Assim como aconteceu com o esquecido ‘MIB – Homens de Preto: Internacional’ esse ano, tem se tornado uma boa alternativa resgatar franquias já desgastadas e dar uma nova roupagem, com novo elenco (que inclui também mais diversidade) e que funciona como uma espécie de homenagem ao material original/atualização dentro do contexto da história. Esse “enterro” de franquias até tem feito renascer algumas obras interessantes, como a trilogia de ‘Star Wars’ da Disney e os dois filmes de ‘Jurassic World’, porém, não basta apenas apostar na nostalgia se o roteiro não tem nada de novo para apresentar e se vê preso na formula já deteriorada de antes. Mesmo que atualizar seja extremamente importante para atrair um público renovado e diversificado, assim também precisa ser a nova proposta, senão, temos algo similar com o caótico ‘As Panteras’ (Charlie’s Angels), novo capítulo da história que se passa no mesmo universo dos dois filmes anteriores e da série clássica de TV dos anos 70.

Acontece que entre ‘As Panteras Detonando’ (2003) e esse filme, já se passaram 16 anos. Desde então, muita coisa mudou no subgênero de filmes sobre espionagem e boas obras, como ‘Kingsman: Serviço Secreto’, ‘Atômica’ e ‘007: Skyfall’, ditaram novas regras e elevaram o nível de qualidade, tanto em ação quanto em uma trama bem desenvolvida. Qualquer filme que lide com esse tema e não entregue o mínimo possível de criatividade, acaba sendo esquecido. Por conta disso, o grande problema desse híbrido de sequência com reboot está exatamente em seu roteiro fraco e apegado ao material de base, a ponto de replicar sua formula à exaustão e de não deixar espaço para que haja qualquer tipo de frescor, além do pontual discurso feminista, que convenhamos, até funciona melhor hoje com as mudanças que o cinema está vivenciando, mas que já existe desde o seriado de TV. Claro que agora o texto está aprimorado e enriquecido de novas ideologias que ressaltam, ainda mais, o girl power da franquia, algo que ainda mantém sua essência.

Dessa forma, a grande novidade está mesmo na mudança do elenco. Sai Drew Barrymore, Cameron Diaz e Lucy Liu, para entrar Naomi Scott (Aladdin), Ella Balinska e Kristen Stewart (Personal Shopper), três ótimas atrizes, que carregam uma boa química entre si e dividem a cena com bastante entusiasmo. Stewart, em especial, está hilária e se destaca positivamente com uma personagem durona e sarcástica, que serve como o alívio cômico. Patrick Stewart (Logan) é mal aproveitado e seu desfecho é ainda mais decepcionante, assim como os demais personagens, rasos e pouco aprofundados pelo roteiro, que está mais preocupado com uso excessivo e desgastante de reviravoltas, no melhor estilo ‘Scooby-Doo’, já que, a todo tempo, a trama muda o foco sobre quem é realmente o vilão e utiliza inúmeros clichês e “deus ex machina” para facilitar o percurso das protagonistas a fim de impedirem que um novo programa de energia se torne uma ameaça global.

Fora o esforço do elenco para fazer o humor decolar, não há muitas alternativas na trama escrita e dirigida por Elizabeth Banks (A Escolha Perfeita) que, aliás, se mostra limitada também no desenvolvimento da narrativa, já que as sequências de ação são inseridas uma após a outra de forma desenfreada, sem introduções plausíveis e justificadas por conveniências baratas de roteiro. A montagem do filme é puro caos. Ademais, as cenas dirigidas por Banks são bagunçadas, corridas, sem empolgação e algumas feitas com a ajuda de um CGI vergonhoso. Ou seja, o forte da franquia, que são as cenas de ação mirabolantes, também não traz novidades. O amontoado de sequências de perseguição clichês, que se passam em diversos países para tentar justificar grandiosidade, não cobre os furos deixados pelo roteiro e, infelizmente, não dão nem mesmo o ritmo necessário para a trama caminhar de forma coerente.

Por conta disso, o novo ‘As Panteras’ até tenta trazer energia para a franquia, mas não consegue deixar de ser genérico, raso e sem inspiração. Sua falta de engenhosidade e carisma o coloca bem atrás dos filmes originais. Apesar de fazer algumas homenagens nostálgicas, do esforço do elenco para trazer algum ar de novidade e do pontual discurso feminista, que se encaixa perfeitamente nos dias de hoje, a direção caótica só não perde para o roteiro, que é uma completa bagunça. Mas pelo menos, se serve de consolo, são mulheres fantásticas e destruidoras, chutando várias bundas, só isso talvez já possa valer o ingresso.

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