É delicioso quando o horror encontra o equilíbrio perfeito dentro do contexto existente. No caso, o rotineiro e realista cinema nacional. ‘Morto Não Fala’ é um perfeito exemplo de um filme com uma trama tipicamente brasileira, anexado ao cinema de gênero, com naturalidade, sendo muito mais um filme de terror exatamente por mostrar o lado brutal da sociedade do que um filme taxado simplesmente como “terror nacional”, apesar de se utilizar de inúmeras artimanhas do gênero para criar a atmosfera sombria e fantasmagórica da narrativa. Ainda assim, o longa caminha por duas vertentes do horror, sendo uma bem realizada e digna de elogios, pela obscuridade e suspense que provoca, já a outra, prefere seguir para o caminho mais fácil, clichê e genérico, cedendo aos jump scares para prolongar o medo.

A trama segue a rotina cansativa de Stênio (Daniel de Oliveira), que possui o misterioso dom de se comunicar com os mortos e, por uma infelicidade do destino, trabalha exatamente em um necrotério. Durante seus plantões noturnos, ele conversa com diversos corpos que chegam ao local e que contam suas histórias de quando eram vivos e como morreram. Os relatos do além começam a revelar segredos de sua própria vida, que o leva a tomar algumas decisões extremas. Todo o primeiro ato do filme, focado na comunicação entre o protagonista e os mortos (com o rosto sinistro criado através de computação gráfica) é rico em tensão e singularidade, porém, quando o roteiro desemboca para o sobrenatural ao melhor estilo de ‘Invocação do Mal’, com fantasmas raivosos, há uma perda de originalidade significativa, mesmo que até entregue boas sequências de terror convencional.

Aliás, o horror é atmosférico e bem construído pelas mãos de Dennison Ramalho (O ABC da Morte 2), que já possui larga experiência no gênero, tendo como referência o icônico Zé do Caixão para o desenvolvimento obscuro de seus personagens, além de reverenciar o cinema trash, gore e bizarro de José Mojica, com cortes rápidos e uma câmera nervosa. As sequências de susto são sim convencionais, mas bem elaboradas e causam arrepios, em especial, pelo excesso de esquisitice, que é tratado com naturalidade pelo roteiro.

Fazendo paralelo com outra obra, a crescente paranoia e perturbação de Stênio lembra o recente ‘Coringa’, de Todd Phillips, cujo protagonista é, na realidade, o vilão, criado através de uma sociedade debilitada, e suas atitudes egocêntricas geram ainda mais caos para todos ao seu redor. Ambos os personagens possuem características em comum e Daniel de Oliveira (Aos Teus Olhos), assim como Joaquin Phoenix, invoca a escuridão para sustentar sua atuação profundamente penetrante e convincente, no entanto, é um personagem enjoativo, desagradável e mal desenvolvido, algo que dificulta e muito nossa ligação emocional com ele, em especial, quando decide ser o pai que nunca se mostrou ser. Ao meu ver, problema evidente.

Com locações em Porto Alegre e São Paulo, a escolha pelos cenários fechados, sujos e escuros, ressaltados pela boa direção de fotografia e seus tons verdes e azuis, auxiliam a sensação de claustrofobia, aprisionamento e angústia do protagonista, que não consegue prevalecer nem dentro de sua própria zona de conforto. Aliás, há diversas metáforas nas camadas mais profundas do roteiro. A podridão dos cadáveres com a podridão da sociedade violenta e impiedosa, por exemplo, além de também tocar em temas como solidão e depressão.

Dessa forma, mesmo que seja um filme de terror propriamente dito, ‘Morto Não Fala’ vai mais além e expõe dilemas de uma sociedade adoecida e de como um homem, esquecido por todos, é levado ao extremo. Um perturbador conto sobrenatural, conduzido com brilhantismo pela direção, que provoca arrepios pelo excesso de estranheza. Facilmente um dos melhores filmes de terror já feitos por aqui. Mesmo que o protagonista seja a personificação do insuportável, o que fica é a sensação de ter assistido algo que será difícil tirar da memória por um bom tempo.

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