Poucos realizadores tem a chance de refazer uma obra que por motivos financeiros não decolou como merecia. E Sebastián Lelio, grande diretor argentino por trás de ‘Uma Mulher Fantástica’ e ‘Desobediência’, pôde revisitar o projeto que dirigiu em 2013, chamado ‘Gloria’, para fazer um remake americano mais sofisticado e com potencial de atingir premiações. Dessa forma, nasce a dramédia ‘Gloria Bell’, que aposta na força de Julianne Moore para se sustentar e carregar uma trama íntima, já velha conhecida do diretor. Fica a pergunta se vale à pena recontar uma história tão recente, mesmo que tenha sido pouco conhecida do público, mas um fato é certo: a história atemporal da vida da Gloria tem força e carisma suficiente para ser novamente explorada.

A trama é simples, já que o roteiro se sustenta no improviso e no talento de Moore, que vai do sorriso às lagrimas de maneira natural e graciosa. Na história, Gloria está no auge de sua meia idade e, apesar das limitações, tem espírito livre e vontade de viver e ser feliz. Gosta de dançar e se sente uma jovem em plena descoberta do mundo, no entanto, quando Arnold (John Turturro) entra em sua vida, o amor, a solidão e o desespero colidem enquanto ela precisa aprender a viver consigo mesma. E dessa premissa é espremida todo o caldo possível, que faz render a trama por toda uma jornada de autoconhecimento da protagonista.

Aliás, o maior problema do filme reside exatamente nessa arrastada narrativa. O ritmo é lento e repetitivo em muitas cenas, algo que afasta a força da obra quando, na verdade, deveríamos estar presos em sua trama. Apesar disso, o humor ácido funciona para nos resgatar em diversos momentos e não permite que o tédio se estabeleça por completo. Essa luta do roteiro contra a mesmice de outras obras, que já lidaram com o mesmo tema (como o argentino ‘Um Amor Inesperado’, por exemplo, que também aborda redescobertas e amores na meia idade), é constante, mesmo que aqui o assunto seja tratado do ponto de vista de uma mulher independente e bem sucedida na vida, mas solitária em suas escolhas. E é aí que entra o trabalho excepcional da direção, que utiliza planos fechados, closes e detalhes para mergulhar no íntimo da protagonista, como se a câmera não existisse. Essa busca pelo realismo é alcançada com êxito e destaca o filme dos demais.

Outro elemento forte é a música. A trilha sonora transcende e se insere dentro dos diálogos da protagonista, que fala pouco, mas que expressa seus pensamentos através das canções que ocasionalmente escuta na rádio. Uma artimanha inteligente, que poupa ainda mais o precioso tempo e impede que o ritmo seja mais lento, deixando espaço para que Julianne Moore possa brilhar com sua expressão corporal e olhares penetrantes, com uma atuação cativante, segura de si e divertida, um reflexo da uma carreira fantástica. Claramente a atriz se identifica com a personagem e abraça todas as suas qualidades e defeitos na composição.

‘Gloria Bell’ é cativante por ser uma história simples, sobre uma mulher comum, que precisa lidar com o fato de estar envelhecendo ao mesmo tempo que vê o amor idealizado se perder em sua juventude. Julianne Moore é puro talento e sua identificação com a personagem fortalece a verdade em sua atuação. Não é uma obra tão fundamental como o trabalho do diretor em ‘Uma Mulher Fantástica’, mas fornece uma divertida, melancólica e poderosa reflexão, já que alfineta a busca desenfreada pela felicidade ao lado de outra pessoa, quando a primeira grande lição da vida é aprender a amar a si mesmo.

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