Filmes com crianças diabólicas se tornaram um importante e prestigiado subgênero dentro do terror. Não que na última década algum tenha se sobressaído a ponto de entrar para o seleto hall de obras inesquecíveis, porém, um ou outro merece destaque. Como é o caso do criativo ‘A Órfã’ e do macabro ‘Hereditário’. Acertar o tom em filmes que tratam desse assunto é uma tarefa difícil, já que quase todos os roteiros caminham para o mesmo lugar comum: a possessão. E poucos sabem equilibrar o terror psicológico com a fantasia de espíritos tão bem quanto obras do passado como ‘A Profecia’ (1976), ‘O Exorcista’ (1973) e ‘Cidade dos Amaldiçoados’ (1995). No entanto, o diretor a Nicholas McCarthy (do bom ‘Pesadelos do Passado’ e do péssimo ‘Na Porta do Diabo’) resgata a sensação desses clássicos em ‘Maligno’ (The Prodigy), que chega ao Brasil pela Imagem Filmes.

Não que o terror seja um bom exemplo de originalidade, já que o roteiro até busca tocar em pontos inexplorados, mas seu padrão é basicamente o mesmo de outras histórias, onde a figura da criança é o centro do horror. Sendo que aqui, uma mãe busca entender a genialidade de seu filho de 8 anos, que nasceu prodígio, no entanto, conforme a idade avança, a criança demostra cada vez mais sinais de que algo assustador veio acompanhado de sua inteligência. A jornada para compreender a maldade do menino leva a família a descobrir que um espírito mal-intencionado pode ter reencarnado em seu corpo. Daí pra lá, a trama apresenta algumas reviravoltas óbvias e outras um tanto quanto criativas, mesmo que haja furos grotescos e que dependa totalmente da nossa descrença da realidade para aceitar determinadas decisões dos personagens.

O roteiro definitivamente não é o ponto forte. Há mais cenas expositivas do que o necessário, como a criança esmagando uma aranha para mostrar sua índole perversa ou o psicólogo que explica o óbvio para a mãe, por exemplo, fora que o caminho dos acontecimentos pode até ser surpreendente, mas o ponto de chegada já é facilmente premeditado. Apesar dessas preguiças, os sustos não são fracos, mesmo se utilizando de jump scares, há alguns momentos medonhos e que lembram a boa construção de suspense do diretor James Wan, eterno exemplo moderno de como fazer o espectador pular sem forçar a barra. A dupla personalidade do menino, uma hora meigo e na outra violento, cria uma interessante sensação de perigo e tensão, que mantém nossos olhos vidrados na tela toda vez que a criança aparece, inclusive, o jovem Jackson Robert Scott (de ‘It: A Coisa’) entrega o que o roteiro propõe de forma convincente. Seu olhar de inocência e medo cai como uma luva para o personagem.

Toda a parte técnica está equilibrada. A direção harmoniza o trabalho da fotografia fria e escura, e da trilha de suspense; a montagem é adequada com a proposta do filme, mesmo que o roteiro estrague parte da história por entregar as respostas logo na sequência de abertura. Taylor Schilling se emancipa de sua personagem caricata em ‘Orange Is The New Black’ e vive uma mãe desesperada. Sua composição da personagem é boa, lembra em partes da protagonista que Nicole Kidman viveu em ‘Reencarnação’ (2004), outro filme que certamente serviu de inspiração para essa obra. Além disso, o terror compõe uma atmosfera (com a chaleira assobiando, o corredor escuro, o porão assustador) envolvente e familiar.

A tentativa de acrescentar uma nova visão sobre possessão é válida e torna ‘Maligno’ um terror intrigante, mesmo que a grande maioria de seus sustos sejam antecipados antes que possam causar algum estrago no espectador mais sensível. O desfecho deixa um gosto amargo, mas a jornada vale o passeio e destaca o filme dos demais filmes de terror genéricos, que nem ao menos servem para amedrontar.

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