Crítica | Green Book: O Guia – Road movie sobre empatia e compaixão

Dos inúmeros protestos em Hollywood para que mais oportunidades no cinema fossem oferecidas à negros e mais filmes sobre questões raciais fossem desenvolvidos, surgiu uma excelente e indispensável leva de trabalhos sobre o assunto, de todos os gêneros, desde ‘Pantera Negra’ até ‘Infiltrado na Klan’, abrindo o diálogo entre os grandes estúdios e os atores/atrizes que não conseguiam conquistar papeis de destaque em seus filmes mais populares. E claro, as premiações também ficam de olho nesses trabalhos, afinal, o Oscar (entre outras cerimônias) busca ao máximo expressar movimentos culturais atuais. E dessa leva de obras extraordinárias, surge também o aclamado ‘Green Book; O Guia’, drama racial que vem se tornando um importante “oscar bait” para 2019.

O delicioso road movie se passa em 1962, época extremamente complicada para ser negro nos EUA, afinal, os movimentos sociais estavam apenas ganhando força e o branco nacionalista criava suas próprias regras para “pessoas de cor” no auge da segregação racial. Nesse contexto caótico, nasce uma história verídica quando o malandro Tony Lip (Viggo Mortensen) consegue um emprego de motorista após perder seu atual emprego em uma casa noturna de Nova York, no entanto, Lip não imaginava que seu novo patrão seria Don Shirley (Mahershala Ali), um conceituado pianista negro. Juntos, desenvolvem uma amizade inesperada enquanto fazem uma turnê de shows pelo sul (racista e conservador!) dos EUA.

A narrativa é simplista e bem direta ao ponto, por conta disso, trata todos os temas abordados de forma superficial, apenas com os estereótipos mais convencionais. Tony é o italiano engraçado, malandrão e mal educado (por vezes lembra levemente o personagem Joey Tribbiani, de ‘Friends’); Don, o negro que não consegue se encaixar e se identificar nem mesmo com outros negros devido ao fato de ter crescido longe do contexto. E os demais assuntos como homossexualidade, por exemplo, também servem apenas como base, sem aprofundamentos e longos debates. Algo semelhante ao que o ótimo ‘Histórias Cruzadas’ fez. Foca sua trama nos absurdos do passado em prol de situações hilárias de tão grotescas e retrógradas. Goste ou não, essa é a proposta do filme.

A jornada de conhecimento sobre o próximo funciona para ambos os personagens. Um precisa lidar com seu racismo velado e o outro aprende com o bom humor que a vida não pode ser tão dura o tempo todo. O roteiro adaptado soube bem trabalhar os dois núcleos e desenvolver personagens carismáticos, cheios de camadas e que nos conquista logo de início, tal fato contribui para que nossas emoções sejam manipuladas sempre que algo injusto acontece, também nos fazendo rir de situações que são cruéis e ilógicas vistas com os olhos de hoje. Mas claro, é a presença do elenco que torna o projeto tão carismático. Viggo Mortensen é excelente e seu trabalho está excepcional como de costume, já Mahershala Ali é fenomenal, seu personagem é inteligente e doce, mas amargurado com a vida e solitário. O ator perfeito para empenhar tanta personalidade a um personagem que, à primeira vista, parece simples e fácil.

A direção de Peter Farrelly, conhecido por comédias besteirol como ‘Debi & Lóide’, ‘Quem Vai Ficar Com Mary?’ e ‘Eu, Eu Mesmo & Irene’ é surpreendentemente boa ao se arriscar no drama. O diretor sabe conduzir a trama pra frente e escolhe os melhores enquadramentos para expressar as devidas emoções com precisão e delicadeza. Um interessante passo na carreira, que nos faz querer ficar de olho em seus próximos trabalhos. Elogios também para a direção de arte, figurino e fotografia, impecável em seus tons pasteis, que ressalta a energia sessentista da trama.

No somatório das qualidades, ‘Green Book: O Guia’, que aliás tem esse título devido a existência de um ridículo livro de normas que deveriam ser seguidas por negros, incluindo lugares onde poderiam frequentar, é um filme despretensioso mas não vazio, que diverte e emociona sem forçar a barra, afinal, seu objetivo real é mostrar que são nossas diferenças que nos fazem sermos tão singulares. Um filme para colocar bondade, empatia e compaixão no coração. Necessário para os dias de hoje.

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