Crítica | Eles Vão te Matar – Carnificina estilizada que parece sequência de Kill Bill

Na melhor das hipóteses, Eles Vão Te Matar, comédia de ação do novato Kirill Sokolov, parece uma sequência direta de Kill Bill. Daqueles que não só herdam o estilo gore do Tarantino, mas fazem questão de exagerar ainda mais. E isso, longe de ser um problema, é parte do charme dessa obra. O filme não tenta reinventar a roda; na verdade ele pega a roda, pinta de vermelho, coloca fogo e sai girando. É um espetáculo que entende exatamente o tipo de experiência que quer entregar e mergulha nisso sem qualquer vergonha.

Porque aqui não tem pretensão de originalidade, e talvez seja justamente aí que mora sua energia. Em vez de buscar o inédito a qualquer custo, o longa aposta em algo mais raro: clichês executados com confiança, uma direção que claramente se diverte com o próprio caos e uma entrega quase apaixonada ao absurdo. Entre sangue jorrando, humor ácido e uma estética que flerta com o grotesco, o filme abraça o exagero como linguagem. E no meio de tanta ousadia, fica a pergunta que ele responde com um sorriso: se não dá pra ser novo, por que não ser simplesmente muito bem feito?

Os acertos e erros do filme

Convenhamos, não dá pra fingir surpresa. Essa é uma história que o público já viu (e reviu) em diferentes versões. E lançar o filme nos cinemas uma semana depois da sequência de Casamento Sangrento não ajuda muito a disfarçar isso. A espinha dorsal é praticamente a mesma: culto satânico, irmã em perigo, figuras excêntricas com tendências homicidas e uma final girl que precisa atravessar uma noite infernal para sair viva. Até o humor parece conversar diretamente entre si, como se ambos dividissem o mesmo manual de piadas ácidas e situações absurdas.

Mas é justamente aí que Eles Vão Te Matar encontra seu diferencial: ele não tenta se afastar dessas referências, ele mergulha de cabeça nelas. O filme intensifica a galhofa, estica o grotesco até o limite e ainda adiciona uma camada sobrenatural que transforma o caos diabólico em algo quase delirante. Entre lutas coreografadas com precisão e litros de sangue que parecem nunca acabar, há uma clara reverência a Kill Bill, sim, mas também um esforço genuíno de criar alguma identidade própria. E, no meio dessa carnificina estilizada, surge um destaque importante: Zazie Beetz assume o protagonismo com presença e energia suficientes para se firmar como novo rosto do cinema de ação.

E bota entrega nisso. A atriz, que já havia brilhado em Deadpool, se doa de corpo e alma ao papel. É o tipo de atuação que mistura carisma com entrega física, e ainda passa a sensação de que ela está se divertindo tanto quanto a audiência. Uma protagonista magnética, que segura o caos ao redor com uma naturalidade impressionante.

Por trás dela, Kirill Sokolov conduz tudo com uma direção que parece brincar o tempo inteiro com a própria linguagem. A câmera nunca fica parada, ela observa, provoca, se arrisca, e transforma o tal “hotel de assassinos” em um parque de diversões visual. O ritmo é acelerado, quase sem respiro, recheado de ação coreografada que flerta com o exagero estilizado de outros clássicos, como Oldboy e Operação Invasão, mas sem esquecer de inserir pequenas doses de emoção e afeto no meio de toda a violência e o caos.

Dividido em capítulos e com uma montagem afiada, o filme dá uma verdadeira aula de ritmo e encontra um equilíbrio surreal: é puro entretenimento escapista, mas com uma pulsação criativa que mantém tudo vivo do primeiro ao último minuto. E são poucos os filmes hoje em dia que realmente sabem o que fazer com o próprio tempo e Eles Vão Te Matar é um desses casos raros. Em enxutos 90 minutos, não sobra gordura nem falta energia, tudo parece calculado para manter o espectador imerso.

Claro, o roteiro segue um caminho previsível e cheio de clichês risíveis, mas faz isso com uma fluidez invejável. É redondinho! Quando chega ao bizarro clímax, o filme abraça o delírio de vez e entrega uma sequência que parece ter saído diretamente de um anime de terror. E quando a trilha sonora frenética entra, é como se alguém girasse o botão do volume da adrenalina. Fica realmente difícil não embarcar nessa loucura toda.

Talvez o maior tropeço esteja justamente na forma como o filme segura suas cartas por tempo demais. Ao demorar para assumir de vez o seu lado fantástico, ele cria uma barreira inicial que pode dificultar a imersão, especialmente quando entra em temas como imortalidade e outras licenças mais absurdas. Em alguns momentos, é preciso um certo esforço para “comprar” a ideia. Mas, curiosamente, quando você aceita o jogo e mergulha nessa proposta sem freio, tudo passa a funcionar. O exagero deixa de ser problema, vira combustível e aí, somos possuídos pelo divertimento.

Veredito

No fim das contas, Eles Vão Te Matar se assume como aquilo que sempre quis ser: uma mistura descontrolada, violenta e estilosa de ação com suspense. Mesmo com um roteiro que segue caminhos já conhecidos, o filme compensa no entretenimento escapista, na energia lá em cima e na violência coreografada que transforma cada confronto em um verdadeiro espetáculo visceral. É o tipo de experiência que faz o ingresso valer pelo impacto, pelo ritmo e pela coragem de ser galhofa. E talvez por isso ele acabe surpreendendo tanto.

Sem dúvida, uma das primeiras gratas surpresas desse ano, com cara (e muito potencial) de virar franquia de sucesso. Com uma protagonista magnética, cenas de ação afiadas, humor ácido e uma estética que aposta no exagero como identidade, o longa encontra seu próprio espaço apesar de inúmeras referências e inspirações. Apesar do excesso de sobrenatural, é difícil não ser possuído por essa diversão toda. Para mim, a experiência foi insana.

NOTA: 9/10

Última Notícia

Mais recentes

Publicidade

Você vai querer ler isto: