Dividir o protagonismo de um filme entre dois atores icônicos não é uma tarefa fácil, ainda mais quando o objetivo é que um personagem possa completar as lacunas emocionais do outro, sem que nenhum seja ofuscado. Nesse aspecto em especial, o drama biográfico ‘O Gênio e o Louco’ (The Professor And The Madman) triunfa formidavelmente ao dividir a carga emocional entre dois astros como Mel Gibson e Sean Penn, que vivenciam seus personagens com muita força e veracidade. No entanto, há problemas narrativos e de ritmo que deixam a trama maçante e arrastada, quando a simplicidade somada ao excelente elenco já era o suficiente para contar a história de maneira mais dinâmica.

Aliás, a trama é baseada em fatos verídicos e mostra como surgiu um dos projetos mais ambiciosos e complexos da história: o Dicionário Oxford. Hoje um simples objeto do cotidiano, mas que rendeu um imenso trabalho de dois homens em especial para ser realizado, o Professor James Murray (Gibson) e o Doutor W.C. Minor (Penn). Enquanto criam o projeto, suas vidas caminham para lugares obscuros, onde a solidão, a obsessão e a loucura dominam suas mentes e os afastam das suas famílias e amigos. Ambos os personagens são construídos através de muitas camadas, que são reveladas conforme a trama avança e seus laços emocionais são estabelecidos. Enquanto um tem o prestígio por sua inteligência, o outro mergulha em seus traumas que o leva ao completo devaneio. Oposições interessantes a serem trabalhadas.

Mesmo que a história seja, de fato, profunda e curiosa, dificilmente segura um filme de mais de duas horas sem que se perca o interesse, algo que acontece principalmente até o segundo ato, quando a narrativa caminha de forma lenta, mas finalmente une os protagonistas na mesma cena. Antes disso, seus caminhos são traçados individualmente e, apesar de isso agregar camadas a suas atuações, inevitavelmente se torna monótono pela falta de ação e de obstáculos a serem superados. É somente quando Gibson e Penn se encontram, que o clima aquece e a química entre os atores resgata nossa atenção, ao menos parte dela. Além disso, o trabalho de fotografia é belo ao se utilizar quase que por completo de luz natural, fora os figurinos e a cenografia, impecáveis dentro do contexto de época. O diretor Farhad Safinia (Apocalypto) consegue mesclar todos os bons elementos e entrega um trabalho pé no chão, centrado em seus personagens e ousado quando sobra a oportunidade, alinhando estilo com delicadeza.

Ainda digerindo o roteiro enfastiante e mesmo que o ritmo dos acontecimentos seja lento, o ritmo da montagem é adequado e provoca, até mesmo, a sensação de suspense em determinadas cenas mais sombrias, que escolhe o que mostrar ao espectador e o que deve permanecer apenas no imaginário. Além disso, algumas subtramas definitivamente não funcionam e o elemento romance da história não encontra seu caminho. Os casais não dão certo e a união da personagem, vivida pela atriz Natalie Dormer (Game of Thrones), com o homem que assassinou seu marido é forçar a barra demais, apesar da atriz estar impecável no papel, assim como Jennifer Ehle (O Mau Exemplo de Cameron Post), outro diamante do filme.

E é com altos e baixos que ‘O Gênio e o Louco’ se segura firme na atuação e na química dos personagens para apresentar uma história maçante, que contém mais informações do que o necessário e que funcionaria melhor se fosse contida apenas nas lacunas emocionais que Gibson e Penn preenchem um no personagem do outro. É genuíno no elenco, mas cai no esquecimento com facilidade de tão desajustado, ao menos tem a sensibilidade e a visão carismática de um bom diretor.

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