Desde que a terceira parte de ‘La Casa de Papel’ foi anunciada pela Netflix, a dúvida que ficou foi se haveria alguma necessidade de continuar a história após a conclusão fechada do roubo. Será que o retorno da série seria apenas visado no lucro megalomaníaco que a produção recebeu de volta ou, de fato, ainda haveria algo inédito para contar? Felizmente, essa sensação de repetição foi contornada com muita maestria e, mesmo que haja elementos que mantém a essência da série, a produção encontrou formas criativas de estender os personagens e suas relações após o grande assalto a Casa da Moeda da Espanha, afinal, a Parte 3 é exatamente sobre as consequências, tanto para os protagonistas, quanto para o mundo.

E assim como em ‘Jogos Vorazes’ e ‘V de Vingança’, por exemplo, o assalto, os ladrões, as roupas vermelhas e as máscaras do Dalí se tornam símbolos de uma revolução, que começa silenciosa, até dominar as ruas de todo o mundo (incluindo o Brasil), com a população já exausta do controle de seus Governos. Essa saída do roteiro talvez seja a grande novidade desse retorno e a que abre inúmeras possibilidades para o futuro da série e para sua grandiosidade. Aliás, o q uesito “maior e melhor” se aplica totalmente, já que agora a qualidade técnica é exuberante e a produção evidentemente investiu mais em busca de criar uma série mundialmente popular. Além disso, essa magnitude também se aplica a essência da série e ao seu ritmo frenético, que não só está mais instigante, como também mais coerente que antes.

Na verdade, a produção é tão expandida e sua qualidade técnica tão maior, que a Parte 3 funciona quase como um “revival” da série, como se fosse lançada alguns bons anos após o final. A maneira como os personagens são reapresentados, como o mundo reagiu ao grande roubo, como o roteiro escolhe mostrar o passado, tudo aumenta a sensação de resgate e, consequentemente, uma nova oportunidade de refazer alguns pontos fracos e fechar pontas soltas. Para isso, é claro, é inevitável se repetir para não fugir da estrutura que funcionou. Até mesmo a justificativa de trazer o Berlim (Pedro Alonso) de volta pode até ser bem óbvia, mais plausível e bem justificada conforme a trama avança, já que o plano para o novo grande roubo ao Banco da Espanha partiu dele no começo de tudo e, assim, com tudo já preestabelecido, o novo ano dedica seu tempo também para se aprofundar no drama humano e nos sentimentos de cada um dos bandidos/heróis, colocando a ação propriamente dita apenas nos três últimos episódios.

Por outro lado, essa diminuição da ação funciona para uma melhor construção do suspense, que cresce gradativamente conforma a trama avança, auxiliado pela montagem paralela, que mescla o passado, o presente e acontecimentos simultâneos de maneira ainda mais excitante que antes, afinal, agora o perigo é maior e a detetive Alicia Sierra, vivida pela ótima e caricata Najwa Nimri, é impiedosa e não teme jogar sujo para conseguir por um fim no roubo e evitar ainda mais constrangimento na mídia. Dessa forma, o plano do Professor (Álvaro Morte) se tona mais verossímil, assim como os contornos que a polícia consegue dar, algo que faz a corrida de “gato e rato” ser divertida, ágil e empolgante. Cada episódio que passa, um lado está no controle, e a intensidade nos deixa na ponta do sofá, afinal, a série sempre foi muito criativa em conseguir sair dos becos que o roteiro costuma entrar.

Tudo começa com Tóquio (Úrsula Corberó) e Rio (Miguel Herrán) vivendo em uma ilha isolada após 2 anos do grande roubo. Essa premissa que leva à nova trama. Quando Rio é capturado e torturado após um deslize, o Professor se vê na necessidade de reunir o grupo e fazer o que sabem fazer de melhor: roubar; para resgatar Rio e chamar ainda mais a atenção do mundo, que agora os vê como heróis e símbolos de uma resistência. Porém, o roubo é ainda mais épico e perigoso que antes e, dessa vez, as chances de saírem vivos são de menos de 50%. Além dos bons e velhos conhecidos, como Denver (Jaime Lorente), Helsinki (Darko Peric) e Arturo (Enrique Arce), que agora é um escritor famoso e usa seus “dons” para contar como foi o período em que conviveu com os bandidos na Casa da Moeda, há novos rostos, como Palermo (Rodrigo De la Serna), que tem um arco dramático bem desenvolvido, passando de mocinho à impiedoso e servindo como o novo Berlim dentro do banco. Porém, é mesmo a Nairobi (Alba Flores) que rouba a cena como uma das melhores personagens e suas frases feministas são completamente assertivas e atuais.

A relação amorosa entre eles também se abala, tanto a do Professor com a Raquel (Itziar Ituño) (agora chamada de Lisboa), que aliás falta química entre os dois atores, quanto entre Tóquio e Rio. Até mesmo um relacionamento homossexual se inicia e termina de forma caótica, ou seja, o roteiro lida o tempo todo com escolhas e com a infelicidade que nasce após ter tudo que sempre desejou na vida. A inquietude e as consequências dos erros também são assuntos retratados nessa temporada, cujo clima entre os personagens está mais sombrio e com menos humor, apesar de haver algumas boas piadas (como a falsa e hilária fuga) e deboches, há muito em jogo dessa vez e isso se reflete na forma direta e rigorosa como cada um lida com o outro dentro daquele ambiente fechado e com poucos alívios cômicos.

Dessa forma, a terceira parte de ‘La Casa de Papel’ amplifica os acertos, contorna erros e dedica mais tempo ao essencial de cada personagem, com um ritmo dinâmico e um roteiro mais verossímil. Mesmo com uma qualidade técnica maior, a série ainda mantém sua essência e estrutura básica, que prova que esse novo capítulo não só é necessário, como também direciona a história para novos e curiosos caminhos, que certamente funcionarão após algumas melhoras. O clímax épico e a promessa de guerra eminente no futuro, acrescentam fôlego à história e reafirmam que ‘La Casa de Papel’ é um fenômeno mundial por uma boa razão.

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