Crítica | Loucura de Amor – Conto romântico envolvente da Netflix

Na noite de Barcelona, os amigos de Adri aceitam pagar outra rodada de chopp se ele conquistar qualquer mulher do bar. No meio do percurso, Carla o aborda sem hesitar, então os planos mudam completamente. Contrariando as suposições mais comuns, ela não acreditava em cantadas e seu único objetivo era viver uma aventura rápida antes da carruagem virar abóbora. Assim como essa personagem, Loucura de Amor, lançamento da Netflix, envolve o espectador num conto romântico e depois o surpreende com várias nuances. Encantado por uma donzela que o deixou sem muita explicação, o príncipe parte ao encontro dela, mas logo o castelo pelo qual ele procurava se revela um hospital psiquiátrico. A princesa, por sua vez, enfrenta vários obstáculos como uma gata borralheira e para conquistá-la, é preciso conviver no seu reino e se livrar dos estigmas relacionados a transtornos psicológicos.  

O primeiro ato de Loucura de Amor estabelece a premissa rapidamente. Na sequência inicial, até há um aceno à máxima “Querer é poder”, mas antes do público se remexer na cadeira, o roteiro se engaja em desconstruir esse chavão ao longo do desenvolvimento. Uma vez ciente da condição de seu amor platônico, Adri se interna na clínica onde a protagonista vive e por consequência, percebe que a melhora de sua amada não depende apenas de positividade e boas intenções. O pensamento dele reflete a opinião de quem recorre a preconceitos e falácias para confrontar um problema crescente mundo afora. De acordo com o levantamento mais recente feito pelo Estudo Global de Carga de Doenças em 2017, em torno de 970 milhões de pessoas no mundo preenchem critérios para o diagnóstico de algum tipo de distúrbio mental e entre elas, cerca de 45 milhões possuem características do transtorno bipolar, a mesma adversidade enfrentada por Carla.  

A relação do casal recorre a convenções do gênero comédia romântica, mas dessa vez, todas elas dialogam com o tema central do longa. O homem comum de Álvaro Cervantes é um comunicador desinformado cujas suposições se baseiam em estereótipos. Não por acaso, a jovem interpretada por Susana Abaitua retrata o oposto responsável pela sua transformação em um indivíduo empático, pois combina avidez com fragilidade. Dessa forma, aquele clipe musical que geralmente mostra o avanço do namoro, aqui representa um passo a frente no entendimento da patologia, já o desacordo clássico no meio do filme ilustra o choque para se convencer dos obstáculos e os coadjuvantes, por vezes relegados a cenas rápidas, agora expõem, de diversas formas, como o preconceito se manifesta nesse cenário. 

Diante de questões tão delicadas, o diretor Dani de la Ordem confere muita sutileza à sua abordagem. Isso se deve ao humor, característico desse tipo de narrativa, como também ao texto humanitário somado a eficiente construção dos personagens. Entre os diferentes normais da clínica, duas figuras têm arcos bem desenvolvidos e interpretações longe de caricaturas. Saúl, vivido por Luis Zahera, tem esquizofrenia e apesar da personalidade afável, a família o considera uma ameaça à filha ainda criança. Já a Marta, representada pela atriz Aixa Villagrán, receia não poder engrenar um relacionamento amoroso devido aos frequentes tiques motores e vocais provocados pela Síndrome de Tourette. No entanto, o progresso de ambos demonstra que pacientes em tratamento são menos passiveis de praticar violência e também reforçam a importância de vínculos sociais como parte da recuperação. 

No fim da experiência, Loucura de Amor preza pelo bem estar. Carla não precisava ser salva pelo otimismo de Adri, mas sim, por um acompanhamento médico correspondente às suas necessidades. Sob nova perspectiva, ele não deveria recuar diante dos empecilhos, pelo contrário, seu objetivo era compreender a realidade da garota e saber como oferecer suporte. Segundo profissionais da saúde, uma das melhores formas de auxiliar quem sofre problemas psicológicos é se informar sobre as particularidades de cada enfermidade. Além disso, é importante desenvolver uma percepção vigilante, apostar em uma escuta acolhedora e incentivar a busca por ajuda profissional, porque ao contrário dos contos de fadas, a vida real depende de mais do que amor e força de vontade para ter um final feliz. 

Nota: 7/10

Texto de Nathalie Moreira

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