Crítica | Fale Comigo é um terror para a nova geração

O cinema atravessa várias eras com características específicas, e com o terror não é diferente. Não faz muito tempo que ouvimos sobre a renovação que James Wan trouxe para os exemplares do gênero; ou ainda a propagação do pós-terror, denominação utilizada para segmentar filmes intensos, subversivos e que não apelam para sustos baratos — como se esse tipo de produção nunca existisse até então. Dito isto, se futuramente uma nova era do terror ficar marcada por focar e compreender os gostos da geração Z, certamente “Fale Comigo” será lembrado como um dos primeiros expoentes dessa categoria.

Não por acaso, os diretores do novo longa são os jovens estreantes Michael e Danny Philippou, irmãos cujo reconhecimento anterior se dá pelos trabalhos no canal de YouTube RackaRacka, que conta com quase sete milhões de inscritos. Boa parte do elenco igualmente jovem se encaixa bem, e a estrutura narrativa fecha tudo com harmonia. Após um prólogo que mostrará sua importância no decorrer da obra, recebemos a premissa de forma simples e sem rodeios: uma mão embalsamada permite invocar espíritos e ser possuído por eles. Ponto. Nada de perder tempo com explicações ou flashbacks da época das bruxas. Os cineastas entendem que seu público tem pressa e não é capaz de esperar nem mesmo os créditos de abertura de um filme do James Bond.

A forma como a possessão é tratada é igualmente pensada para uma geração criada nas redes sociais. As representações grotescas dos mortos continuam, mas sai o horror de encontrar uma figura dessas e entra o sentimento entorpecente de ser possuído. A possessão é representada como uma droga, que causa sensações únicas em quem recebe o espírito, além de entretenimento puro para os demais adolescentes que brincam e assistem ao evento, ávidos por registrarem tudo em seus smartphones. No passado, qualquer fã de terror já se irritou com algum personagem que achava normal se hospedar em uma casa abandonada ou que decidia investigar a escuridão depois de ver um espírito. Em “Fale Comigo”, os irmãos Philippou subvertem essa situação com muitas risadas e brincadeiras dos jovens com os mortos, representando um público que não se impressiona mais com qualquer coisa.

Mas claro que sem conflito não há filme, e uma regra tão simples quanto um limite de tempo é desrespeitada, e a porta que mantém os espíritos longe se abre. Nesse meio se encontra a nossa protagonista, Mia (Sophie Wilde), uma adolescente que vive afastada do pai enquanto sofre com a perda da mãe em circunstâncias até então misteriosas. As coisas vão ficando fora de controle quando um dos mortos que entra em contato se identifica como a própria mãe de Mia. Isso faz a personagem desejar passar mais e mais tempo possuída para descobrir o que teria de fato acontecido no dia em que sua mãe morreu.

É surpreendente o quanto os diretores conseguem extrair de boas atuações do elenco, mostrando que ter carinho pelo produto é tão importante quanto conhecimento profissional. Eles também são capazes de criar uma atmosfera de dúvida no decorrer da história, entregando momentos onde é difícil distinguir o que era real até mesmo dias após assistir ao filme. E apesar de alguns deslizes no último ato, é inegável a coragem dos cineastas em entregar um final impactante e longe do previsível. Se o futuro mostrar que “Fale Comigo” não foi capaz de iniciar uma nova era de filmes de terror ou que os irmãos Philippou não construíram uma carreira de sucesso, ainda teremos visto um dos melhores exemplares do gênero do seu tempo. E esse mérito jamais será perdido.

Nota: 9/10

Leia também: Fale Comigo | O que acontece com Mia? Entenda o final do aclamado terror


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