Crítica | “A Noiva!” não ressuscita nenhum clássico e muito menos tem força para ter vida própria

Tão clássico quanto o próprio tempo, o universo criado por Mary Shelley volta aos cinemas em mais uma adaptação, desta vez filtrada pelo olhar contemporâneo e assumidamente feminista da atriz e diretora Maggie Gyllenhaal. Mas aqui o foco não está no monstro de Frankenstein em si (e a gente agradece por isso!), e sim em sua noiva, personagem que se tornou um ícone do horror desde sua breve, porém memorável aparição em A Noiva de Frankenstein (1935), dirigido por James Whale, continuação direta do clássico Frankenstein de 1931.

A proposta de A Noiva! até chama atenção: revisitar esse mito do horror sob uma perspectiva moderna, explorando temas como autonomia feminina e questionamentos sobre os papéis de gênero, especialmente dentro do contexto social do início do século passado. No entanto, apesar de alguns momentos pontuais de humor e de um subtexto que tenta provocar reflexão, o filme acaba se revelando uma experiência enfadonha, com dificuldades para encontrar ritmo e transformar sua ideia central em algo realmente envolvente. A Noiva! não ressuscita nenhum clássico e muito menos tem força para ter vida própria.  

Os acertos e erros do filme

Cheio de referências, sendo a mais evidente a dinâmica de Bonnie e Clyde e o imaginário dos filmes de assalto noir das décadas de 1950 e 60, mas também tem um ar de Coringa: Delírio a Dois, o longa tenta desenvolver esse romance gótico a partir de uma ideia bacana: colocar a própria Mary Shelley como uma espécie de narradora onisciente, quase um “deus que tudo vê”. É ela quem afirma que Victor Frankenstein nunca contou nem metade do que sua história poderia revelar sobre a sociedade hipócrita e violenta com as mulheres de sua época.

No papel, a proposta é ótima e dialoga diretamente com discussões muito atuais, como feminicídio. Na prática, porém, o filme (com mais de 2 horas de duração!) frequentemente parece um exercício tempestuoso contra o sono. É quando Shelley passa a habitar o corpo e a mente da caótica Ida que surge uma protagonista ousada, poderosa e muito à frente de seu tempo, o tipo de mulher que naturalmente incomoda todos os homens à sua volta. E isso é sensacional!

E aqui aparece também o principal motivo para o filme ter alguma força: Jessie Buckley. A atriz, magnética, entrega mais uma performance avassaladora como a noiva que precisa descobrir qual é o seu verdadeiro lugar no mundo depois de ser ressuscitada por uma médica insana para servir de par romântico a um monstro sensível. Buckley, que deve levar o Oscar por Hamnet muito em breve, é a alma do projeto e é difícil tirar os olhos da tela sempre que ela aparece com sua energia caótica e contagiante.

É então que surge o doce e inocente Frank, interpretado por Christian Bale, o lendário Monstro de Frankenstein, agora com mais de um século de existência e ainda à procura de algo que combata sua solidão masculina. Mesmo não sendo exatamente o foco da história que Gyllenhaal deseja contar, Bale entrega uma performance ao mesmo tempo divertida e surpreendentemente profunda, que facilmente se coloca entre as interpretações mais poderosas e marcantes do personagem no cinema até hoje. Muito superior até que Jacob Elordi no projetinho chato de Guillermo del Toro para a Netflix.

Há uma inocência quase indulgente na forma como o “monstro” lida com sua própria dor e culpa, o que transforma cada aparição em cena em algo deliciosamente imprevisível. Bale encontra um equilíbrio curioso entre melancolia, humor e estranhamento e prova, mais uma vez, que é capaz de transitar por camadas muito diferentes dentro de um mesmo personagem. É o tipo de atuação que dá vontade de ver mais, justamente em um filme que, ironicamente, insiste em se distrair com tramas bem menos interessantes.

O roteiro, aliás, bastente raso e clichê, mesmo quanto tenta ser profundo e filosófico, se perde em uma série de subtramas mal resolvidas: investigação que não leva a lugar algum, uma detetive com discurso feminista raso, um submundo do crime que nunca ganha peso dramático. Até a própria presença risível de Penélope Cruz como uma aspirante a detetive se torna um estereótipo absoluto da desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Elementos que só acabam roubando tempo daquilo que realmente funciona: a relação explosiva entre esses dois monstros apaixonados.

Para mim, o ponto mais baixo de A Noiva! surge quando o filme tenta reforçar, quase desesperadamente, seu manifesto feminista e acaba se perdendo em uma enxurrada de jargões e imagens simbólicas que fazem tudo soar como uma cartilha já pronta. Falta sutileza na maneira como o tema do empoderamento feminino é abordado, e essa insistência didática acaba apenas evidenciando as rachaduras de um roteiro pobre em boas ideias.

É uma pena, porque tecnicamente há muito a admirar na produção de Gyllenhaal. O figurino e o trabalho de cabelo são excelentes, e a produção recria com bastante estilo essa atmosfera crua e rebelde do submundo queer da época, com uma energia quase rock’n’roll. Ainda assim, quando a estética termina de impressionar, sobra a sensação de que não há muito mais ali para sustentar a história, que não vai para lugar algum.

Veredito

Infelizmente, pra mim, A Noiva! parece um daqueles experimentos que nascem cheios de boas intenções, ideias provocativas e um discurso alinhado com o espírito do tempo, mas que tropeçam justamente na hora de transformar tudo isso em cinema. A releitura proposta por Maggie Gyllenhaal até tem elementos instigantes, especialmente quando deixa Jessie Buckley e Christian Bale ocuparem o centro da narrativa, e há momentos em que o filme parece prestes a encontrar sua própria identidade dentro desse universo herdado de Mary Shelley. Mas são lampejos tão isolados, em uma obra que se perde entre discursos estereotipados, subtramas chatas e uma condução dramática enfadonha, sem ritmo e sem impacto. Tedioso!

O resultado é um filme que quer falar muito, mas raramente encontra a forma certa de dizer algo com naturalidade. Entre um visual caprichado, boas atuações e uma premissa cheia de potencial, fica a sensação de que havia um projeto mais interessante tentando emergir dali, um que confiasse mais na potência dos personagens e menos na necessidade de explicar suas próprias intenções. No fim, essa nova vida dada à noiva acaba sendo curiosamente contraditória: tecnicamente bem construída, ocasionalmente fascinante, mas dramaticamente tão sem fôlego que mal consegue se manter de pé. “I prefer not to”.

NOTA: 5/10

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