Os anos 1990 foram marcados pela explosão em massa de comédias românticas nos cinemas. O gênero chegou tão forte, que praticamente todos os estúdios apostaram em um grande filme, com grandes astros, para as temporadas de férias. Julia Roberts e Richard Gere eram os nomes do momento após o sucesso estrondoso de ‘Uma Linda Mulher’. ‘Quem Vai Ficar com Mary?’ e ‘10 Coisas que eu Odeio em Você’ logo se tornaram clássicos instantâneos. Porém, apesar do gênero ter repercutido também na primeira década dos anos 2000, perdeu força com o passar do tempo, ficando para poucos filmes mais recentes a responsabilidade de resgatar a essência que levou tantas famílias aos cinemas. Podres de Ricos (2018), por exemplo, chegou de forma poderosa (já que se tornou a comédia romântica de maior bilheteria da história!) e trouxe consigo a tão buscada representatividade que Hollywood está implementando, entretanto, a Netflix apostou em ‘Megarrrômantico’ (Isn’t It Romantic) como a obra que melhor expressa os tempos em que vivemos e adivinha? Deu certo.

Como vimos em ‘Deadpool’, brincar com clichês e quebrar a quarta parede nos cinemas funciona sempre que bem realizado, e ‘Megarrrômantico’, na verdade, trata-se de um filme sobre como as comédias românticas eram feitas nos anos 1990/2000. Como os roteiros eram padronizados e construídos basicamente em cima de estereótipos da época, breguice que acabou por fazer o gênero enfraquecer, já que o “amor idealizado” não estava mais convencendo a nova geração que nem ao menos tinha tempo de absorver o romance.

Nessa trama, Natalie (Rebel Wilson) é uma jovem arquiteta desacreditada em relação ao amor, que se empenha para ser reconhecida por seu trabalho. Um dia, ao saltar do metrô, ela é assaltada e, ao reagir, acaba batendo com a cabeça em uma pilastra de ferro. Ao despertar em um hospital, ela descobre que, misteriosamente, foi parar dentro de um filme de comédia romântica, onde precisa “enfrentar” todos os clichês para chegar até o fim e poder sair daquele mundo que quase beira a perfeição.  Os três “r’s” do título nacional servem exatamente para ressaltar esse exagero narrativo que costumavam ser as comédias e o excesso de romance forçado das tramas.

No longa, esse fator brega se torna o motor que move a trama para frente de forma inteligente, ao mesmo tempo que expõe todo o manual de como fazer uma comédia datada. Pode não parecer, mas não é uma artimanha fácil de se realizar, afinal, se baseia em tantas outras histórias para construir uma outra sobre a desconstrução de um gênero, ou seja, é preciso dominar completamente os clichês para subverte-los no momento certo, trabalho que o diretor Todd Strauss-Schulson faz com brilhantismo e que já havia dominado em ‘Terror nos Bastidores’ (The Final Girls), que brinca com o gênero terror de forma hilária. Sua direção ousa quando precisa, com planos mais elaborados, mas segue o padrão adotado no passado, com o uso de slow motion no clímax e enquadramentos que dão ao filme um ar estilo “novelão”. A montagem também entra na brincadeira, quando a protagonista diz que não vai fazer uma “montage sequence” para mostrar sua troca de roupa, fora a fotografia e a direção de arte, que também exploram a iluminação radiante e a perfeição dos cenários nas comédias clássicas. E claro, as cenas musicais não poderiam faltar, aqui estão sensacionais, em especial a do Karaokê.

Com um roteiro bem orquestrado, fica para Rebel Wilson (A Escolha Perfeita) o papel de entregar uma protagonista diferente, exatamente para destoar do modelo clássico, e a atriz rouba a cena com cinismo, naturalidade, empenho e muitas caras e bocas improvisadas que encantam e divertem na mesma proporção. Rebel se mostra confortável no papel, que busca desconstruir padrões de beleza e preservar o amor próprio. Ela é hilária e tem muito potencial como uma das melhores atrizes de comédia da nova geração, ainda bem que conseguiu um papel que a valoriza e não apenas brinca com o fato de ela ser acima do peso. Já Liam Hemsworth (Jogos Vorazes), que vive o galã forçado, entrega o que o roteiro propõe sem grandes ápices de atuação. Adam Devine (Quando Nos Conhecemos) consegue fugir da atuação engessada, típica do ator, e vive um personagem simpático. A química entre Devine e Wilson é autêntica.

Entrelaçado na já tão habitual história da menina que descobre estar apaixonada pelo melhor amigo, há pontuais lições sobre autoestima, empoderamento feminino, rivalidade feminina no trabalho e o tratamento que Hollywood costumava dar para personagens gays em filmes de comédia, sempre servindo como alívio cômico ou para alavancar a protagonista com dicas de moda e relacionamento. Tudo apresentado de maneira consistente com a personalidade da protagonista e a proposta que a trama deseja passar, deixando aquele gosto saboroso de divertimento com uma otimista mensagem que precisa atingir a nova geração.

‘Megarrrômantico’ é uma comédia ideal para os dias de hoje. Com cérebro, coração e uma protagonista feita com perfeição por Rebel Wilson, que abraça seu primeiro grande filme em destaque e diverte enquanto emociona. Ao menos na comédia, a Netflix tem acertado em cheio no alvo e este filme provavelmente seja o mais hilário e inteligente de suas últimas apostas. Mesmo com uma proposta relativamente boba e satírica, a trama guarda muito mais sabedoria do que aparenta e de quebra ainda faz o público refletir sobre amor próprio e libertação dos padrões impostos pela sociedade.

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