Para os amantes da boa e velha narrativa, Cidade de Gelo (The Silver Skates) – primeiro longa-metragem original russo da Netflix – possui todos os elementos de um conto de fadas clássico. Desde sua ambientação no frio inverno, entre os rios e canais congelados do Império na virada do século XX, na Rússia, até o convencional romance proibido entre um sujeito pobre e uma dama filha de um poderoso aristocrata. Fora, é claro, o design de produção luxuoso e um final no melhor estilo “felizes para sempre”.
No entanto, apesar de visualmente estonteante, há problemas que afastam a história de atingir seu potencial de encantamento, como a brutal duração de mais de duas horas e alguns aspectos políticos rasos e banais, que pesam sobre a leveza do romance central.
A trama e o elenco
Sem conseguir equilibrar a seriedade do contexto da época com o mundo de fantasia escapista dos protagonistas, a trama acompanha Matvey (Fedor Fedotov), o melhor entregador da confeitaria Le Grand Pie, em São Petersburgo, na virada para o século XX. O jovem consegue se destacar por causa dos patins de prata especiais que foram trazidos por seu pai – um senhor enfermo e humilde acendedor de lâmpadas – da Holanda há muitos anos. Porém, ele faz parte de uma gangue de patinadores que é caçada pelo Capitão Príncipe Arkadiy Trubetskoy (Kirill Zaytsev), um oficial do Departamento de Okhrana e futuro marido da doce e bela Alisa (Sonia Priss).
Como podemos prever, Alisa eventualmente se apaixona por Matvey e juntos precisam enfrentar os desafios desse amor proibido, que atravessa suas classes sociais no estilo Titanic, A Dama e o Vagabundo ou até mesmo uma versão reimaginada de clássicos da animação como Anastasia, que inclusive também se passa durante a Revolução Russa.

Todavia, se por um lado a trama de Cidade de Gelo pesa a mão no desajeitado contexto político da gangue que deseja avacalhar a ideologia marxista e dar ao proletariado uma desculpa para criticar a burguesia, por outro, aborda uma perspectiva feminina bastante fundamental ao atualizar o tema para os dias de hoje, uma vez que Alisa desempenha um papel muito mais expressivo do que apenas a “mocinha indefesa”. A jovem é uma química em ascensão cujas ambições acadêmicas foram reduzidas pelas atitudes culturais patriarcais da época e o roteiro – sabiamente – aborda esse machismo na construção da personagem.
Já o elenco, por sua vez, o maior destaque fica mesmo para a dupla de protagonistas que esbanja carisma e charme, uma vez que os coadjuvantes não conquistam os holofotes e o roteiro definitivamente não almeja dar mais profundidade para nenhum deles.
A direção
O trabalho do figurino e da coreografia, somado à excelente direção de fotografia, torna a atmosfera do lugar lúdica e típica de uma fantasia de época adoçada de romance, mas o diretor Michael Lockshin apenas arranha a superfície gelada com tamanha previsibilidade de sua maneira insossa de filmar e a falta de reviravoltas inteligentes do roteiro.
O gênero permite planos mais elaborados, mas o cineasta se mantém dentro do tradicional, fora a perda gradual de ritmo da narrativa, que se torna cada vez menos instigante conforme passeia pelas longas duas horas de projeção. Um total desperdício de potencial em troca de entregar um resultado que impressiona apenas pelo apelo visual.

Conclusão
Apesar de patinar luxuosamente em um convencional conto de fadas romântico, Cidade de Gelo tropeça na zona de conforto e na previsibilidade de um roteiro muito inspirado, porém pouco audacioso. Ainda assim, a fantasia tem estilo próprio e o elenco – apesar de desconhecido – esbanja carisma e energia. Para o primeiro filme original russo da Netflix, o romance cumpre as expectativas e certamente vai encontrar seu público.