Nos últimos anos, Anne Hathaway viu sua carreira desandar mais rapidamente do que a receita de um bolo feita com ingredientes errados. Após ganhar um Oscar por sua atuação no musical ‘Os Miseráveis’, a atriz se envolveu com uma enxurrada de projetos horríveis, que não fazem jus ao seu talento, culminando no atual ‘A Ultima Coisa Que Ele Queria’ (The Last Thing He Wanted), longa-metragem adquirido pela Netflix por não conseguir encontrar seu público no cinema de tão frustrante e descompensada que sua história é. O thriller certamente nasceu com a ideia de ser uma espécie de ‘Argo’, ganhador do Oscar de Melhor Filme, porém, sua montagem a lá Frankenstein, recheada de remendos, sobras e excessos, e sua direção desenfreada, transformam a história com potencial, em uma enorme tragédia cinematográfica de níveis catastróficos.

Diferentes de outros filmes cuja premissa boa segue caminhos duvidosos, esse é fácil entender os motivos pelos quais deu tão desesperadamente errado: não há conexão com o público. A história, adaptada precariamente de um romance homônimo da autora Joan Didion, narra a jornada de uma jornalista que abandona a cobertura de uma campanha presidencial para ir a uma ilha ajudar o pai em um acordo de negócios que se revela cada vez mais perigoso conforme seu envolvimento cresce. Isso no papel, pois na tela o efeito é absolutamente oposto, conforme a trama avança, fica cada vez mais desinteressante, confusa e cansativa, já que coloca de lado o até bom desenvolvimento de personagens que estava abordando inicialmente. Algo que só piora com a direção apressada e desconexa de Dee Rees (Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi), uma boa diretora, mas que definitivamente não sabe dosar o drama com o suspense e muito menos trabalhar o elenco.

Se não bastasse o protagonismo de Hathaway que, mesmo perdida e sem saber para que rumo seguir, dentro de uma história que dá voltas em torno de nada e não caminha para lugar algum, entrega uma atuação relativamente condizente, Ben Affleck (Liga da Justiça) e Willem Dafoe (O Farol) ainda completam o elenco. Ou melhor, são desperdiçados, com personagens rasos, sem camadas e que seguem apenas o descrito no roteiro. Parecido com ‘Operação Fronteira’, outro filme da Netflix que apresenta os mesmos erros, é constrangedor o desequilíbrio, da direção de atores, principalmente, e a forma como tomam atitudes idiotas e questionáveis diante de momentos cruciais, mesmo que o filme acredite plenamente que está sendo sofisticado, com sua narração em off e seus planos-sequência pelas locações abertas. Bons elementos, mas que se perdem por completo quando todo o restante da obra não segue esse cuidado em apresentar algo minimamente interessante ao público.

No meio do liquidificador de subtramas irrelevantes, personagens que são apresentados e descartados com a mesma frequência e reviravoltas sem pé nem cabeça, se salva apenas a direção de fotografia, escura e sombria, e a direção de arte, já que recria, com bastante exatidão, a estética de época do projeto. Com exceção da montagem sem ritmo, a parte técnica mostra que, em algum momento, houve a tentativa de fazer algo melhor e que pudesse ter funcionado se o nível de pretensão fosse menor e focado apenas em entregar uma trama intrigante e elaborada, já que o suspense parece lutar pela vida para se sobressair no meio de um drama familiar mal desenvolvido, que perde a força após cerca de trinta minutos de filme e nunca mais se recupera.

Com uma narrativa confusa e um roteiro que é puro caos, ‘A Ultima Coisa Que Ele Queria’ se consolida como um filme insuportavelmente desequilibrado, desinteressante e que não estabelece nenhuma conexão com o público. A trama pega o talento de Anne Hathaway e joga descarga abaixo sem dó, aliás, após tantas bombas na carreira depois de vencer o Oscar, a atriz já deve estar acostumada em protagonizar projetos duvidosos. Essa atrocidade cinematográfica mal costurada e bagunçada só é bem sucedida em um fato: frustrar o espectador.

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