Poucos sentimentos são mais genuínos que a delícia que é se deparar com um filme original, de roteiro tão criativo, em uma Era onde as continuações e remakes dominam os cinemas mundiais. Não que originalidade seja o único forte da comédia romântica ‘Yesterday’, mas, sem dúvida, é seu grande diferencial, tanto para o gênero, quanto para trazer um ar fresco ao desgaste que é ver salas lotadas de tantos filmes iguais. O projeto é ambicioso, apesar de ser em pequena escala, e brilhantemente, acaba sendo bem sucedido na proposta, afinal, quem poderia imaginar que um roteiro tão ousado e inventivo como este, poderia render uma história que vai além das aparências?

A trama é muito similar aos clássicos filmes da ‘Sessão da Tarde’, em que personagens desmaiam (ou se acidentam) e acordam com outro corpo, em outra vida ou outra realidade. Porém, a condução do roteiro para essa premissa, já desgastada, é o que faz a história assumir caminhos de originalidade, ao apresentar um mundo onde os Beatles nunca existiram e centralizar sua narrativa nesse peculiar, porém grandioso, detalhe da cultura pop. Quantas modificações seriam feitas se a banda de rock mais famosa da história nunca tivesse, de fato, existido? Quase que um “efeito borboleta”. O roteiro é engenhoso e acerta em não dar grandes explicações, reservando seu tempo para explorar as inúmeras possibilidades dessa nova realidade paralela. Dessa forma, assim como o protagonista Jack (Himesh Patel), não sabemos como aconteceu o “apagão”, e esse mistério dá substância à trama.

Mas é o romance, gentil e bem encaixado, que embala a história. A química entre Himesh Patel e a talentosíssima Lily James (Cinderela), é daquelas poucas conquistadas em cena. Ambos exalam carisma e, visivelmente, estão se divertindo com a proposta do filme e com seus personagens. Nesse aspecto, há semelhanças bem-vindas com outras boas obras, como por exemplo, ‘Mesmo Se Nada Der Certo’ e ‘‎Apenas uma Vez’. Todos tratam sobre música e amor, com sutilezas singulares. Ainda falando sobre Patel, que protagonista interessante! Cheio de camadas e feito com muita naturalidade pelo ator, de descendência indiana, de apenas 28 anos, perfeitamente escalado para o papel. Além disso, o cantor Ed Sheeran interpreta a si mesmo e emplaca boas tiradas, contribuindo para o humor descomplicado da trama, ao lado da hilária Kate McKinnon (Meu Ex é um Espião), que vive a produtora super-sincera.

Como um maestro em um concerto empolgante, o oscarizado diretor Danny Boyle (‘Quem Quer Ser um Milionário?’ e ‘Trainspotting’) segue seu padrão de filmar pequenas obras, com roteiros curiosos e qualidade impecável, ao explorar planos holandeses e conduzir a narrativa com muita energia, principalmente pelo serviço da montagem em seus filmes. Cortes rápidos e frenéticos, montagem paralela e slow motion, são alguns dos elementos que dão estilo e, sem dúvida, funcionam dentro da proposta de fazer um filme sobre música, ainda mais quando esse filme é uma comédia direta e descarada. A direção de fotografia esbanja o estiloso “efeito bokeh”, também presente em outros filmes de Boyle. Essa estética de “luzes borradas” provoca e/ou realça a melancolia da cidade noturna e contribui para o clima de romance.

E por trás de toda a construção da trama, estão os Beatles e sua história através do tempo. O roteiro, por se tratar de uma fantasia do estilo “E se…?”, tem a plena liberdade criativa de brincar com esse mundo peculiar, onde não apenas a banda, como também outros grandes influenciadores da cultura pop, não existem. As piadas são boas e o humor funciona sem exageros. No entanto, há uma cena bem doce, perto do final, em que o protagonista visita um importante ícone mundial, apesar de emocionar ao reimaginar um destino diferente, talvez seja a mão mais pesada do roteiro na tentativa de prestar homenagem. Não é desnecessária, mas teria funcionado melhor se esse personagem não tivesse sido introduzido, afinal, deixa muito mais perguntas do que respostas. Fora isso, todas as canções, a delicadeza de mostrar as inspirações por trás de clássicos como “Strawberry Fields Forever” e “Eleanor Rigby”, e o humor ácido com a atualidade e a ausência de substância e artistas icônicos, são eficazes e pertinentes.

Dessa forma, ‘Yesterday’ é um daqueles raros filmes, com roteiro original e inteligente, que aquecem nossos corações e nos transportam para outra dimensão ao prestar homenagem, com muito entusiasmo, à banda de rock mais importante da história. Diverte sem exagerar, emociona sem forçar, e mostra que, um mundo sem os Beatles, seriam um lugar terrível de se viver. Vai ser difícil tirar as canções icônicas da cabeça após a sessão e, certamente, é um filme que tem muito potencial para abocanhar o Oscar de Melhor Roteiro Original ano que vem. E que assim seja, ou melhor, “Let it Be”.

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