A caracterização é parte fundamental para a construção da narrativa na ficção. Seja no cinema ou nas séries de TV, os figurinos, a maquiagem e as demais peças que compõem as personalidades dos personagens fazem parte da direção de arte e servem como expressão de sentimento, ideias e, até mesmo, para passar significados ocultos sobre o background de cada um dos indivíduos que tanto aprendemos a amar e/ou odiar. São protagonistas com muita garra, e não digo apenas da perseverança de suas jornadas, mas também de elementos do figurino que ajudam os atores e atrizes a entrar de cabeça no mundo proposto pelo projeto.

Com isso, separamos três séries, de diferentes épocas retratadas, em que a caracterização faz parte da história, além de passar significados ocultos e se tornar tendências de moda entre os fãs. Se você, assim como nós, repara profundamente nos figurinos dos seus personagens favoritos, confira essa lista imperdível:

1 – POSE

‘Pose’ é uma série fenomenal, criada por Ryan Murphy, a mente criativa por trás de séries como ‘American Horror Story’ e ‘Glee’, e se passa no final dos anos 80/começo dos anos 90. Com duas temporadas, tendo a primeira disponível na Netflix, a trama retrata a realidade da comunidade LGBTQI+ quando a cultura dos chamados bailes estava em alta. Composta quase inteiramente por um elenco de atrizes trans, a narrativa vai do humor as lágrimas ao abordar temas como preconceito, homofobia, prostituição e o avanço da AIDS na comunidade gay.

Com esse universo bem estabelecido pelo roteiro, a direção de arte usa e abusa de roupas extravagantes, maquiagens pesadas e muito estilo, para recriar, com perfeição, os temas dos desfiles dos bailes e constrói suas personagens icônicas, como Elektra (Dominique Jackson), Angel (Indya Moore) e Lulu (Hailie Sahar), em torno do estilo da época. Com muito uso de jeans, cores vivas, unhas excêntricas que, aliás, Blanca (Mj Rodriguez) tem um salão de beleza na 2ª temporada, quando as cores irreverentes estavam em alta e as mulheres, em especial, tinham o salão quase como uma sessão de terapia com outras mulheres, para conversar sobre os problemas da vida, conseguir apoio emocional e um descanso dos afazeres domésticos impostos pela sociedade machista da época. ‘Pose’ é uma aula sobre aceitação e um exemplo perfeito de como o figurino influencia a nossa percepção da história.

2 – Euphoria

Se tem uma série que chegou de mansinho e logo se tornou um fenômeno, essa sem dúvida é ‘Euphoria’, obra da HBO que estreou após o final de ‘Game of Thrones’ e conquistou o coração de muitos fãs, ao retratar a realidade nua e crua da juventude da chamada Geração Z. Além de personagens profundos e emocionais, como Jules (Hunter Schafer) e Rue (Zendaya), a história aborda temas como nudez, assédio, transexualidade, uso de drogas, depressão e por aí vai, mas tudo de uma forma responsável e cuidadosa com o espectador.

Apesar de ser uma história bem contada e ter uma estética singular, além de ser bem filmada e dirigida, curiosamente é o trabalho da maquiagem que colocou a série em alta na mídia. Doniella Davy é a maquiadora que assina as obras de arte nos rostos das personagens e ficou famosa no Instagram após o lançamento da série. Segundo ela, cada pintura super colorida nos olhos significa um sentimento que as meninas estão vivenciando em relação aos rumos de suas histórias, como a Rue chorar glitter e a Jules com suas cores sem gênero definido. Além disso, a Maddy (Alexa Demie), usa unhas em gel postiças, como as estilosas unhas de gel, super populares nos dias de hoje. Esses acessórios do figurino, por serem em gel, são mais acessíveis, além da fácil manutenção e do esmalte durar por muito mais tempo.

Entre a fantasia e a realidade, as maquiagens de ‘Euphoria’ são o melhor exemplo do uso da arte como elemento narrativo, que agrega ainda mais valor à história e dita tendências de moda e comportamento.

3 – Why Women Kill

O drama criado por Marc Cherry para a CBS All Access é estrelado por Lucy Liu, Kirby Howell-Baptiste e Ginnifer Goodwin e narra três histórias diferentes, em épocas diferentes do tempo, em que mulheres são levadas ao extremo por seus maridos. A obra, apesar de ter elementos dramáticos, utiliza o humor como válvula de escape para as situações pesadas que aborda, como masculinidade tóxica, machismo e violência doméstica.

Apesar disso, mais uma vez, é o trabalho do figurino e maquiagem que chamam a atenção, exatamente por se passar nos anos 1960, passando pelos anos 1980 e terminando nos dias de hoje. Vemos o avanço da caracterização das protagonistas nesses três períodos e as mudanças da moda durante os anos. Desde as roupas unissex dos anos 60, as cores neon dos 80 e o forte empoderamento feminino refletido nas roupas do Século XXI. O roteiro é divertido, dinâmico e pontualmente feminista. Imperdível! 

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