Por volta do final dos anos 90 e meados dos anos 2000, Eddie Murphy foi um dos atores que mais se destacaram no gênero da comédia. Com filmes fáceis e eficientes quando o assunto é diversão sem muita reflexão, o ator, que sempre demostrou muito talento desde ‘Um Príncipe em Nova York’, se desafiava ao interpretar mais de um personagem em seus filmes, como em ‘O Professor Aloprado’ e ‘Norbit – Uma Comédia de Peso’, algo que veio a se tornar marca registrada da sua carreira. E é essa a grande homenagem que ‘Seis Vezes Confusão’ (Sextuplets) presta à Murphy e as comédias simplistas, que tomavam conta das vídeo locadoras, já que coloca outro ator caricato, que também se destaca nesses aspectos, para dar vida à praticamente todo o elenco do filme. Sem dúvida, esse é o papel da carreira de Marlon Wayans e, nesse ponto, é interessante ver seu talento alcançado, apesar da galhofada.

Tendo em seu currículo outras comédias estereotipadas, adoradas por fãs, como franquia ‘Todo Mundo em Pânico’, Wayans já havia demostrado o desejo de seguir os passos de Murphy com ‘O Pequenino’ e o divertidíssimo ‘As Branquelas’, porém, de fato, chega em seu auge com ‘Seis Vezes Confusão’, cujo roteiro segue o padrão “quanto menos você perguntar melhor” e acompanha a vida de Alan que, prestes a ter um filho, decide encontrar sua mãe biológica, e ao conhecê-la, descobre que tem mais cinco irmãos gêmeos. Com a ajuda de um deles, o infantilizado Russel, Alan resolve embarcar em uma viagem maluca para encontrar e reunir o resto da peculiar família. Até aí, tudo normal, no entanto, o destaque fica para o fato de que Wayans interpreta sete personagens, com características diferentes, incluindo a mãe da família. Um verdadeiro e cativante trabalho de maquiagem e CGI para que essa presepada fosse possível de acontecer.

A versatilidade do ator é realmente visível e consegue aplicar diferentes níveis de atuação a cada um dos personagens propostos. Desde o mais infantilizado, até a irmã cheia de gírias, que veio da prisão. Alguns funcionam, como a irmã, outros apenas servem para que o roteiro possa extrair piada em cima, como é o caso do irmão deficiente. Mas um fato é certo: todos são o mais puro estereótipo, exagerados ao nível máximo e feitos para reproduzir piadas em cima de conceitos ultrapassados, o que deixa o projeto mais com cara de anos 90 do que 2019 e, mesmo que a comédia seja um gênero com licença poética, é difícil digerir tamanho atraso do roteiro. No entanto, a trama é coerente com a proposta inicial e o roteiro, até bem amarrado, apresenta, aos poucos, situações que movem a história para frente, assim como apresenta seus múltiplos personagens de forma equilibrada.

A direção de Michael Tiddes (‘Nu’, ‘Inatividade Paranormal’ e ‘Cinquenta Tons de Preto’) mostra que entende o tipo de humor da trama, assim como o exagero da atuação de Wayans, e busca ampliar essa overdose de besteirol também para algumas sequências de ação mirabolantes e planos mais coreografados. Nada de inovador, porém, mais uma vez, coerente com o excesso de estranheza proposto. Já os personagens, tanto os vividos por Wayans quanto os demais, são rasos, enjoados e seguem apenas orientações do roteiro, excluindo qualquer tentativa de cativar o espectador, já que, de fato, não nos importamos com suas trajetórias, algo que dificulta o envolvimento com aquela irritante família sem química e o protagonista.

Homenagens à parte, o humor de ‘Seis Vezes Confusão’, arrancado a força de tanta galhofada, não consegue acompanhar a premissa “divertida” e não conquista, já que mais beira o ridículo, com a falta de naturalidade do texto e forçação de barra em situações nada engraçadas. Se não fosse pelo trabalho excepcional de maquiagem e por uma atuação exagerada, mas desafiadora, de Marlon Wayans, se tornaria uma piada mais ultrapassada do que a proposta do filme.

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