a atuação vai além de simplesmente criar um vilão. Existe uma camada de performance dentro da própria performance que combina perfeitamente com a proposta metalinguística do filme.

Cruise está irreconhecível graças ao trabalho de maquiagem e abraça completamente o absurdo do personagem, transformando cada gesto, cada olhar e cada decisão estúpida em parte do espetáculo. É uma atuação construída no exagero, mas extremamente consciente desse exagero. E talvez justamente por isso funcione tão bem: Digger não é apenas um homem que acredita ser o protagonista do mundo, ele é alguém que precisa transformar tudo ao seu redor em palco para continuar acreditando nisso.

Por trás da comédia caótica existe uma obra bastante pessimista. Iñárritu coloca em cena questões como a destruição ambiental, a infiltração da religião nos governos, as contradições do uso da inteligência artificial, o entretenimento como anestesia diante das tragédias e a sensação de que estamos caminhando para um desastre que já não sabemos como evitar. O diretor faz, inclusive, uma espécie de mea-culpa ao questionar nossa própria relação com o espetáculo: nós assistimos às desgraças do mundo, transformamos tudo em conteúdo, fazemos piada e seguimos a vida.

Mas até que ponto transformar a tragédia em entretenimento ajuda a suportá-la e até que ponto apenas suaviza aquilo que deveria nos incomodar? É uma provocação bastante atual. O problema é que Digger apresenta tantas questões que nem sempre consegue desenvolvê-las com a mesma profundidade. Algumas ideias parecem surgir apenas para serem abandonadas alguns minutos depois, enquanto parte do elenco talentoso não recebe material suficiente para acompanhar a grandiosidade da proposta.

Ainda assim, existe uma personalidade visual impressionante em tudo isso. Iñárritu continua demonstrando um domínio absurdo da câmera, explorando ângulos exóticos, contra-plongées, planos gerais e movimentos que transformam os espaços em parte da narrativa. A cenografia é um espetáculo à parte, criando um universo que parece simultaneamente real e artificial, exatamente como a própria história.

E é nessa contradição que Digger encontra sua força: é uma sátira sobre um mundo que parece absurdo demais para ser real, mas que frequentemente encontra paralelos desconfortavelmente próximos na realidade. Mesmo quando se torna tedioso, exaustivo ou excessivamente explicativo, o file nunca deixa de ser singular. Iñárritu parece menos interessado em fazer uma obra perfeita do que em construir algo que não se pareça com nada que já tenha feito antes. E isso, por si só, já torna a experiência bastante particular.

Veredito

Digger está longe de ser o trabalho mais equilibrado de Alejandro González Iñárritu, mas talvez seja um dos mais singulares. É uma sátira climática caótica, hilária e pessimista, que mistura cinema, teatro, documentário e metalinguagem para falar sobre ganância, poder, entretenimento e o possível fim da humanidade. Nem todas as ideias funcionam com a mesma força, e o filme frequentemente confunde profundidade com excesso, mas quando acerta, é absolutamente fascinante.

E Tom Cruise entrega uma performance colossal que encontra no exagero exatamente a linguagem que o filme precisa. Digger pode cansar, confundir e até testar a paciência do espectador, mas dificilmente será esquecido. Não é o melhor Iñárritu, mas certamente é um dos mais pulsantes, estranhos e urgentes.

NOTA: 9

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