James Mangold nunca foi um diretor de autoralidades, isto é fato. Mas de Identidade, passando por Johnny & June, atravessando Os Indomáveis e chegando em Encontro Explosivo, o que se via era um diretor disposto a explorar gêneros e trabalhar em suas próprias experimentações dentro deles – Logan, por exemplo, é um dos resultados mais maduros na filmografia de Mangold sobre as possibilidades de um encontro de propostas e estilos. Naquele caso, do western melodramático aos filmes de herói.
Daí que é, no mínimo, peculiar que tantos louros para Um Completo Desconhecido e seu protagonista Timothee Chalamet cheguem logo após as tantas controvérsias de Indiana Jones e a Relíquia do Destino, filme onde Mangold menos pareceu se encontrar. Neste recorte sobre a vida de Bob Dylan, o cineasta já se encontra em campo conhecido (o da biopic) e com todo um terreno preparado para se disfarçar de autor clássico após toda a barulheira da última aventura de Indy. Mas, como já dito, a autoralidade nunca foi o forte de Mangold.
Índice
Os acertos e erros de Um Completo Desconhecido
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Situado nos anos 60, quando Dylan tinha apenas 19 anos, a narrativa se posiciona num momento em que o músico estava prestes a deixar de ser um completo desconhecido. No caminho de sua ascensão e revoluções no cenário da música folk enquanto a Guerra do Vietnã se fazia presente e os movimentos civis entravam em ebulição, o roteiro de Mangold ao lado de Jay Cocks aceita, sem muita dificuldade, o próprio não-lugar de Dylan dentro dos movimentos os quais suas músicas tanto dialogam.
Essa persona tão indecifrável de Dylan, por exemplo, foi o que deu à luz ao que talvez seja o melhor retrato sobre as transmutações do ator, Não Estou Lá, enquanto o script de Mangold e Cocks muito mais prejudica do que fascina a narrativa ao aceitar a persona indecifrável de Dylan: vamos mesmo passar por duas horas e meia acompanhando um protagonista egóico sem saber exatamente quem ele é e ainda tentar torcer por sua jornada, de alguma forma?
Existe, é claro, uma complexidade muito bem-vinda em abraçar um personagem que não está ali para nos acompanhar de mãos dadas, que não está ali para se justificar enquanto retratado. Dylan é quem é, e ponto. Grande parte do problema, entretanto, está no fato de que esta única nota na qual Dylan é imposto pelos 140 minutos de filme. Uma nota que o posiciona como o típico “gênio incompreendido” que recusa o próprio sucesso, que se dedica à sua arte acima de tudo, até mesmo das apostas mercadológicas, enquanto todos ao seu redor, especialmente as mulheres, se rendem a um magnetismo que o roteiro jamais investiga de onde vem ou onde se estabeleceu. É tão justo assim Bob Dylan ser um COMPLETO (em letras garrafais mesmo) desconhecido até para o espectador?
Tamanha obsessão pelo não-lugar do protagonista prejudica não somente a compreensão sobre seu momento, mas também sobre as relações que o acompanham e, mais ainda, as influências de todas estas vivências nas suas composições. A narrativa aposta em saltos que não pedem licença nenhuma para se estabelecer, fragilizando a própria subida de Dylan ao estrelato. Quando os assédios das fãs começam, não entendemos muito bem em que momento o músico chegou ali. Entendemos, é claro, a investigação de uma masculinidade tóxica e egóica que, não é novidade, fez parte da carreira do músico. Mas o que existia por detrás desta personalidade aparentemente impenetrável em suas contradições, afinal? O filme não sabe, o roteiro não sabe, e tenho minhas dúvidas se Chalamet também sabe.
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Não que a encarnação deste papel não represente uma novidade dentro da filmografia de Chalamet, muito pelo contrário. Na tarefa de emular a postura, o olhar baixo e a voz fanha de Bob Dylan, o ator se lança com gosto no desafio de dar vida ao seu próprio Dylan, inclusive emprestando sua própria voz às regravações das canções do músico. Mas isso não impede que o ator igualmente se renda à caricatura do já apontado “gênio incompreendido”, falhando principalmente nos momentos-chave de emoção (sua despedida da Sylvie Russo de Elle Fanning é pra lá de vergonhosa).
E poxa, Elle Fanning. Não lembro a última vez que um roteiro tratou uma personagem feminina com tanta ingratidão, resumindo-a a um saco de pancadas e traições que não parece justificar sua presença ali (Sylvie é fictícia). Fanning já é uma atriz limitada por si só, mas dá dó perceber o quanto o roteiro a despreza. Felizmente, Edward Norton e, principalmente, Monica Barbaro denotam talento suficiente para escapar de quaisquer armadilhas que o roteiro lhes jogue em cima. Esta última, em especial, faz de Joan Baez uma presença muito maior do que sua posição enquanto parte de um triângulo amoroso lhe oferece, enquanto também transforma os melhores momentos musicais da obra em seus, se destacando igualmente pelo seu timbre vocal.
Em suas recriações, é claro, Mangold segue impecável na aplicação da técnica (também pudera, com tantos anos de experiência e 70 milhões para gastar), recriando uma NY sessentista muitíssimo bem fotografada pelas lentes de Phedon Papamichael que valoriza as camadas da imagem e todos os detalhes da direção de arte e da maquiagem. A sequência em que Joan vê Dylan cantar pela primeira vez, por exemplo, é um espetáculo de luz, sombras e posicionamento de câmera em relação aos atores. Da mesma forma, Mangold dá um tempo valoroso às músicas e permite que o espectador sinta as melodias e seus acordes, apesar de, novamente, ser uma lástima o filme se recusar a descobrir de onde elas vêm – talvez apenas The Times They Are a-Changin’ encontre o eco narrativo que todas as outras músicas mereciam.
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Veredito
Daí que Um Completo Desconhecido, com sua imagem final de Dylan andando sem rumo em sua moto enquanto um letreiro nos lembra do prêmio Nobel em que o músico não compareceu, nos diz tão, tão pouco sobre essa persona que se propõe investigar dentro de um pacote frágil e um tanto incompreensível, e sinto dizer, não parece ser somente para se alinhar ao desconhecido proposto pelo título. James Mangold já fez esse filme, e melhor.
Nota: 5/10
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