Crítica | O Drama – Torta de climão no filme mais desconfortável do ano

É até injusto reduzir O Drama, novo filme da A24, ao seu plot twist, por mais provocador que seja o subtema que ele esconde sob a superfície de uma comédia romântica ácida. O longa vai muito, muito, além disso, encontrando sua verdadeira força na energia que pulsa entre seu casal protagonista, responsável por tornar a experiência não só envolvente pra cacete, mas surpreendentemente acessível, mesmo quando a história flerta com um terrível incômodo.

Quem sustenta esse equilíbrio delicado é a dupla formada por Zendaya (Euphoria) e Robert Pattinson (Morra, Amor), ambos entregando performances que figuram entre as melhores de suas carreiras. Zendaya domina cada cena com um carisma magnético e uma intensidade quase hipnótica, enquanto Pattinson injeta leveza com um timing cômico afiado, funcionando como contrapeso ideal dentro de uma narrativa emocionalmente desgastante.

O Drama é uma espécie de conto de fadas sem magia, onde o amor é levado ao limite e testado em suas formas mais desconfortáveis e cruas. É ousado, provocador e daqueles que permanecem na cabeça muito depois dos créditos, não só pela força do elenco, mas também pela dificuldade de engolir tudo o que propõe. E isso é, em todos os sentidos, genial!

Os acertos e erros do filme

A premissa incendiária de O Drama parte de um ponto delicado, quase incômodo de encarar, mas que carrega uma humanidade difícil de ignorar. É o tipo de conflito que provoca reflexão não só pela gravidade do que está em jogo, mas pela proximidade com emoções reais, aquelas que a gente prefere evitar. Sem entrar em detalhes que possam estragar a experiência de quem não assistiu ainda, basta saber que tudo gira em torno de um casal prestes a se casar, até que uma descoberta do passado da noiva abala essa estrutura e transforma o romance em um campo minado emocional. Um segredo cruel e difícil de digerir.

A partir daí, o filme deixa de ser apenas sobre romance e passa a explorar algo mais complexo: até onde vai a nossa capacidade de perdoar. Muito apoiado na força do elenco, o roteiro aposta em diálogos extensos e carregados, mas conduzidos com uma escrita afiada e sensível, que encontra humor justamente onde ele parece não caber.

Esse equilíbrio entre o desconforto e o riso cria uma experiência caótica, que alterna entre momentos de leveza e tensão quase sufocante. E, além das atuações fantásticas, o cuidado técnico também se destaca, especialmente na montagem dinâmica, que sustenta o ritmo mesmo nas cenas mais longas e densas de diálogo, mantendo o espectador completamente envolvido, méritos também de uma condução excepcional de Kristoffer Borgli (O Homem dos Sonhos), um nome para ficar de olho.

A partir do momento da revelação, O Drama mergulha de vez na ruína silenciosa de um relacionamento que parecia sólido. O que antes era cumplicidade dá lugar a um distanciamento doloroso, enquanto o casal tenta lidar com uma verdade que redefine tudo o que um acreditava saber sobre o outro. É um processo triste e, em muitos momentos, genuinamente comovente, mas também hipnotizante de acompanhar.

Conforme o casamento se aproxima, essas tensões ganham ainda mais força, e a dificuldade de comunicação entre os dois se mistura a um mal-estar, explorado em flashbacks de infância que equilibram humor e perturbação emocional. O resultado é uma deterioração gradual que nos prende até um clímax tenso, daqueles que deixam o espectador inquieto na cadeira. Zendaya entrega mais uma atuação segura, cheia de camadas e mistério, mas é o ex-galã teen Robert Pattinson quem rouba a cena com um trabalho preciso e surpreendente, talvez o ponto mais alto de uma fase em que ele claramente escolhe papéis cada vez mais interessantes e desafiadores.

Veredito

O Drama é como aquele acidente terrível no meio da estrada: você sabe que talvez não devesse olhar, mas é impossível desviar os olhos. É um filme que arde, incomoda e emociona na mesma medida, encontrando espaço para um humor sombrio mesmo quando a temática parece não permitir qualquer leveza. Uma deliciosa torta de climão muito bem servida. E, ao mesmo tempo, é uma história que cutuca fundo, nos levando a refletir sobre relações, escolhas e, principalmente, sobre o peso e a dificuldade do perdão.

Como um conto de fadas sem fantasia, o filme nos conduz por uma montanha-russa emocional que dói como a extração de um dente canino, sem nunca perder o controle. E no centro de tudo, Zendaya e Robert Pattinson mostram por que são dois dos nomes mais fortes de sua geração, sustentando juntos uma parceria que, aqui, encontra um encaixe raro, um casamento perfeito, daqueles que parecem feitos sob medida para o cinema. Você vai pelo drama e você fica pelo mergulho profundo no mais puro caos.

NOTA: 9/10

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