Crítica | Por Lugares Incríveis é o romance mais relevante da Netflix

Por compreender o consumo do seu público alvo e o que dá mais visualização dentro da plataforma, a Netflix está produzindo cada vez mais filmes baseados em best-sellers adolescentes. Tendo ‘Para Todos os Garotos’ como carro-chefe desse sucesso, outros longas, como ‘Deixe a Neve Cair’ e ‘A Barraca do Beijo’ só evidenciam que qualidade narrativa não é o foco dessas obras genéricas, mas sim, apresentar a versão mais simplista e ordinária possível da juventude atual, mergulhada no modelo de comédias românticas dos anos 1990. Não que essas obras sejam ruins por serem escapistas, muito pelo contrário, filmes como ‘Quase 18’, por exemplo, conseguem ser simples, divertido e ainda justificar sua existência sem se preocupar com premiações ou críticas, acontece que a enorme quantidade de produções dentro do streaming é desproporcional a qualidade desses projetos. Por sorte, ‘Por Lugares Incríveis’ (All the Bright Places), o novo queridinho do gênero, entrega algo a mais, mesmo que se esforce muito para isso.

O longa é baseado no livro de mesmo título, da autora Jennifer Niven, que aliás, também é responsável pelo roteiro do filme, e narra a história de Violet Markey (Elle Fanning), que durante uma tentativa de suicídio conhece o jovem Theodore Finch (Justice Smith) e, após passar um tempo juntos e começar um namoro, ambos encontram, um no outro, motivos para viver e acreditar na vida. As intenções são as melhores possíveis e o roteiro, carregado de drama, não permite que o romance seja tão clichê quanto outras obras, já que direciona seu foco para emocionar e não para fazer rir, porém, o tom melancólico é cansativo e a vibe fúnebre, semelhante a filmes como ‘Inquietos’, do Gus Van Sant, enjoa conforme a narrativa lenta não caminha para lugar algum. Até mesmo os tais lugares incríveis são apresentados sem a devida magia que merecia.

Ainda que a química entre Elle Fanning (Malévola) e Justice Smith (Detetive Pikachu) seja boa e ambos entregam performances realmente doces e dedicadas, seus personagens possuem pouca evolução, algo que acaba sendo mais bem trabalhado no livro. A evolução de Violet no longa é evidente, mas soa forçada e passa apressada demais, assim como a mudança de humor de Finch. Como dois buracos negros, a energia de um acaba sendo sugada pelo outro e, enquanto um deles melhora e começa a enxergar a vida de uma forma diferente, o outro decai e se entrega ao pessimismo. Essa troca de personalidade é, sem dúvida, um diferencial interessante para a trama e teria funcionado melhor caso o longa fosse, na verdade, uma série com 8 episódios. Falta desenvolvimento e profundidade, apesar de ser visível que são protagonistas com muitas camadas, até mesmo os demais personagens passam despercebidos.

Brett Haley (Corações Batendo Alto) não assume riscos na direção, enquanto poderia, mas seu modelo padrão funciona para o que o longa se propõe. Ao menos, o diretor sabe dar espaço para que seus personagens possam dominar a cena em algumas tomadas mais longas. A emoção, fator importantíssimo no roteiro, é fraca se pensarmos em níveis emotivos das adaptações de John Green, por exemplo, como ‘A Culpa é das Estrelas’, mas ainda assim atinge o objetivo de fazer refletir pela enorme quantidade de frases feitas, principalmente com a ajuda da trilha sonora em momentos mais dramáticos. Dessa forma, não inventa a roda, mas também não é uma daquelas produções que se perdem pelo caminho na tentativa de fazer algo novo.

De todas as adaptações recentes de romances adolescentes genéricos da Netflix, ‘Por Lugares Incríveis’ é, de longe, o que tem mais a dizer e acrescentar, pena que se perde no desenvolvimento raso de seus bons personagens e se preocupa tanto em fazer o espectador chorar, que acaba causando tédio, já que o humor é passageiro e é o fúnebre que carrega a trama até seu desfecho melancólico que, aliás, é para ser assistido com cautela pois pode ser gatilho.

Ainda assim, provoca reflexões sobre saúde mental e mostra como um relacionamento, seja amoroso ou de amizade, pode ser também a cura para a saudade, a solidão e o luto. É um melodrama fofo, triste e que teria funcionado melhor caso fosse uma série. Não agrega novidade ao gênero, mas também não é um total desastre de superficialidade disfarçado de comédia romântica dos anos 1990. Ao menos, tenta, com todos os seus artifícios, ser mais relevante que o convencional.

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