Jordan Peele definitivamente tem uma maneira peculiar de fazer cinema. Suas narrativas combinam perfeitamente o humor ácido estilo sitcom, com o suspense angustiante e atmosférico. Em ‘Corra!’, por exemplo, seu primeiro filme e sucesso dentro do gênero, o diretor explora com excelência o terror psicológico e a inversão de clichês, que visa entregar uma trama inteligente e inovadora. Algo semelhante se repete em ‘Nós’ (Us), seu novo trabalho, no entanto, toda a crítica social de ‘Corra!’ dessa vez dá espaço a um terror raiz, que navega entre o “terror de cabana” e o “home invasion”, ao mesmo tempo que constrói uma narrativa envolvida e movida pelo mais puro e claustrofóbico suspense. Mas a pergunta que começa a se construir é: estaria o diretor se repetindo propositalmente?

A trama de ‘Nós’ não aborda questões raciais, pelo menos não em sua superfície, apenas apresenta uma família negra comum, como qualquer outra, que vive uma vida normal e pacata. O primeiro grande acerto do roteiro na busca por normatizar o negro em Hollywood e na comprovação de que não precisa ser um filme denso quando o elenco é negro, apesar de abraçar a cultura e explorar elementos específicos da comunidade negra durante sua trajetória. Na história, a família de Adelaide (Lupita Nyong’o) decide passar um final de semana na praia e aproveitar a casa de veraneio, no entanto, eles recebem uma visita inesperada de uma outra família, que se parece exatamente como eles. Esse confronto trás à tona segredos do passado e muito mistério à respeito de quem são seus “doppelgängers”, porque são tão violentos e o que estão fazendo nesse mundo.

Sem estragar surpresas, o roteiro se aprofunda bem mais do que nessa sinopse, obviamente para dar sentido a todas as loucuras e os mistérios da trama. O segredo está nos detalhes, que são apresentados desde a primeira cena, ainda no passado da protagonista, e todos os elementos fazem conexão conforme a história avança. Mesmo que inteligente em certos momentos e clichê em outros, o roteiro é forte e ganha ritmo através do suspense, motor principal que move a trama para frente de forma brilhantemente conduzida por Jordan Peele. Os planos longos e fechados, o ótimo trabalho com as sombras e o escuro dos cantos, a trilha sonora intensa, que navega entre a trilha de ‘Corra!’ e a de ‘Tubarão’, desenvolve um clima sinistro, que prende nossa atenção e infla nossa curiosidade por respostas. O diretor sabe perfeitamente como guiar o caminho do espectador através do filme, antecipando ações e reações que facilmente seriam tomadas em um roteiro menos inteligente. Puro talento e perspicácia de Peele.

E por falar em talento, o elenco funciona e convence como uma família. A química dos atores passa carisma e veracidade, elementos cruciais para que possamos torcer pela sua sobrevivência. Cada um tem seu momento de brilhar e suas atitudes, somadas, fazem a trama ser mais coerente. As crianças, vividas por Evan Alex (Jason) e Shahadi Wright Joseph (Zora) ultrapassam a barreira de indefesas e estrelam momentos de pura coragem, assim como Winston Duke (Pantera Negra), que também funciona como alívio cômico, semelhante ao personagem de Lil Rel Howery em ‘Corra!’. Porém, o grande destaque mesmo fica para a ganhadora do Oscar, Lupita Nyong’o (Pantera Negra), tanto sua performance “boazinha” quanto a “malvada”, ambas são de cair o queixo de tanto envolvimento da atriz no papel, que passa emoção, medo, raiva e aflição apenas com olhares penetrantes. Por fim, Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale) dá o ar de sua graça, mesmo com um talento colossal, aqui é pouco aproveitada e sua personagem poderia ser facilmente descartada, servindo apenas como elemento que expressa a típica “mulher branca de classe média”, infeliz com sua vida e seu casamento.

Maravilhas à parte, existem pequenos problemas que não permitem que a obra chegue ao patamar de ‘Corra!’. O desfecho é interessante e pode ser uma metáfora sobre como os governos controlam a sociedade e como somos petrificados através do medo, porém, a trama cresce intensamente na promessa de uma conclusão poderosa, mas entrega alguns diálogos expositivos e desnecessários. A história fica aberta para diferentes interpretações e entendimentos, sugerindo que uma franquia de filmes pode vir à superfície futuramente, algo que não seria uma má ideia, considerando que há mais perguntas que respostas sobre o que, de fato, são os “clones”. Fora isso, o ritmo é frenético, mas as cenas são longas, a montagem contribui para que sejam ainda mais arrastadas, já que alterna entre personagens no momento da ação. Problemas pequenos, que não são capazes de ofuscar o valor do filme.

Levando-se em consideração esses aspectos, ‘Nós’ é macabro, brinca com a dualidade entre o que é bem e o que mal, é violento na medida certa e apresenta uma poderosa e envolvente atmosfera frenética de terror, que perpetua por todo o longa e que faria Alfred Hitchcock bater palmas de pé. Jordan Peele é o nome que o gênero terror estava precisando para se inovar e conquistar um patamar de prestígio nas premiações.

Comments