É curioso pensar como ‘Stranger Things’ começou de forma singela, em 2016, e hoje se tornou um dos maiores fenômenos da cultura pop e, sem dúvida, o produto de maior sucesso da Netflix. Essa admiração vem em forma de nostalgia, já que a série popularizou esse retorno aos anos 80 e resgatou a essência de inúmeras franquias clássicas, ao misturar o horror de Stephen King com a fantasia de Steven Spielberg, com a própria personagem Eleven é baseada no carismático alienígena de ‘E.T.: O Extraterrestre’. Mesmo que outros filmes e séries tenham tentado, na última década, trazer essa energia do passado de volta, foi mesmo ST que conseguiu desenvolver uma narrativa empolgante, ao mesmo tempo que insere inúmeras referencias que aquecem o coração, com uma trama divertida e assustadora, que se mantém até agora, 2019, na sua terceira e mais sombria temporada até então.

Planejada para existir por cinco temporadas, podemos presumir que essa seja o meio da história e o mérito desse novo ano foi não transformar a trama em uma “barriga”, que eventualmente antecede a grande conclusão. Muito pelo contrário, o terceiro ano conclui algumas pontas soltas dos anos anteriores e provoca alterações drásticas, que serão melhor desenvolvidas mais pra frente e, assim como o ano 4 da franquia ‘Harry Potter’, por exemplo, em que as crianças começam a mudar, se descobrir, se apaixonar e ter suas primeiras desavenças, essa fase da série dedica sua parte dramática para desenvolver as novas personalidades das crianças, agora adolescentes, que precisam lidar com as inúmeras questões da vida. Essa mudança de foco é o ponto forte e ajuda a trama a criar novos caminhos e dramas pessoais, que revitalizam a série e dão um fôlego extra para se manter por mais algum tempo sem que caia na repetição, já que o roteiro, ainda assim, insiste em reabrir portais já fechados a cada novo ano.

Após um segundo ano conturbado e relativamente fraco em relação ao começo, essa nova fase é grandiosa e se passa no caloroso verão de 1985, em que a cidade de Hawkins recebe uma grande novidade: seu primeiro shopping, o colorido Starcourt Mall. Se por um lado esse estabelecimento se torna a atração do verão, por outro, os comerciantes locais precisam lidar com o fato de que agora terão grande concorrência. Essa subtrama desenrola o lado político, que é bem explorado nesse novo ano, em especial na primeira metade, quando a ação e o horror dão lugar ao desenvolvimento mais coeso de alguns personagens existentes, apresenta novos rostos (como Larry Kline, o corrupto prefeito da cidade) e cria gradativamente o clima de suspense a cada final de episódio, que dá pequenas dicas do que está vir. O ritmo é coerente e, mesmo que mais lento, não cansa.

Já o roteiro, como um todo, novamente escrito pelos irmãos Duffer, revisita os personagens que já conhecemos e se preocupa em dar uma nova roupagem. Um “upgrade” válido, sendo que alguns funcionam mais do que outros. Se Billy (Dacre Montgomery) ganha mais tempo em tela e assume o papel principal de vilão, servindo como uma espécie de ameaça menor antes do confronto com o “mestrão”, o querido xerife Hopper (David Harbour) começa o ano como um pai tóxico e machista, talvez reflexo da época, mas o roteiro pesa a mão e acaba por deixar o personagem descaracterizado e enjoativo, algo que, claro, muda conforme sua jornada dentro da trama começa a caminhar. Fora isso, por haver muitos personagens e muitas histórias paralelas acontecendo ao mesmo tempo, os núcleos são divididos e cada grupo tem uma função crucial para fazer a narrativa se mover para frente.

Essa divisão é inteligente e ajuda a explorar a cidade e suas redondezas de maneira mais dinâmica e direta, em especial, quando vemos as aventuras de Dustin (Gaten Matarazzo), Steve (Joe Keery), Erica (Priah Ferguson) e Robin (Maya Hawke), sendo as duas últimas ótimas adições ao elenco, definitivamente o melhor núcleo desse ano. Com o Will sendo deixado de lado após o ator Noah Schnapp roubar a cena no ano 2, Millie Bobby Brown volta a se destacar ao viver uma Eleven mais madura, mais contida e que está se descobrindo, com a ajuda da Max (Sadie Sink). Outra importante atualização do roteiro para colocar de lado toda e qualquer faísca de rivalidade que possa existir entre as duas meninas do grupo. A sombra de ser um experimento é abandonada e El descobre que é uma jovem mulher forte e independe, no mesmo momento que conhece as histórias da Mulher-Maravilha e que superpoderes também podem ser uma benção se usados para fazer o bem.

Já o núcleo adulto, que dessa vez coloca Joyce (Winona Ryder) e Hopper na investigação de uma bizarra conspiração Russa, acrescenta novos aliados e diverte em pôr ambos em situações ” de adolescentes”, que envolvem tensão sexual, discussões e reconciliações. Por incrível que pareça, dessa vez os adultos são a maior parte do alívio cômico da temporada. Além disso, as novas subtramas, como o ambiente misógino do trabalho da Nancy (Natalia Dyer) e introdução da primeira personagem LGBTQ+, dão a série discussões atuais e de extrema importância. Ainda assim, mesmo com o humor pontual e as piadas que funcionam no geral, o ano é obscuro e grotesco, repleto de cenas gores com ratos, gosmas e efeitos sonoros de enjoar o estômago. A própria criatura em si é bizarra, assustadora e bem realizada com a ajuda dos efeitos especiais, ainda melhores dessa vez.

A direção de fotografia novamente capta a essência da época e brilha com cores neon, somada aos figurinos ultra coloridos e a luz radiante e mais esbranquiçada, típica do verão. A atmosfera é da mais pura nostalgia e não faltam referências à filmes clássicos, como ‘De Volta Para o Futuro’, ‘O Exterminador do Futuro’, ‘Jurassic Park’ e ‘Conta Comigo’. Seria necessário uma caneta e papel para anotar a quantidade de easter eggs desse ano, algo amplificado após a boa reação do público com os anos anteriores. E a trilha sonora, claro, é um espetáculo à parte, que ajuda na construção da ambientação, apesar desse ano estar com menos canções icônicas.

Do quarto episódio em diante, a trama progride e o horror ganha forma. Os núcleos começam a se unir e o clímax colide em um dos melhores episódios da série até então. O ‘Capítulo Oito: A Batalha de Starcourt’ consegue ser épico, dinâmico e empolgante. Definitivamente possui algumas das cenas mais bem realizadas da Netflix, perfeitamente dirigidas pela dupla Duffer, um verdadeiro espetáculo ao melhor estilo Spielberg, com monstro gigante, perigo crescente e muita destruição. Mesmo assim, talvez a conclusão não seja satisfatória para alguns fãs, mas as decisões tomadas são condizentes com o que o roteiro apresenta e certamente as consequências irão direcionar a próxima temporada para um caminho menos previsível, apostaria dizer que será ambientada no Natal. Dessa forma, tem um final emocional, com clima de despedida e, mesmo sabendo que a série irá retornar, ao menos as consequências irão servir para que o próximo ano possa expandir os horizontes da trama, talvez até para outros países.

Pairando entre o épico e o assustador, a 3ª temporada de ‘Stranger Things’ acerta ao trazer a série para um contexto mais adulto e sombrio, como acontece na metade da franquia ‘Harry Potter’. O novo ano corrige erros do passado, moderniza alguns personagens e discussões e prova que a série ainda tem muito fôlego para continuar sendo a queridinha do público. Com o oitavo episódio sendo uma obra-prima dentro da série e o horror ganhando tons ainda mais macabros, ‘Stranger Things’ é o que há de mais divertido e empolgante feito hoje em dia. Melhor, menos pretensiosa e mais consistente que a última temporada de ‘Game Of Thrones’.

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