Dizem por aí que levamos quase o mesmo tempo que o namoro durou para superar o fim do relacionamento. Talvez esse sentimento de perda vá mesmo embora com o tempo ou talvez apenas seja aprisionado na parte menos acessível das nossas lembranças. Um fato é certo: nunca é fácil deixar alguém que amamos partir, e dessa premissa já tão utilizada nos cinemas, que se desenvolve a trama central de ’45 Dias Sem Você’, drama nacional, que mistura road movie com o típico caloroso romance francês, cuja base da narrativa se constrói, acima de tudo, pelos diálogos, ao melhor estilo da trilogia ‘Before’. E com um plus, já que o protagonista dessa trama é gay e a história busca retratar, com naturalidade, esse diferencial, fugindo do estereótipo de que todo drama LGBTQ+ acaba sendo trágico no fim das contas. Aqui, muito pelo contrário, o personagem é bem resolvido consigo mesmo e todos ao seu redor agem de forma natural à sua orientação sexual, abrindo espaço para lidar com o luto do fim de um namoro e não com a aceitação própria, isso por si só já é um bom motivo para dar uma chance ao filme.

Na trama, o jovem Rafael (Rafael De Bona) sofre uma forte desilusão amorosa quando seu atual namorado viaja e retoma o namoro com o ex. Esse acontecimento mexe com sua cabeça o faz embarcar em uma inesperada jornada em busca de se autoconhecer e superar o fim precoce desse namoro. Na viagem, Rafael passa por cidades diferentes (Lisboa, Coimbra, Londres, Paris e Buenos Aires) e se hospeda na casa de amigos que, ao longo da trama, vão acrescentando saberes e vivências à sua própria vida. Além disso, o longa estabelece um tom melancólico, que expressa perfeitamente os desejos e as angústias de estar na casa dos 30 anos e precisar lidar com os baques e rompimentos da vida adulta, tudo exposto de maneira honesta e prazerosa, mesmo com a narrativa tendo um ritmo relativamente lento e repetitivo a maior parte do tempo.

No começo, há uma certa estranheza na atuação do elenco, em especial do protagonista vivido por De Bona, engessado, como se toda cena fosse uma apresentação de teatro. Ensaiado demais e, consequentemente, cru e desestimulante. No entanto, conforme a trama cresce, o elenco cresce junto e o envolvimento se torna mais eficaz. As inúmeras cenas de caminhada com frases de efeito também se tornam mais naturais, mesmo que exageradas, condizem com a proposta reflexiva do filme. E põe reflexões nisso, já que praticamente todos os diálogos são construídos em cima de ensinamentos e pensamentos, talvez por isso as atuações sejam engessadas, faltou a direção dar liberdade para o improviso, elemento muito bem-vindo em filmes simplistas como este, afinal, o que seria de ‘Antes do Pôr-do-Sol’, por exemplo, sem o carisma da improvisação de Julie Delpy e Ethan Hawke?

Problemas à parte, a direção de Rafael Gomes (De Onde Eu Te Vejo) é eficiente e acerta em outros pontos interessantes, como a escolha dos planos e enquadramentos, sempre invadindo o íntimo dos personagens; a composição das cenas, que exaltam a beleza de cada uma das cidades por onde passa; e a maneira como guia a trama para frente, apresentando somente o necessário para que possamos nos envolver e desejar ver o desfecho da história. O ritmo, conquistado pela criativa montagem, também acerta ao seguir um estilo melancólico e instigante ao mesmo tempo. Os destaques do elenco ficam para Júlia Correa e Mayara Constantino que são, sem dúvida, as que melhor conseguem transformar os diálogos clichês de comédia romântica, em um texto mais coerente e natural, fora que suas personagens possuem inúmeras camadas a serem exploradas além do que vemos em tela.

Enquanto a trama avança e o protagonista segue sua decisão de superar o insuperável dentro de si, há um subtexto eficiente sobre relacionamentos líquidos, talvez o mais honesto do cinema nacional até hoje. A essência romântica/dolorosa do longa americano ‘500 Dias Com Ela’, por exemplo, também serve como parâmetro de comparação para a essa trama. É esse perfeito equilíbrio entre o amor e a dor que envolve, emociona e nos faz mergulhar em um mar de identificação com o protagonista e seu processo para se curar da saudade. Uma das últimas cenas, quando ele finalmente põe tudo que sente para fora, para a tela de um computador, é onde mora o ponto forte do roteiro, e o elo que nos faz sentir na pele a solidão que ele vive e os motivos para sua trajetória. Também é a redenção de De Bona, que se mostra um excelente ator quando possui maior liberdade em cena.

É então entre o amor não correspondido e a dor da solidão que habita a deliciosa e honesta trama de ’45 Dias Sem Você’. Eficiente em sua proposta e melancólico na narrativa simplista, apesar da visão egocêntrica sobre o mundo e alguns diálogos engessados. Acerta em dar personalidade e carisma para uma comédia romântica adulta e LGBTQ+, como talvez ainda não tenhamos visto no cinema nacional. Um filme poético sem ser arrogante, que busca fugir do brega e defende que o amor, nada mais é do que uma reação, “um refluxo”, que precisa ser sentido antes que a química se desfaça, completamente oposto aos filmes clichês do mesmo gênero, que exploram o famigerado predestinado.

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