Não é novidade que a Amazon Studios está disposta a investir alto para alcançar o prestígio das suas concorrentes. Para isso, o serviço de streaming está desenvolvendo uma série bilionária baseada nos livros de ‘O Senhor do Anéis’, com previsão de estreia para o ano que vem, porém, resolveu dar aos seus assinantes um gostinho de como pretendem abordar a fantasia e como são capazes de criar uma megaprodução ao nível dos cinemas. Com isso, nasce a interessante ‘Carnival Row’, série desenvolvida pela dupla René Echevarria e Travis Beacham que, apesar de replicar elementos comuns da cultura pop, se aproveita do “diferente” para tratar assuntos mais profundos, através de alegorias e metáforas.

A série inicia de forma enérgica e já na primeira sequência de ação, é possível ver a qualidade técnica e os efeitos especiais de alto nível, dois elementos que, definitivamente, se destacam na produção. Por se tratar de uma fantasia convencional, com bruxas, fadas, lobisomens e outras criaturas mágicas, a série lembra onde ‘Penny Dreadful’ tentou chegar e bebe da fonte de ‘Harry Potter’ e ‘Star Wars’, em seu visual neo-noir, e ‘As Crônicas de Nárnia’, na abordagem do mundo mágico em um contexto social. Aliás, visualmente C.S. Lewis é uma das inspirações do roteiro, que presta homenagem à sua maneira singular de desenvolver personagens repletos de pureza e bondade, que precisam enfrentar um mundo obscuro e preconceituoso, dominado por humanos impiedosos.

E essa tal pureza está presente na co-protagonista Vignette Stonemoss, uma humilde e doce fada, que vê seu pequeno e isolado mundo virar de pernas para o ar quando seu vilarejo é atacado por humanos, forçando-a seguir viagem rumo à cidade de Carnival Row, onde precisa escolher entre manter sua inocência ou sobreviver na terra dos homens. Apesar de ser uma fada, uma criatura tão lúdica na cultura pop, a personagem vem carregada de profundidade e sua caracterização busca trazê-la para um contexto mais realista possível. Cara Delevingne, por mais incrível que possa parecer, entrega uma atuação mais leve, emocional e condizente com a proposta, sem os exageros da Magia, em ‘Esquadrão Suicida’, até mesmo crescendo conforme a trama avança e fazendo um bom equilíbrio com Orlando Bloom, que vive seu interesse amoroso. Mas vale ressaltar que falta química entre a dupla, que acaba funcionando melhor quando seguem subtramas separadas.

Por falar nisso, Bloom também se mantém bom durante os episódios, já tendo experimentado produções parecidas em proporção, como ‘Piratas do Caribe’ e ‘O Senhor dos Anéis’, mostra habilidade nas sequências de ação, mesmo que tenha suas expressões limitadas. O ator vive o inspetor Philo, que investiga uma série de assassinatos sangrentos aos seres mágicos da cidade, premissa que move a história, enquanto guarda consigo um segredo do passado que pode mudar o curso de sua vida para sempre. Na cidade, o convívio com seres mágicos é comum, sendo a grande maioria utilizados como servos e empregados de famílias ricas. O roteiro utiliza dessas alegorias para tratar inúmeras pautas como racismo, preconceito, intolerância, autoritarismo e, até mesmo, a crise dos imigrantes que tanto abala nosso momento atual, acertando, principalmente, em trazer esses debates para a superfície e não apenas deixá-los subentendidos, é exatamente essa “luta por igualdade” que engrandece a trama e a mantém promissora para o futuro.

Apesar da enorme qualidade técnica, do trabalho impecável de figurino e da série se aproximar mais de uma produção para os cinemas, o ritmo desacelera da metade para o final da temporada e os oito episódios se arrastam até a conclusão. A “barriga” do roteiro direciona a produção para um tom novelesco a partir do quarto episódio, onde também se mantém mais em estúdio e menos nos cenários incríveis que haviam sido apresentados, alguns com o uso adequado de CGI e outros filmados em locações. Desse ponto em diante, a série segue para uma trama mais política e densa, porém, lenta e repleta de momentos que poderiam ser enxugados em cenas curtas e menos repetitivas, eficazes para manter o ritmo em alta. Há também diversos núcleos e personagens que, apesar de enriqueceram a história e servirem de fio condutor, também retarda sua narrativa, com exceção do núcleo vivido pela atriz Tamzin Merchant e seu interesse misterioso (sem dar spoilers!) no Puck, um ser que mescla demônio com fada doméstica, vivido pelo ator David Gyasi.

Além da bem-sucedida crítica social proposta pelo roteiro, outros elementos também são extremamente positivos, como a boa construção de suspense, revelando o monstro vilão da história aos poucos, ao longo de cada episódio, e entregando um desfecho repleto de plot twists. Fora isso, a violência gráfica, o gore e o excesso de sangue, distanciam a produção de ser uma fantasia infantojuvenil, o que funciona, se considerar que uma das intenções é ser a nova ‘Game of Thrones’, apesar de abraçar o lado fantástico com mais vigor do que a aclamada da HBO. E, se o contexto pede uma trilha sonora céltica, com coral angelical, instrumentos como harpa, piano e gaita, a série entrega com muita beleza.

E é com sua inegável qualidade técnica, que a superprodução da Amazon Studios surpreende com uma fantasia mergulhada em metáforas sociais, em que seus personagens mágicos servem também para expressar uma busca indispensável por igualdade. A estética, a caracterização e os figurinos são extremamente sofisticados e não perde em nada para grandes filmes lançados nos cinemas. Talvez ‘Carnival Row’ marque o retorno da fantasia épica para o grande público, já deixada de lado após o fim de ‘Harry Potter’ e ‘Game of Thrones’. Mesmo com pequenos detalhes, que ainda precisam encontrar o tom ideal nas próximas temporadas, fazia tempo que uma série não era tão promissora quanto esta.

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