Não é difícil desenvolver um clima agradável dentro de uma obra que aborda o horror, quer dizer, basta um pouco mais de empenho da produção, um roteiro bem trabalhado e uma trama equilibrada, para que um filme/série consiga se sustentar sem que reproduza apenas clichês, independente do orçamento. E é dessa forma que a série francesa de terror ‘Marianne’, criada por Samuel Bodin, para a Netflix, traça seu caminho. A salada de fruta, que utiliza elementos presentes na literatura de autores como Stephen King, Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, consegue mesclar diferentes tons em uma trama concisa e até mesmo surpreendente, cujo maior destaque vai mesmo para a forma como constrói o ambiente sombrio e como escolhe assustar, sem cair em armadilhas já batidas.

A trama da temporada segue a escritora Emma (Victoire Du Bois), extremamente popular na literatura de terror, por escrever livros sobre uma temida bruxa chamada Marianne. Com o tamanho sucesso de seus best-sellers, Emma recebe a visita de uma amiga da infância, que trás más notícias e coloca sua vida em perigo, quando precisa lidar com pesadelos do passado e, assim como a protagonista de seus romances, precisa enfrentar presenças malignas para salvar seus amigos e família. Dessa premissa, o roteiro inteligente cresce conforme passam-se os episódios, que também servem de capítulos, como se estivéssemos lendo um dos livros escritos pela protagonista.

Além de sustos criativos e bem construídos, no melhor estilo ‘Hereditário’, já que aproveita ambientes escuros, corpos nus e a atmosfera sombria ligada a prática de bruxaria, a força da série está também na jornada da protagonista de volta a cidade em que morou na adolescência, lugar pacato, silencioso e cercado de mistérios. O terror atmosférico do ambiente em si já provoca calafrios, ressaltado pela bonita fotografia azulada do lugar e o céu sempre nublado e cinza, mais uma vez, remetendo aos romances de Stephen King e também os jogos ‘Silent Hill’. Dessa forma, com o ambiente propício, a narrativa só avança e entrega, de forma gradativa, mistérios e perguntas, que constroem o quebra-cabeça sobre a origem da temida vilã, solucionado apenas no último episódio.

Ainda citando King, a trama se assemelha muito a estrutura dramática de ‘IT: A Coisa’, por explorar a fase da adolescência e a fase adulta dos personagens, além de apresentar uma entidade que precisa ser derrotada pelo grupo de amigos, tanto no passado, quanto agora. Porém, felizmente se distancia da obra quando se prova mais audaciosa, sem temer matar personagens importantes, que irão contribuir para a formação do caráter da protagonista e seu sentimento crescente de culpa. Aliás, a série aborda profundamente a culpa e a solidão de Emma, tornando a personagem vulnerável, em paralelo com o começo da história, em que ela passa a impressão de ser arrogante e orgulhosa, mesmo que a sua “personalidade forte” ainda se mantenha preservada.

Mesmo com qualidades inegáveis, a série sofre com o problema constante de outras obras da Netflix: a longa duração dos episódios. Ainda que nesta, por ser terror, a narrativa precise de um tempo maior para desenvolver sua ambientação, alguns capítulos perdem o ritmo e o dinamismo, algo que seria solucionado se a duração fosse menor. Além disso, a mudança de núcleo principal, saindo da dupla Emma e Camille (Lucie Boujenah), que sustenta um tom interessante de humor e a química entre elas diverte, para a Emma e seu grupo de amigos, quebra levemente o interesse, muito pela falta de carisma dos demais personagens, com exceção do inspetor Ronan (Alban Lenoir), uma espécie de alívio cômico, com o olhar de “outsider” investigativo.

Há uso de CGI em algumas criaturas para torná-las mais amedrontadoras, em especial, nos olhos e em cortes rápidos, seguidos de jump scares. A técnica é válida e funciona dentro do contexto das sequências de horror, como também acontece com a ótima ‘A Maldição da Residência Hill’. Ambas séries bebem da mesma fonte de inspiração e sabem acrescentar a bizarrice no momento mais oportuno. Porém, somente os olhos brilhantes e a expressão fantasmagórica natural da atriz Mireille Herbstmeyer (a senhora incorporada que apavora), já seriam o suficiente para incomodar e causar pesadelos. Há estilosos planos holandeses desenvolvidos pela direção, para ressaltar a estranheza de algumas situações, e muita técnica envolvida, retirada de clichês de filmes de terror, mas com uma roupagem mais arrojada.

‘Marianne’ é uma daquelas séries realmente boas, escondidas no vasto catálogo da Netflix, que necessita ser assistida, principalmente pelos fãs de terror que buscam histórias criativas dentro do gênero. Apesar de não ser inovadora em sua fórmula, equilibra perfeitamente o tom cômico, com sustos criativos e uma atmosfera misteriosa, que envolve do começo ao seu final macabro, que também deixa um gancho interessante para uma possível segunda temporada. Uma surpresa efetivamente boa, que vai te fazer dormir de luz acesa por um bom tempo.

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