Orçamento não define a qualidade de um filme. Talvez possa sim afetar a parte estética, mas se o conteúdo for bom, o resultado certamente será. A riqueza mora principalmente em um roteiro bem realizado, em uma direção que saiba fazer muito com o pouco que tem e em um projeto que tenha algo a dizer. Ou seja, existem diversos outros filmes, nacionais ou não, que sabem melhor aproveitar o conjunto da obra do que o cansativo ‘A Noite Amarela’, pseudo terror paraibano que tenta, a todo custo, ser maior e mais eficiente do que é capaz de ser. Essa tentativa de grandiosidade atrapalha seu desenvolvimento, quando tinha tudo para ser um divertido horror psicológico pé no chão.

Na verdade, o longa tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo e na prática não é bem sucedido em nenhuma delas. A trama demora para engrenar, mas começa com uma certa estranheza intrigante, ao apresentar os jovens partindo para comemorar o final do Ensino Médio em uma casa de praia, numa ilha pequena e afastada. Segue os moldes de um típico “coming of age” mesclado com a estrutura do “terror de cabana” e revela os mistérios aos poucos, prometendo que algo perturbador está por vir, porém, a história desanda por completo conforme a trama avança e nada, absolutamente nada, acontece de relevante. Apenas acompanhamos longos diálogos sem cortes, cenas estereotipadas para realçar a juventude atual e vídeos experimentais, mas o terror propriamente dito, não se faz presente.

O roteiro é redundante e tedioso, as histórias não se completam e o trabalho previsível e irregular de direção de Ramon Porto Mota, que já havia mostrado talento no ótimo ‘O Nó do Diabo’, mas que se perde pelo caminho dessa vez, já que todo o longa é descompensado. A montagem não tem ritmo, a direção de fotografia talvez seja ainda pior que a direção geral. Os planos estão escuros demais e, quando finalmente há alguma luz nas cenas, não há tratamento de cor, tornando-os sem vida, sem graça e com aparência amadora. E por mais que a justificativa seja o baixo orçamento, vale lembrar que filmes com valor menor ou igual entregaram muito mais estilo.

Além de todas as dificuldades para se criar uma narrativa realmente intrigante, a construção do suspense é a parte mais difícil de ser alcançada, tanto pelo roteiro quanto pela direção. Não há nenhum momento assustador e, mesmo que o objetivo seja assustar através do medo pelo desconhecido e utilizar metáforas visuais e não jump scares, pegamos, por exemplo, o suspense ‘Coerência’ (2013), que estranhamente parece dialogar com esse filme, seja pelos elementos astrológicos, como a tal lua que não se movimenta no céu, ou mesmo pelo desfecho com “doppelgängers”. No longa de 2013, a atmosfera e o suspense são desenvolvidos com delicadeza e, mesmo que a ação demore para ser apresentada, é a tensão a chave para manter o espectador envolvido, ao contrário de ‘A Noite Amarela’, que não equilibra para nenhum lado.

Fora do contexto da trama e analisando a importância do projeto, é interessante e extremamente bem-vindo ressaltar que o terror nacional, ainda tão difícil de ser aceito pelo público, está causando interesse também fora do batido eixo Rio-São Paulo. Mesmo com muitos problemas, o longa paraibano faz um importante recorte regional que, de fato, merece ser desenvolvido e explorado para diversificar as histórias que contamos e, assim, manter nosso cinema vivo, como ‘Bacurau’ está fazendo nesse exato momento. O elenco, ainda que tenha um texto fraco, encenado demais e não saiba segurar sentimentos como medo, pavor e pânico, necessários para esse tipo de gênero, consegue impor naturalidade nos diálogos mais “poéticos”, tornando sua amizade realmente plausível. Certamente, a melhor realização do filme, além da composição de alguns enquadramentos quando Mota resolve “brincar” um pouco mais.

Com isso, ‘A Noite Amarela’ desperdiça o potencial de ser uma macabra história de horror psicológico para ser um filme descompensado, sem ritmo, sem nexo na trama e mal acabado esteticamente. A interação do elenco é a única parte que realmente funciona e, ainda assim, é obscurecida pelo tédio após mais de uma hora de exibição sem nada de relevante acontecer. Que esse projeto não represente o bom cinema paraibano e que essa obra possa abrir portas para outras, mesmo que através do inevitável erro. É um gosto amargo que fica , mas o tempo é precioso demais para ser desperdiçado com algo que não é recompensador.

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