Crítica | Isso Ainda Está de Pé? – Crise de meia idade em dramédia sonolenta

Não é de hoje que a comédia vem perdendo espaço nas salas de cinema. Talvez por isso surpreenda que Isso Ainda Está de Pé? tenha escolhido as telonas (e não o streaming!) como destino. É claro que ter um nome como Bradley Cooper na direção pesa no marketing e desperta curiosidade, mas, mesmo defendendo que o gênero precisa reconquistar seu espaço nas telas, sobretudo quando aposta em um texto mais inteligente, aqui a irregularidade de ritmo denuncia que o projeto talvez funcionasse melhor mesmo no conforto de casa.

Cooper, como diretor, gosta de tensionar seus atores ao limite e costuma extrair deles personagens intensos, com presença e química evidentes. Esse traço, felizmente, permanece e a gente agradece. Ainda assim, nesta comédia madura sobre reaprender a viver depois dos 50, falta é fôlego. Há boas intenções e momentos pontuais de brilho, mas a energia nunca se sustenta o bastante para transformar a experiência em algo memorável – ou mesmo divertido de acompanhar por mais de 2 longas horas.

Os acertos e erros do filme

A premissa do longa da Searchlight Pictures parte, obviamente, de uma crise masculina de meia-idade: um casamento em que ainda existe amor, mas cuja engrenagem já não gira como antes. Um estudo de personagem bastante interessante, diga-se de passagem. É um ponto de partida honesto — e até necessário.

Há mérito em ver um roteiro (escrito por homens) abrir espaço para conflitos mais maduros, menos idealizados, encarando a vida a dois sem filtros. Nesse contexto, a comédia, especialmente o stand-up, surge como válvula de escape, quase uma terapia improvisada, onde o protagonista encontra um palco seguro para expor suas inseguranças como homem.

O texto, assinado por Cooper em parceria com Will Arnett, que também protagoniza o filme, demonstra coragem ao retratar a fragilidade de um homem que já não se enxerga como o provedor incontestável da família. O problema é que a crise apresentada, embora legítima, soa pequena e cotidiana demais para sustentar uma narrativa tão longa. Entre conflitos que não ganham densidade e situações que se acumulam sem propósito claro, o filme se dispersa e os ruídos acabam falando mais alto do que o próprio drama que pretende explorar. De metade para o desfecho, a história nunca consegue encontra seu final ideal.

Por mais divertida que seja a ideia de acompanhar um paizão de 50 anos redescobrindo o mercado do amor (e do sexo) depois de mais de duas décadas de casamento, é Laura Dern quem se torna o verdadeiro coração disso aqui. Mesmo com uma personagem que, em essência, funciona como motor para que a trama aconteça, a atriz transcende a função narrativa. Dern é dessas intérpretes que elevam qualquer material, e aqui sua química genuína com Arnett é um dos maiores prazeres da sessão.

Arnett, por sua vez, também entrega um protagonista cheio de nuances criativas. Alex é um homem passional, atravessado por sentimentos que nunca soube verbalizar, alguém que usa o humor como escudo, como mecanismo de defesa. A performance é convincente e, em certa medida, íntima, como se o ator expusesse algo muito pessoal em cena.

Ainda assim, trata-se de uma história melancólica demais, por vezes até abatida para o próprio formato deprê. O humor nem sempre consegue aliviar o peso do drama, que se alonga em alguns momentos. O estudo psicológico proposto é interessantíssimo, mas também torna a narrativa mais densa do que envolvente, exigindo do espectador uma entrega que o filme nem sempre recompensa, uma vez que boa parte das piadas são nada além de medianas. E o desfecho, mais clichê impossível.

Veredito

Embora funcione como um estudo de personagem interessante dentro de uma rara comédia dramática madura, Isso Ainda Está de Pé? parece não saber a hora de encerrar sua própria crise de meia idade. Bradley Cooper é um realizador competente, mas carrega a tendência de acreditar que seus personagens são mais complexos do que o roteiro realmente sustenta. Aqui, a impressão é de que a premissa se esgota cedo demais e o filme segue tentando extrair dela uma profundidade que já não encontra.

Há qualidades, sem dúvida. A química do elenco é genuína, e a disposição em abordar as fragilidades masculinas sem caricatura é um mérito. São elementos que justificam a experiência. Ainda assim, é difícil ignorar que se trata de uma obra que talvez encontrasse melhor abrigo no streaming, onde seu ritmo irregular seria menos evidente.

No fim, manter a trama de pé exige um esforço que o espectador nem sempre está disposto a fazer, especialmente quando a vontade é se acomodar na poltrona e fechar os olhos por alguns minutos. E, mesmo que isso acontecesse, a sensação seria a mesma: a de que a história não teria saído do lugar.

NOTA: 5/10

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