Após vinte filmes de diversos personagens baseados nos quadrinhos da Marvel Comics, o Marvel Studios, o gigante dentro do subgênero de super-heróis, finalmente decidiu realizar um filme protagonizado por uma mulher. Sabemos, claro, que o sucesso de bilheteria e crítica de ‘Mulher-Maravilha’, da DC, contribuiu para que a Casa das Ideias pudesse “arriscar” e ceder um de seus prestigiados filmes para uma heroína que tanto lutou por espaço nas HQ’s. Desde o anúncio da produção, Carol Danvers precisou provar que valeria o investimento pesado e que seu filme seria um manifesto em favor da igualdade de gênero dentro da Marvel, mesmo que, ironicamente, em uma determinada cena do filme ela mesma diga que “não precisa provar nada para ninguém!”.

Apesar de todos os filmes conter alguma personagem feminina em destaque, a produtora errou muito no começo da história da Viúva Negra (Scarlett Johansson), que era um mero símbolo sexual de Tony Stark e depois passou a flertar com Clint Barton (Gavião Arqueiro) e Bruce Banner (Hulk), sem ao certo ser uma mulher forte e independente, já que, em todos os filmes, necessitava ser o par romântico de algum personagem. Com isso, a Capitã Marvel serviria como uma forma de se redimir dos erros do passado e dar a uma personagem feminina o lugar de protagonismo. Mas e o público? Como os fãs do Universo Cinematográfico da Marvel reagiram a essa decisão tão “lacrativa”, como alguns gostam de deixar claro?

Pois é, como podemos imaginar, a recepção foi morna. Até seu lançamento, o filme solo da personagem se tornou alvo de críticas infundadas, xingamentos machistas e muitos comentários que incitava ódio gratuito contra a produção e a atriz ganhadora do Oscar, Brie Larson. A grande maioria desse hate veio, é claro, da internet e de homens que não estavam conseguindo aceitar que uma mulher pudesse ser a “grande salvadora do dia”, muito menos que a Marvel utilizasse um filme da cultura pop para debater temas como feminismo, independência da mulher e luta por igualdade. Esse clima pesado de raiva fez com que o filme recebesse notas negativas falsas em sites de críticas antes mesmo de seu lançamento, fora as páginas no Facebook que apoiaram o boicote do longa e desejaram seu fracasso em bilheteria para que a Marvel aprendesse que “quem lacra não lucra”.

E olha que filmes protagonizados por mulheres sempre existiram. Talvez não em escala de sucesso como ‘Mulher-Maravilha’, mas blockbusters como as franquias ‘Resident Evil’, ‘Jogos Vorazes’, ‘Anjos da Noite’, ‘As Panteras’ e etc. atraíram grande público e dificilmente precisaram se provar como ‘Capitã Marvel’. Talvez o problema seja pela quantidade de poder dado a uma mulher, já que a heroína é a mais forte na fila para destruir o vilão Thanos, considerado por muitos nerds o maior antagonista do cinema, ou talvez seja pelo simples fato de que a luta por espaço é constante, seja mulher ou negro, conquistar um filme de prestigio, que não sirva apenas de entretenimento barato, mas também de conscientização, que sua cultura e suas ideologias possam ser passadas para o público mais jovem, é uma tarefa difícil e que exige muita resistência ao ódio e a falta de empatia do próximo, muitas vezes privilegiado, que não quer ver seus filmes favoritos serem “manchados” por movimentos sociais.

Agora, e se o protagonista de um filme gigante como esses fosse um homem cis homossexual? Isso não está longe de acontecer, já que recentemente a executiva do Marvel Studios, Victoria Alonso, revelou que estão buscando um ator abertamente gay para viver o protagonista de ‘Os Eternos’, longa-metragem com direção de Chloé Zhao, que deve chegar aos cinemas nos próximos anos. Apesar de já haver personagens LGBTQ+ no Marvel Studios, como a Valkyria (Tessa Thompson) em ‘Thor: Ragnarok’, essa seria a primeira vez que um homem, abertamente gay, seria o personagem de destaque de uma história da produtora. Alonso contou na entrevista que o “mundo já está pronto para receber uma história centrada em um gay”. Porém, levando em consideração todo o ódio que ‘Capitã Marvel’ tem recebido apenas por não ter um homem branco e heterossexual como protagonista, será mesmo que o mundo está pronto para tamanha representatividade?

Sem dúvida, colocar um gay como centro das atenções em um filme feito para a “família tradicional”, como alguns defendem, seria um desafio ainda maior que dar o papel para uma mulher ou mesmo para um negro, como em ‘Pantera Negra’, já que a comunidade LGBTQ+ possui pouquíssimo espaço nas telonas, sendo a grande maioria dos filmes, dramas estereotipados, tristes e sem finais felizes. O que os haters não conseguem enxergar é que ver um super-herói gay não torna nenhuma criança homossexual, mas pode, de alguma forma, ajudar à todos os jovens que estão vivendo esse dilema dentro de si, a se aceitarem como são, utilizando um ícone com superpoderes como espelho e exemplo de representatividade, afinal, o que seriam os super-heróis senão reflexo do ser humano? Mesmo sendo deuses ou homens vestidos de armaduras, eles expõem nossas angustias, nossas alegrias e também nossas diferenças, e é por conta disso que hoje servem de modelos para tantas crianças, jovens e adultos que cresceram sem ver uma mulher badass se levantando para lutar sem ser objetificada ou um negro poderoso assumindo o papel de rei de um país tecnológico.

Então, voltamos a pergunta do título: “O mundo está mesmo preparado para um super-herói abertamente gay?”. A resposta é: Mais do que nunca! Se existe uma época para que isso realmente possa acontecer, é agora. Ser diferente aos olhos da sociedade padronizada é uma luta por resistência e o ódio sempre vai existir, mas não será perseverante. O cinema pode influenciar positivamente cada pessoa que se dispõe a compreender a luta do próximo, ou seja, talvez você se veja representado desde criança por alguns super-heróis icônicos, mas já parou para pensar se alguém com a cor diferente da sua ou mesmo a orientação sexual diferente da sua, olha para um filme da Marvel ou da DC e consegue se ver ali dentro daquele universo? Pense então sobre isso antes de propagar ódio gratuito na internet toda a vez que um filme representativo seja anunciado por um grande estúdio. Há lugar para todos e todos devemos apreciar a arte, o entretenimento e poder também se sentir acolhido por um filme que tanto ama.

Um protagonista gay, seja em um filme de baixo orçamento ou em um blockbuster, é uma conquista inestimável para a comunidade LGBTQ+. Ver que o Marvel Studios está interessado em prosseguir com essa ideia em ‘Os Eternos’, mesmo sabendo que haverá muito protesto em cima disso, significa que definitivamente estamos no caminho correto e que o mundo dos super-heróis, assim como o mundo em que vivemos aqui na realidade, é diversificado e repleto de amor, seja por quem for. Se você é um apaixonado por esse universo fantástico de heróis, por ‘Star Wars’ ou ‘Harry Potter’ e propaga ódio ou próximo, definitivamente você precisa rever se realmente entendeu a mensagem que essas franquias querem passar, pois sentar na cadeira do cinema e apenas comer sua pipoca por 2 horas e meia sem absorver uma mensagem boa que seja de um filme como ‘Capitã Marvel’, o problema que tanto aponta no mundo, pode estar é dentro de você.

Comments