A vida de Carol Danvers nos quadrinhos não foi fácil. Seu nome foi citado pela primeira vez em 1968, na HQ Marvel Super-Heroes #13. Na ocasião, ela era apenas um membro da Força Aérea dos Estados Unidos, até que em 1977 assumiu o nome de Miss Marvel no Ms. Marvel #1. De lá para cá, a personagem mudou de codinomes, de histórias de origens e foi deixada de lado por muitos roteiristas, somente em 2012 ela pode assumir o título de Capitã Marvel nas mãos da roteirista Kelly Sue DeConnick, tornando-se assim, um símbolo feminista dentro da Marvel Comics e que seria levado ao cinema com o mesmo peso e responsabilidade, afinal, a DC fez um trabalho excepcional com a Mulher-Maravilha e era a vez do Marvel Studios também apresentar um filme solo de uma mulher após 20 filmes protagonizados por homens. “Sexo frágil? Não mais! As heroínas estão tomando conta do cinema e nenhum cara vai entender o quanto isso é importante para as mulheres…” disse Biah Lima, impactada com a presença marcante da heroína.

Apesar disso, como sabemos, a internet possui uma grande concentração de “fãs” e admiradores que não aceitam que seus heróis da infância sejam adaptados de forma a representar uma parcela do público que nunca se viu dentro de um filme de tamanha proporção, sendo assim, antes mesmo de chegar aos cinemas, ‘Capitã Marvel’ sofreu boicotes, críticas infundadas à respeito da atriz Brie Larson e falta de acolhimento, em especial do público masculino, que alega que o filme apenas foi realizado para “lacrar” e para expor idealizações feministas. Porém, muitos ignoram o fato de que Carol foi criada em uma época em que o mundo estava no auge da segunda onda do movimento feminista e que a personagem representava (e ainda representa!) não apenas um movimento, mas também serve de espelho para tantas meninas e mulheres que cresceram vendo seu gênero servir apenas de símbolo sexual nos cinemas, onde os homens dominam em maioria esmagadora.

“Ter personagens femininas em filmes de super-heróis é algo que a gente sempre quis poder ver, desde quando a gente é pequena. Hoje em dia, essa representatividade tem aumentado e é muito legal de ver esse tipo de coisa por partes das crianças – principalmente meninas…”, disse Rhayanny Batinga, exemplificando a importância que muitos homens não conseguem enxergar ou apenas fecham os olhos e decidem defender seus privilégios. “É fácil crescer com referências do Batman, Homem-Aranha e tantos outros, enquanto as garotas apenas se espelhavam em princesas que esperavam em ser resgatadas por príncipes encantados. Falo nessa questão da infância porque quando vejo filmes como Capitã Marvel me pego pensando: como eu queria ter tido uma referência dessas quando criança!”, completa Biah Lima.

Ter uma personagem tão poderosa dentro de um universo também dominado por personagens masculinos é algo novo e com essa novidade vem também a falta de empatia. “Quando a gente é criança, a gente só vê produções que tratam meninas como indefesas, e quando a gente vê hoje em dia filmes grandes, com personagens femininas importantes, muda um pouco esse lado de que a menina tem que ser frágil, não que não possa ser, mas acho que esse tipo de representatividade faz as meninas terem a certeza de que elas podem ser quem elas quiserem e fazer o que quiserem.”, ressalta Rhayanny.

Que a personagem é importante para o cinema e principalmente como ícone de representatividade, já temos certeza, mas e para o Universo Cinematográfico da Marvel? Terá a Capitã Marvel um papel fundamental no desenvolvimento da história criada a 10 anos atrás, em ‘Homem de Ferro’? Segundo o chefão do estúdio, Kevin Feige, terá sim. Apesar de só estar chegando aos cinemas agora em 2019, um rascunho do roteiro do filme já circulava dentro da Marvel desde o primeiro ‘Vingadores’ e Carol Danvers quase fez uma participação em ‘A Era de Ultron’, ou seja, sua função dentro dessa elaborada trama já estava planejada e ela já seria uma das possíveis ameaças que Thanos teria que enfrentar após desintegrar metade do universo. Todos os pontos acertados, o estúdio ainda tinha medo de fracassar por conta da grande maioria de nerds que não desejam que uma mulher possa ser a salvadora do mundo e uma possível líder dos Vingadores, foi quando a enorme bilheteria e aceitação do público de ‘Mulher-Maravilha’ provou que já estava na hora de trazer Danvers para as telonas.

“Estava empolgada para assistir ‘Capitã Marvel’ pelo “simples” motivo de ser um filme de heroína que todas as teorias diziam “SE CUIDA THANOS, A CAPITÃ MARVEL VEM AÍ”. E aí fui assistir e o pensamento o tempo inteiro era: finalmente uma mulher f#da nesse universo que acompanho há quase dez anos…”, conta Janai Coelho, provando que as mulheres estavam aguardando essa introdução da personagem a muito mais tempo do que podemos imaginar, mesmo que já houvessem outras personagens femininas em menor destaque dentro do UCM. “A Viúva Negra sempre esteve ali, mas sempre atrás de algum homem, hiper sexualizada desde o início, meio longe de ser um exemplo de representatividade. A Feiticeira Escarlate apareceu depois e, apesar de ser muito poderosa, não foi tão explorada ainda. Mas veio a Capitã, uma mulher f#da, sozinha, descobrindo os seus poderes e também ciente das suas fraquezas. Sem necessidade de um romance com um homem para reforçar a sua vivência como mulher. Eu saí da sessão, mas a Capitã Marvel veio junto comigo. Pra vida, eu espero”.

Por sorte, mesmo após haters não acreditarem no potencial do filme solo da heroína, o sucesso tem sido absoluto, já que o filme fez quase meio bilhão em bilheteria mundial em apenas um final de semana. Carol Danvers teve uma triunfal entrada no UCM e retornará em ‘Vingadores: Ultimato’ para se juntar ao grupo de heróis na luta contra Thanos. Além disso, mesmo com a resolução desse último capítulo da história, a personagem ficará nos cinemas por mais algum tempo (Brie Larson disse ter contrato para outros sete filmes!) e deve ter um papel importante de liderança na Fase 4 do estúdio, já que Tony Stark e Steve Rogers estão com seus dias contados. Caso sobrevivam ao final de ‘Ultimato’, ambos devem fazer participações menores nos próximos filmes, abrindo caminho para novos heróis e para que a Capitã possa guiar a trama espacial dessa nova repaginação. Mesmo já sendo a personagem mais poderosa desse universo, fato confirmado por Kevin Feige, seus poderes devem aumentar ainda mais no futuro, ou seja, a heroína será imparável. “Nós só queremos ser representadas por heroínas com conflitos reais, superando seus desafios e enfrentando-os de verdade, sem precisar ser salva”, disse Biah sobre a expectativa de ver mais de Carol nos próximos anos.

Outro detalhe interessante no filme é o destaque que o roteiro dá para a menina Monica Rambeau, filha da melhor amiga de Carol, preparando o terreno para futuros filmes como ‘Jovens Vingadores’, por exemplo. Apesar da personagem ser uma criança no filme, que se passa nos anos 90, hoje em dia ela já estaria crescida e possivelmente se tornaria uma forte aliada da Capitã, como nos quadrinhos, quando assume a identidade de Fóton. Além disso, a atual Ms. Marvel dos quadrinhos, Kamala Khan, deve marcar presença no futuro do UCM. A personagem seria extremamente bem-vinda, além de ser muito poderosa, ela vem uma família paquistanesa que se mudou para os Estados Unidos. Há expectativas de que seja inserida nas próximas histórias da Capitã nos cinemas, servindo com uma possível substituta ao posto de protagonista num futuro próximo, o que abriria infinitas possibilidades de histórias e aventuras lideradas por mulheres nos cinemas, já que o filme solo da Viúva Negra também está em andamento. “Ver essas heroínas nos cinemas reforça pra mim que uma mulher pode salvar o dia sim, que podemos ser poderosas, donas de si e que não precisamos de ajuda de homem nenhum pra ter controle de qualquer situação.”, disse Biah.

E é com essa união das mulheres e apoio, que Carol finalmente encontrou seu lugar nos cinemas e uma legião de meninas (e também meninos!) que já estão se inspirando na determinação e perseverança da personagem, que tanto precisou se provar até chegar onde chegou e agora é, mais do que nunca, um símbolo de resistência, luta e empoderamento. O futuro do Marvel Studios promete muita diversidade e devemos não apenas aceitar, mas também compreender e ter empatia pela luta por representatividade dentro de uma obra da cultura pop que atinge e influencia tanta gente ao redor do mundo. “Não somos frágeis, não somos mais donzelas indefesas, não precisamos de um par romântico para que nos influencie a tomar decisões, e indústria começa a saber que não precisa utilizar o corpo feminino para ter bilheteria. Preparem-se, em ‘Vingadores: Ultimato’ o universo vai ser salvo por um mulherão da p*rra!”, encerra Biah, feliz por ser representada e satisfeita pela igualdade.

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