Doa a quem doer, desde a primeira e hilária cena de enforcamento com ereção, Emerald Fennell encontrou o tom perfeito para transformar sua obra na versão definitiva de O Morro dos Ventos Uivantes para o cinema. A história singular, quase febril e muito à frente de seu tempo, da autora britânica Emily Brontë, nunca foi, de fato, sobre romance doce tradicional, mas sobre desejo, poder e obsessão carnal.
E é um prazer enorme ver uma diretora que já provou seu talento outras vezes abraçar, sem medo nem piedade alguma, a cafonice desse universo romântico, ainda acrescentando camadas de humor e contemporaneidade que tornam tudo ainda mais saboroso. E estou sempre mais interessado em filmes que, mesmo com deslizes, entregam o que prometem.
Some a essa sagacidade ao deleite visual que o filme oferece e pronto: temos um clássico revisitado, mergulhado no subentendido sexual, sustentado por um elenco tão entregue que faz parecer (e com razão!) que todo mundo preso àquela época de hipocrisia e repressão está faminto por sexo em sua forma mais pura e selvagem. E isso é bom demais.
Os acertos e erros do filme
Para começo de conversa, a reparação histórica que Fennell promove com este filme é, talvez, um de seus maiores acertos. Publicado em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes foi o único romance de Brontë, que morreria no ano seguinte. Ainda assim, a força da obra atravessou os séculos e muitas vezes recebendo críticas duras justamente por abordar temas que hoje reconhecemos como inerentes à experiência humana, como relações tóxicas, saúde mental e o desejo sexual mediado pelo poder.
É claro que esse olhar retroativo não é o ideal e não faz bem, mas é difícil não reconhecer que, sem Brontë, talvez a literatura adulta tivesse permanecido asséptica, comportada e distante da realidade. A história de amor e dor entre Heathcliff e Catherine inspirou incontáveis obras contemporâneas (de Crepúsculo à Diário de Uma Paixão), tantas que chega a ser difícil enumerá-las. Ainda assim, nenhuma adaptação havia conseguido captar, de forma tão intrínseca e crua, sua essência safada, indo além da melancolia boba do amor lento e idealizado de outro tempo.

Assim como no livro, a trama dessa nova adaptação se passa na bucólica Yorkshire, no século XVIII, e acompanha a chegada de um jovem órfão, Heathcliff, à casa da família Earnshaw. Não demora para que ele se torne o melhor amigo (e a paixão secreta) da jovem Catherine, a filha mais nova. Conforme os anos avançam e as desilusões se acumulam, o “Morro dos Ventos Uivantes” vai se tornando cada vez mais sombrio, e aquela paixão de infância ganha camadas novas e perigosas.
Saem de cena duas crianças talentosas (incluindo o premiado Owen Cooper) e entram Margot Robbie e Jacob Elordi, as estrelas do momento, em uma química que simplesmente incendeia a tela. A partir daí, a narrativa assume um senso de humor mais afiado, ao mesmo tempo em que aprofunda a relação de desejo reprimido do casal e as aventuras sexuais da descoberta do prazer. Fennell não economiza em enquadramentos prazerosos e faz do sexo o motor da narrativa, ainda que surpreenda por ser bem mais comedida do que em sua obra anterior, o já lendário Saltburn.

E se a química da dupla protagonista já funciona e nos deixa sedentos por mais, quando o visual do filme e sua belíssima fotografia entram em cena com força total, o efeito beira um orgasmo estético de puro bom gosto, brincando com o contemporâneo dentro do clássico. Em certos momentos, parece um comercial chiquérrimo de perfume; em outros, uma obra saída diretamente de um conto de fadas distorcido assinado por Tim Burton.
As cores são intensas, e todo o ar gótico e melancólico das paisagens inglesas ganha uma camada extra de tesão, algo que literalmente transpira desejo. A trilha inspirada e potente de Charli XCX (ponto altíssimo do filme!) só reforça essa sensação, funcionando como o tempero final de um prato que já seria saboroso por si só. Quando a narrativa se alonga e começa a girar em torno do próprio vazio, são justamente o visual e a música que nos mantêm acordados e imersos nesse universo quase surrealista. Cada quadro vira uma tela em branco que Fennell preenche com paixão, sensibilidade e originalidade.

Mas nem todas as flores tem cheiro bom. Há um ponto, da metade para o final, em que a trama se perde na própria vontade de causar impacto e começa a se repetir sem inspiração, quase como uma fanfic ruim. Quando Heathcliff retorna alguns anos depois, tudo soa menos vibrante do que antes, e o filme atinge seu momento mais fraco: é quando Fennell se afasta da ousadia inicial para mergulhar no aspecto mais enfadonho tanto do livro quanto do romance em si, quase que no desespero de ter algo do livro para agradar os fãs mais conservadores.
Ainda assim, é justamente nesse trecho mais lento e arrastado que Jacob Elordi parece mais à vontade e dominador, entregando uma performance brilhante, ainda que não supere as camadas emocionais que Margot Robbie acessa ao construir uma Catherine mais decidida, mais independente e infinitamente mais desejada do que nunca. Robbie é, sem exagero, uma das grandes atrizes de sua geração.

Felizmente, a narrativa volta a decolar e conduz a um desfecho emocionalmente (e inevitavelmente) brega, sim, mas completamente submerso na tragédia que cerca essa história e a torna muito mais humana, e relacionável, do que Romeu e Julieta, por exemplo. Trata-se, afinal, de um olhar feminino sobre o desejo carnal e o amor devorador: de uma autora, uma diretora e uma atriz que, em comunhão através do tempo, rompem tabus e recusam qualquer tipo de contenção. Não é um filme transgressor, mas não esconde seu desejo de ser.
Veredito
Por fim, o que Emerald Fennell faz com sua versão safada de O Morro dos Ventos Uivantes é escancarar aquilo que sempre esteve ali: esta nunca foi uma história sobre amor romântico, mas sobre desejo carnal e obsessão. O filme entrega uma experiência cinematográfica imersa no prazer, na luxúria e no amor visceral. Se você estiver disposto a deixar adaptações anteriores na prateleira e fechar o livro por algumas horas, esta releitura picante certamente vai te satisfazer.
Há um senso de humor afiado, potencializado pela química do elenco e por um visual que flerta com o conto de fadas gótico de Tim Burton e o fetiche de um comercial de perfume. E, felizmente, não se trata apenas de aparência: Fennell constrói uma obra que ecoa a coragem de Emily Brontë em estar à frente de seu tempo. Mesmo excessivamente longa, é uma adaptação audaciosa, extravagante e deliciosamente sexy, exatamente como essa história de amor e desejo sempre mereceu ser contada.