Crítica | Iron Lung – Um experimento curioso que perde o fôlego muito rápido

À primeira vista, é impossível não admirar a simples existência de Iron Lung, mesmo com seu orçamento limitado ao básico. O longa marca a estreia na direção do criador de conteúdo Mark Fischbach, mais conhecido como Markiplier, que decidiu adaptar para o cinema o jogo indie de terror criado por David Szymanski, em 2022. Mais do que isso: ele escreveu, dirigiu, editou, financiou e ainda protagonizou o projeto. Em uma indústria onde até produções médias dependem de grandes estúdios, ver um filme assim chegar aos cinemas já é, por si só, um pequeno milagre, né? E o cinema precisa dessas ousadias.

O problema maior é que, apesar de toda essa paixão evidente pelo material original (algo que também é um risco terrível), o resultado final está anos-luz longe de ser tão fascinante quanto a história por trás da sua produção. E, mesmo com o nível divertido de imersão estilo simulation horror, o longa dá aquela vontade de pular todas as cutscenes, já que não há trama (e nem idéias) o suficiente para manter essa obra respirando por muito tempo.

Os acertos e erros do filme

A trama de Iron Lung, adapatada do game, se passa em um futuro desolador em que todas as estrelas desapareceram após um evento misterioso. O que restou da humanidade tenta encontrar algum tipo de esperança explorando uma lua isolada, onde existe um oceano literal de… sangue! É nesse cenário que acompanhamos Simon, um prisioneiro condenado enviado para pilotar um pequeno submarino em uma missão de exploração praticamente sem volta.

A premissa, convenhamos, é super divertida e bem videogame. Um submarino claustrofóbico mergulhado em um mar de sangue, um protagonista completamente sozinho e um universo pós-apocalíptico cheio de mistérios. É exatamente o tipo de ideia que parece perfeita para um terror cósmico cheio de tensão e paranoia, com referências claras à H. P. Lovecraft, Evil Dead e aos games de Alien e DOOM para Playstation 1. Mas existe um enorme abismo entre uma boa ideia e saber transformá-la em cinema.

Quase todo o filme se passa dentro do tal submarino suicida, com o personagem de Fischbach isolado do mundo, recebendo apenas algumas instruções e mensagens via rádio. Em teoria, esse minimalismo – resgatado do jogo – poderia funcionar muito bem, o cinema já provou várias vezes que histórias centradas em um único personagem podem ser extremamente envolventes. O problema é que Iron Lung sofre de um ritmo arrastadíssimo desde o início, já que aqui você não controla nada.

Boa parte do tempo somos convidados a assistir o protagonista girar botões, olhar para telas antigas, anotar coordenadas ou discutir com vozes no rádio. Não há exatamente um senso de progressão dramática, apenas a sensação constante de que as coisas estão… acontecendo lentamente. E muito lentamente para sustentar suas 2 horas de duração.

O filme parece esticar uma premissa que claramente funcionaria melhor como um curta-metragem. O material original é conhecido justamente por sua experiência compacta e intensa, e a adaptação curiosamente faz o oposto: dilui essa tensão até que ela quase desapareça.

Como protagonista, Markiplier até segura a câmera com certa competência. Quem acompanha seu trabalho online sabe que ele tem presença e carisma, e isso aparece em alguns momentos mais contidos da performance. Mas o roteiro insiste em levá-lo repetidamente para explosões de raiva e monólogos gritados que rapidamente se tornam repetitivos e enfadonhos.

Sem outros personagens em cena para criar dinâmica ou contraste, o filme depende quase exclusivamente da capacidade do ator de sustentar o nosso interesse. As vozes no rádio até tentam criar algum tipo de interação, mas essas relações nunca se desenvolvem de verdade. Falta tempo (ou talvez sagacidade do roteiro) para construir qualquer vínculo emocional mais forte e necessário para criar empatia com esse universo caótico, denso e desesperançoso.

Infelizmente, Iron Lung só melhora justamente quando está no seu desfecho. Nos minutos finais, o filme finalmente abraça o survival horror de forma mais explícita e visceral, com efeitos práticos interessantes, algumas imagens grotescas e um pouco da violência sanguinolenta que a premissa prometia desde o início. Há ali um vislumbre do filme que poderia ter sido: estranho, perturbador e visualmente marcante. Quando o terror raiz finalmente entra em cena, já passamos tempo demais acompanhando uma rotina mecânica tediosa dentro do submarino.

O que impressiona é que, tecnicamente, existem alguns elementos deliciosos que agradam tanto fã de games quanto de terror especial. O design de produção do submarino é muito bem pensado, com uma estética industrial suja e analógica que lembra bastante as obras clássicas de Ridley Scott e Cronenberg. A sensação de tecnologia velha, cheia de monitores simples e botões físicos, ajuda a criar uma atmosfera desconfortável e opressiva que envolve.

A trilha sonora de Andrew Hulshult também cumpre bem seu papel, contribuindo para dar algum senso de urgência que o roteiro raramente consegue construir sozinho. Mas esses acertos estéticos não são suficientes para sustentar o filme por duas horas. Em muitos momentos, fica a sensação de que estamos diante de um grande conceito visual em busca de uma história mais forte, um pesadelo mais intenso.

Veredito

É impossível não respeitar o esforço por trás dessa adaptação cinematográfica do game Iron Lung. O fato de um criador da internet financiar e lançar um filme independente que chega aos cinemas já é uma vitória impressionante por si só e talvez seja justamente por isso que tanta gente esteja torcendo por ele. Mas boa vontade não substitui ritmo, tensão ou narrativa.

Iron Lung tem uma premissa excelente, uma atmosfera interessante e alguns momentos visuais realmente marcantes. Só que tudo isso está preso dentro de um filme lento, repetitivo e surpreendentemente vazio. A sensação final é a de um experimento curioso que poderia funcionar muito melhor em um formato mais curto ou com um roteiro mais interessado em explorar seu próprio universo de horror. Entre a ousadia da proposta e a execução arrastada, o resultado acaba ficando sem fôlego para sobreviver.

Nota: 5/10

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