Quando a sensibilidade ímpar do cinema de Allan Deberton encontra uma temática docemente corajosa e difícil de trabalhar, nasce um dos filmes mais especiais dos últimos anos do cinema brasileiro. Feito Pipa, que fez sua estreia na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado e saiu de lá com a maioria dos prêmios, é um soco agridoce no estômago. Ao mesmo tempo em que diverte pela pureza da infância, também nos faz chorar (e põe chorar nisso!) através de um olhar mais do que sincero sobre paternidade, descobertas e luto.
E, apesar de acompanhar o amadurecimento de um menino queer de 11 anos, o filme nunca abusa de sua sensibilidade ou tenta colocar rótulos em Gugu. Deberton nos permite conhecer esse menino através de seus próprios olhos e criar, a partir deles, um mundo que pode tocar cada espectador de uma maneira diferente, dependendo de sua própria vivência. Talvez seja justamente por isso que Feito Pipa permaneça com a gente mesmo depois que a sessão termina.
Os acertos e erros do filme
Apesar do ótimo desempenho do elenco e de uma direção primorosa e sensível, o filme merece muitos méritos por seu roteiro excelente, inspirado na infância do roteirista André Araújo. De alguma forma, a história resgata sentimentos universais da nossa própria infância na casa dos nossos avós, seja pelo amor, pela nostalgia ou pela simplicidade de uma fase tão leve e, ao mesmo tempo, tão importante. É quando ainda não sabemos o que será do futuro, mas o peso dessa pergunta começa a aparecer, especialmente quando percebemos que somos “diferentes” e sentimos que o mundo talvez não esteja preparado para aquilo que somos.
Mas há algo em Gugu que é um verdadeiro deleite de roteiro: o menino, apesar de sentir que não se encaixa, não demonstra vergonha de si mesmo. Através de seus olhos, ele é livre feito uma pipa, de fato. São os adultos, especialmente seu pai, uma figura masculina ultrapassada e rígida, que tentam colocá-lo no cabresto, segurando sua linha com cerol para que ele não possa voar para muito longe. De todas as formas possíveis, Feito Pipa é uma experiência que deveria ser assistida e sentida por todos os pais. Afinal, lutar contra uma força da natureza como Gugu é, desde o começo, uma batalha perdida.

Para situar a trama, Feito Pipa acompanha um menino afeminado que vive com sua avó após a perda repentina de sua mãe, no interior do Ceará. Gugu ama jogar futebol, mas também gosta de vestir as roupas da avó, ama se maquiar e sonha com um futuro melhor, mas nunca longe de sua querida avó Dilma. Porém, como a vida segue seus próprios caminhos, Dilma entra em estágio avançado de Alzheimer, e Gugu se vê obrigado a se reaproximar de seu pai, Batista, uma figura paterna máscula e rígida que não entende o fato de ter um filho queer.
Para essa trama funcionar, o trio formado por Lázaro Ramos, Teca Pereira e Yuri Gomes cria uma sintonia absolutamente linda. A cada diálogo, Deberton consegue extrair os mais variados sentimentos com naturalidade e significado, construindo a complexidade necessária para entendermos o ponto de vista e a vivência de cada um deles.

Yuri Gomes, em especial, nasceu para ser Gugu. É difícil dizer onde um começa e o outro termina, mas o jovem ator foi, para mim, a maior surpresa de atuação deste ano. Ele transita rapidamente entre o humor e os olhares carregados de coisas que não são ditas e constrói uma química profundamente especial com Teca Pereira. As cenas que os dois dividem são sempre as mais divertidas e sentimentais, retratando uma relação genuína entre uma avó que ama seu neto acima de qualquer coisa e um neto que enxerga em sua avó o porto mais seguro que já teve na vida.
Lázaro Ramos, por sua vez, é um excelente ator e se entrega de coração ao papel. Com esse olhar aguçado de Deberton, Batista não é simplesmente um pai violento ou homofóbico (essa palavra nem se encaixa aqui!). Ele é um homem que tem dificuldade de conexão e não consegue enxergar o filho como ele realmente é. Mas existe muito amor por baixo de tantas camadas, e os dois são muito mais parecidos do que imaginam. É uma decisão corajosa do roteiro e, de certa forma, uma quebra do clichê do pai abusivo ao qual o cinema costuma recorrer quando aborda histórias LGBTQIA+. Aqui, há complexidade em cada personagem e isso é brilhante.

A cinematografia é um espetáculo à parte. Deberton ama cores, e isso não é novidade: tanto Pacarrete quanto O Melhor Amigo são obras vibrantes. Mas, em Feito Pipa, existe uma combinação deliciosa entre o calor e o sol nordestino, as roupas coloridas e uma fotografia que transforma aquele universo quase em uma fábula, um conto de fadas cheio de energia e que transpira brasilidade. Essas cores, assim como a trilha sonora e a naturalidade do elenco, ajudam a retratar essa parte do Brasil com mais doçura. A terra dos homens másculos e rígidos, de onde brota um menino igualmente forte, mas que quebra todos os padrões.
E, de fato, o roteiro derruba estereótipos para construir uma história muito mais próxima da realidade. Talvez por isso seja tão esmagadoramente emocional quando mergulha no apego e na importância de uma família estruturada para a criação de uma criança. Assim como ótimas obras estrangeiras que abordam essa temática, como Close e Monster, Feito Pipa acerta justamente onde tantas histórias acabam errando: é possível ser tocante sem precisar ser chocante. Falar sobre crianças queer ainda é um tabu, inclusive no cinema. Mas, apesar de essa ser uma característica essencial de seu protagonista, o filme é sobre tantas outras coisas para além disso. É universal, tal como o amor.
Veredito
Talvez Feito Pipa não tenha a campanha para chegar ao Oscar como outros filmes nacionais recentes, mas isso não significa, de forma alguma, que mereça menos reconhecimento. É um cinema feito com sensibilidade, carinho e respeito por todos aqueles que, em algum momento, já se sentiram sozinhos ou diferentes. É uma história sobre casa de vó, sobre amadurecer à força das dores da vida e, acima de tudo, sobre a coragem de responder com amor à exclusão do mundo. Gugu, na interpretação de Yuri Gomes, vai ficar com a gente por muito tempo.
Feito Pipa faz rir, faz chorar e, principalmente, abraça. É como uma pipa que parece pequena quando vista de perto, mas que, quando encontra o vento certo, descobre que pode chegar muito mais longe do que alguém imaginava. A linha pode até tentar prendê-la, e o cerol pode até cortar. Mas Gugu nasceu para voar. E Deberton fez um filme que, como uma pipa no céu, nos atravessa e nos lembra que, às vezes, a coisa mais corajosa que alguém pode fazer é simplesmente não deixar de ser quem é.