É delicioso ser surpreendido positivamente com algo tão inesperado como ‘Inacreditável’, minissérie da Netflix que, sem exagero, acerta em todos os pontos. A surpresa vem do fato de não ter tido muita propaganda em cima de seu lançamento, para os padrões de hoje em dia, mas não se engane, assim como o terror Marianne, recentemente lançado, há um primor técnico e um roteiro tão elaborado, que a série já ocupa, facilmente, como uma das melhores produção do serviço de streaming desse ano. Mas vamos destrinchar seu conteúdo e compreender sua importância para justificar tal afirmativa.

Para começar, diferente de outra ótima minissérie chamada ‘Olhos Que Condenam’, que assistir é quase que um ato de coragem, devido a sua narrativa pesada e incomoda, ‘Inacreditável’ é de fácil digestão, mesmo tratando temas tão controversos, como abuso sexual e assédio. Acontece que aqui, a narrativa segue para o thriller investigativo de alto nível de imersão, que utiliza crimes bizarros, cometidos por um misterioso e cuidadoso sujeito, como ferramenta narrativa que guia uma trama de forma didática sobre os bastidores de uma busca incessante por uma conclusão satisfatória. Com isso, o grande destaque fica para o roteiro perfeito, minuciosamente trabalhado em cima da história verídica que inspirou a série.

Ao melhor estilo realista de ‘True Detective’, a trama tem como base uma reportagem publicada em 2015 no site ProPublica, dedicado a trabalhos investigativos, chamada de “An Unbelievable Story of Rape” (Uma Inacreditável História de Estupro) e se passa em duas épocas diferentes de tempo. Começa em 2008, quando a jovem Marie (Kaitlyn Dever, de ‘Fora de Série’) diz para a polícia que foi estuprada por um homem mascarado, que entrou em seu apartamento enquanto estava dormindo. Os policiais envolvidos na investigação duvidam da menina e suspeitam que esteja mentindo e, sem dar muitos spoilers, sua jornada segue para caminhos que nos faz duvidar o tempo inteiro de sua versão dos fatos em um bem construído episódio piloto.

A partir do segundo episódio, já situado em 2011, somos apresentados as investigadoras Karen Duvall (Merritt Wever) e a veterana Grace Rasmussen (Toni Collette), após a onda de estupros retornar com força e fazer novas vítimas em diferentes cidades. Com isso, a trama entrelaça as histórias das três personagens de forma consistente e intrigante, enquanto desdobra a perseguição “gato e rato” atrás do misterioso abusador. Apesar de um roteiro inteligente e realista, que mergulha no mundo investigativo de cabeça, os diálogos até são expositivos, mas em um nível aceitável, sem taxar o espectador de incapaz de compreender aqueles termos específicos, com isso, o mistério envolve por completo e fica difícil sossegar após os ganchos que os capítulos deixam no ar.

O texto pode ser perspicaz, mas é a atuação das atrizes que acrescenta a energia necessária para a trama não perder o fôlego. Kaitlyn Dever é promissora e sua interpretação é extremamente emocional e honesta, já Merritt Wever (The Walking Dead) conquista com seu carisma e envolvimento, mas é a força da natureza chamada Toni Collette (Hereditário) que agrega nível de excelência ao elenco, com tamanha naturalidade. Interessante também como a interação entre as detetives, duas mulheres fortes e com opiniões divergentes sobre a vida, não pendura para a tão batida rivalidade feminina, muito pelo contrário, o roteiro ainda faz piada com o fato e quebra esse clichê, que aliás, aborda pautas feministas com naturalidade e responsabilidade.

Cada capítulo segue um ritmo dinâmico, com tramas paralelas, que se colidem em um desfecho de tirar o fôlego no sétimo episódio, deixando o oitavo apenas como prólogo para a resolução da história que começou com Marie. Esse formato é novo nas séries da Netflix e contribui, a meu ver, para que a trama tenha ânimo até o final, já que o último episódio poderia ser, facilmente, o primeiro de uma nova temporada. A direção de fotografia também abusa de tons cinzas, que ressaltam a sensação de angústia e mistério, além de uma boa condução da direção. Dos 8 episódios, 5 deles são dirigidos por mulheres, ou seja,  a carga emocional e o envolvimento das diretoras é evidente e transparente.

Com todos esses atributos, ‘Inacreditável’ é uma história sobre superação e tem uma narrativa sublime, um roteiro impecável e um elenco de atrizes que entrega uma performance estonteante de tão honesta. A trama manipula nossos sentimentos e mexe com a percepção do que é verdade e mentira nessa intrigante história real que, de fato, é exatamente o que o título afirma. Uma obra realmente singular, que bebe da fonte de outras boas como ‘Mindhunter’ e ‘True Detective’, mas acerta ainda mais ao dar voz e poder para personagens femininas fortes, dentro de um cenário machista e misógino. Na Era do #MeToo, ‘Inacreditável’ talvez seja o maior triunfo da Netflix.

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