Há um tempo publiquei uma matéria aqui sobre o apelo de Gloria Calderón Kellett, showrunner de One Day at a Time, para que as pessoas assistissem ao menos quatro episódios para que a série não fosse cancelada. Alma caridosa que sou (que só quer uma desculpa pra iniciar uma nova série), comecei então a assistí-la. Foi então que percebi que definitivamente One Day at a Time não pode ser cancelada!

One Day at a Time, é uma sitcom original Netflix que acompanha uma família cubano-americana formada por Penelope (Justina Machado), uma veterana de guerra que se desdobra entre a profissão de enfermeira e a criação de seus filhos adolescentes Alex (Marcel Ruiz) e Elena (Isabella Gomez). Divorciada, ela irá contar com a ajuda de sua mãe Lydia (Rita Moreno), e o síndico do prédio, Schneider (Todd Grinnell).

Até aqui nenhuma surpresa, pela sinopse você acha que vai ser apenas mais uma sitcom trazendo o dia-a-dia de uma família. O formato multi-câmera e as claques (aquelas risadas ao fundo) presente em outras séries do gênero estão aqui também, nada inovador, não é? É a partir do play que tudo muda.

Enquanto faz você rir com as graças da Abuelita, ou as trapalhadas de Shneider, One Day at a Time traz à tona assuntos pertinentes e com bastante coragem. Elena é uma adolescente engajada em causas sociais, empoderamento, feminismo e em determinado ponto assume sua homossexualidade. Penelope sofre de depressão e estresse pós-traumático devido as lembranças da guerra. Lydia traz consigo as marcas dos imigrantes que fugiram do governo Fidel Castro. Além disso, a série ainda trata sobre vícios, desarmamento, xenofobia, racismo, religião e outros temas da vida em sociedade e em família.

Talvez agora a preocupação seja que a série tome um viés mais politizado e se torne chata ou uma confusão por tentar trazer isso à tona. Achou errado de novo! A série consegue trazer todos esses assuntos de forma dinâmica, porque eles não são simplesmente jogados na trama, eles estão nela o tempo todo, todos esses dilemas são intrínsecos a cada um dos personagens. One Day At a Time poderá fazer você rir e chorar ao mesmo tempo.

O elenco é a peça chave da série. Justina Machado faz com que o público enxergue todas as camadas de Penelope, seja a mãe, a enfermeira, a mulher que teve um divórcio conturbado, a ex-veterana que traz em sua memória as marcas de uma guerra. Rita Moreno no auge dos seus 86 anos e uma das poucas atrizes na indústria a ostentar o EGOT (Emmy, Grammy, Oscar e Tony), consegue em Lydia trazer a cubana defensora da sua cultura, e não nega nada em cena, a vivacidade e a atuação brilhante de Moreno e em alguns momentos vão lembrar a Copélia de Arlete Salles em Toma Lá Dá Cá (tenho minhas dúvidas se o personagem não foi inspirado nela).

Até mesmo Schneider, que talvez pareça ser o mais distante dos estereótipos representados na série por ser um branco, hétero, rico, dono do prédio, tem seus arcos e descobertas no decorrer da trama.

Por fim, One Day at a Time talvez não faça você mudar sua visão sobre alguns assuntos, esse não é o objetivo dela. A série apenas mostra que esses assuntos são reais e não dá pra fugir. Tudo isso – Claro! – cercado de muitas risadas. Talvez foi a série que assisti com menos pretensão, e a que mais me surpreendeu.

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