O thriller de ação ‘À Queima-Roupa’ (Point Blank) segue a proposta da Netflix de conquistar puramente pela nostalgia dos anos 80/90, cuja trama se desenrola em torno de uma dupla de civis que se envolvem em uma série de desventuras e perseguições policiais para fazer jus ao título e a vibe de época. Na verdade, trata-se de um remake hollywoodiano de um filme francês com mesmo título, lançado em 2010, e de uma história que já foi adaptada para diversos países nos últimos 30 anos. No entanto, apesar de ser uma nova versão e com isso esperarmos melhorias, o projeto mergulha nos mesmos acertos e, consequentemente, nas mesmas falhas que seus antecessores. Mesmo com o pequeno orçamento de produção, o diretor Joe Lynch (Floresta do Mal) até consegue fazer escolhas interessantes e mantém uma estética visual de qualidade, no entanto, o projeto não passa de mais um filme Original Netflix que peca pelo excesso de pretensão.

O problema principal é basicamente o mesmo de outros longas semelhantes, como o recente ‘Shaft’, cujo roteiro é até bom e começa enérgico, porém, perde a força até morrer no mais previsível clichê do gênero. Aqui não é diferente, a trama apresenta, de forma interessante, seus dois protagonistas e como seus caminhos se cruzam acidentalmente, mas a falta de ritmo após o encontro e as precárias cenas de ação contribuem para o desgaste instantâneo da vontade de assistir até o final. A intensidade e o suspense inicial dão lugar ao tédio, mesmo com bonitos planos-sequência e alguns takes mais longos, o estilo não é suficiente para manter a trama nos trilhos por mais que 30 minutos após o começo.

E se a ação, que deveria ser o carro-chefe da trama, não convence, o que falar então das atuações forçadas e engessadas dos astros Anthony Mackie (Vingadores: Ultimato) e Frank Grillo (Capitão América: Soldado Invernal). Mesmo familiarizados com o gênero, ambos entregam o mínimo necessário que o roteiro exige, sem contar que a química entre eles não funciona como o esperado, o que contribui ainda mais para a falta de apego aos personagens e seus sacrifícios ao longo da trama. Fora isso, os demais do elenco também são a pura personificação do clichê da policial malvada, do capanga impiedoso e da grávida frágil, todos seguindo fielmente a cartela e deixando de lado qualquer profundidade em suas personalidades. Assim como a direção de fotografia, ordinária e mais do mesmo, infelizmente não aproveita sua estética para trazer ainda mais conceitos, iluminação e cores da temporada.

Mesmo com todas as falhas, a energia presente de dramas policias dos anos 90 certamente conquistará algumas pessoas que buscam entretenimento barato, mesmo que não haja qualquer tentativa da produção de arriscar novos caminhos, ao menos mantém a coesão por toda a trama e o clímax, apesar de minúsculo em proporções, se segura pela construção do suspense criado ao longo da história e toca picos de empolgação aqui e ali. Além disso, o roteiro entrega o que se propõe, seja essa entrega positiva ou previsível, você terá exatamente o que se comprometeu a assistir e, para alguns, é o que satisfará.

‘À Queima-Roupa’ segue como mais um filme da Netflix cujo principal erro é não apresentar nada de novo ao gênero e não arriscar. A fórmula já batida de ação não é o suficiente para manter o entretenimento e, mesmo que cumpra exatamente o que se propõe a fazer e que isso já sirva como satisfação para alguns assinantes do streaming, a falta de originalidade e ausência de cuidado da produção em apresentar novos elementos para uma história datada é o que faz o filme vir quase que com uma data de validade anexada, sendo esquecido por completo logo após assistir.

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