Dois irmãos resolvem parar em uma estrada, no meio de lugar nenhum, durante uma viagem, e acabam ouvindo um chamado de socorro vindo de uma criança de dentro de um matagal. Sem pensar duas vezes, ambos adentram no lugar e descobrem que dali não conseguem mais sair. Essa é a premissa magnética de ‘Campo do Medo’ (In The Tall Grass), adaptação da Netflix de um conto escrito por ninguém menos que Stephen King, com seu filho, o também escritor, Joe Hill. Como ambos possuem talento nato para desenvolver tramas misteriosas, é de se esperar que haja uma certa dose de loucura no projeto, que mescla diversos elementos já utilizados em outras histórias, como em ‘Colheita Maldita’ (1984), para criar um suspense que se passa inteiramente em um matagal, com poucos personagens e grande liberdade criativa da direção, na tentativa de entregar algo diferente dentro de um contexto simplista.

Na verdade, as melhores histórias de King são também as mais simples, esse nunca foi o problema. ‘It’ é sobre uma entidade alienígena que assume a forma do seu maior medo, ‘Carrie’ é uma jovem que sofre bullying e decide revidar, ‘O Iluminado’ é sobre confinamento que leva à loucura, ou seja, cada obra, assim como as do Hill, envolvem o sobrenatural como elemento motivador dentro de uma premissa humana, que acaba aprofundando a história e tornando-a assim, mais interessante, como aqui, cujo o tempo e os loopings temporais são a alma do filme. Se por um lado o roteiro adapta com vigor a energia estranha do conto, muito também graças ao trabalho de direção, peca por um caminho que diversas outras adaptações de King também fracassam: o desenvolvimento de personagens. Rasos, enjoativos e previsíveis, sem grandes camadas a se explorar, em especial, a dupla de irmãos vividos por Laysla De Oliveira (American Girl) e Avery Whitted, já que Patrick Wilson (Aquaman) é personificação do vilão genérico, que se entrega a sua própria loucura, porém, é o mais autêntico.

De fato, essa essência dos escritores poucas vezes é alcançada nos cinemas. Para compensar, a direção de Vincenzo Natali (‘Splice’, ‘Cubo’) é eficiente e busca explorar o matagal de maneira intrigante, com belos planos sequência (com a ajuda de CGI), planos que giram e plongées, que penetram dentro das folhas e auxiliam na criação do suspense. Aliás, o som ambiente das folhas, do vento, dos insetos e a direção de fotografia, banhada em luz natural e cores esverdeadas, causam claustrofobia e medo do invisível, que perpetua por todo o primeiro ato do filme, muito mais focado no estranhamento que aquela situação causa, até que o fator sobrenatural seja apresentado e a trama desemboca para a previsibilidade, apesar de querer parecer complexa por mexer com a linearidade dos fatos.

Pegamos como exemplo o bom ‘Triângulo do Medo’, thriller de 2009 cuja trama também mexe com linhas temporais que, por mais que possam parecer confusas inicialmente, o roteiro sabe exatamente onde cada caminho irá levar, até a grande revelação final. Aqui, a repetição desgasta rapidamente e a história perde força, apesar da ação ser introduzida de forma rápida, o ritmo desacelera e só volta a ganhar impulso novamente no desapontante clímax. Fica a sensação de que algo grande estava sendo desenvolvido, mas que, na prática, não entrega nada de espetacular. Apesar disso, é sim instigante que os mistérios não tenham respostas e muitas perguntas fiquem em aberto. Isso contribui para o tempo que ficaremos com o filme na mente após assistir. Nesse quesito, há um bom equilíbrio do roteiro de dar apenas pistas sem entregar nada por concreto ao espectador, que certamente tentará desenvolver sua própria explicação para o desfecho.

Apesar das falhas na condução da narrativa, a atmosfera da trama é rica e engrandece o filme quando explorada mais a fundo. O matagal provoca medo e funciona quase como uma entidade, que tem vida própria e que aprisiona suas vítimas em um labirinto, onde o passado, o presente e o futuro se colidem e podem criar diversas realidades alternativas até que o looping seja, de fato, quebrado. Basta ter isso em mente para começar a desvendar os mistérios que podem causar confusão na mente do espectador. A tal pedra, por exemplo, representa o centro do mundo e seu conhecimento pode ajudar a resolver a problemática de como sair daquele lugar com vida. Não espere mais respostas que isso e as diversas metáforas podem ter diferentes percepções.

Dessa forma, ‘Campo do Medo’ até possui uma premissa envolvente e o suspense caminha de forma coerente, mas o roteiro estica tanto a história, que não demora muito para perder o interesse. A produção é simples, a direção faz o melhor que pode dentro do possível, mas peca por se achar ambiciosa demais. Há diversos momentos intensos, que só se sustentam através dos mistérios apresentados, mas como um todo, o longa é irregular, cansativo e genérico, assim como diversas outras adaptações de histórias do Stephen King, que nunca encontram o equilíbrio ideal entre a complexidade da narrativa proposta pelo autor e o terror popular.

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