É delicioso ver como o terror é um gênero que casa muito bem com a fantasia. Uma dupla que, unida, expande o alcance do que se pode fazer com o medo sem fugir da temida veracidade. No entanto, brincar com esses dois pode também resultar em desastrosas realizações, em que o terror é fraco e o fator fantástico mais atrapalha do que ajuda. Essa junção de horror com criaturas e o imaginário sempre esteve muito presente na filmografia de Guillermo del Toro, cineasta que assume o roteiro e a produção de ‘Histórias Assustadoras para Contar no Escuro’ (Scary Stories to Tell in the Dark), porém, diferente de seus filmes como ‘A Espinha do Diabo’ e ‘A Colina Escarlate’, por exemplo, aqui o equilíbrio entre o terror e a fantasia nunca se alcança plenamente e, apesar do estilo oitentista nostálgico, não há muito do que se esperar além de uma convencional história fraca sobre fantasmas raivosos.

Não que a obra não seja cativante, a primeiro momento, a direção de fotografia e arte mergulham nos clássicos de Halloween dos anos 70 e 80 e inserem a trama em uma atmosfera que, por si só, já é assustadora, com cenários como plantações de milho, cinema drive-in, hospitais e mansões abandonadas. Apesar dessa boa energia em potencial, os inúmeros problemas da produção, como elenco sem carisma e roteiro extremamente previsível, afetam o desenvolvimento da narrativa e resultam em cansaço antes mesmo do final. A trama, baseada na popular série de livros infantis de Alvin Schwartz, é sobre um grupo de jovens que, na noite de Halloween, invadem uma casa dita como mal assombrada e roubam um livro amaldiçoado de uma menina que foi torturada e mantida em cativeiro durante a vida. Isso, claro, desperta seu fantasma raivoso, que começa a escrever mirabolantes histórias de terror que envolvem os personagens, presenteando cada um com uma macabra morte sem muita explicação.

Dessa premissa, o filme desenvolve até boas sequências de horror, dirigidas pelo talentoso André Øvredal (A Autópsia), com criaturas realmente sinistras e inquietantes, a grande maioria feitas pelo auxílio de maquiagem e efeitos práticos, que torna toda a experiência ainda mais profunda e positiva. Definitivamente, os monstros são, de longe, o ponto alto da obra e a marca mais presente do dedo de del Toro na produção. Se por um lado o roteiro constrói sequências intensas, que levam ao susto instantâneo, por outro, o tal susto é o ápice de fracasso e mostra amadorismo banhado em jump scares baratos, que desperdiçam toda boa condução de medo que estava sendo criada. Para começar, a trama gasta tempo demais para desenvolver seus personagens em uma longa introdução até que o primeiro susto seja apresentado. Isso não seria problema se os personagens fossem, de fato, carismáticos, o que não é o caso, ou seja, grande parte do filme acompanhamos adolescentes clichês em situações forçadas. Nem mesmo a protagonista, vivida pela atriz Zoe Margaret Colletti (Vida Selvagem), salva o grupo da total desconexão e ausência de química, em especial com o personagem Chuck (Austin Zajur), o alívio cômico sem graça.

Fora o elenco problemático, o roteiro cai em diversas convenções do gênero, como a facilidade que algumas situações são resolvidas quando necessário e as terríveis coincidências que rondam os personagens quando é conveniente, facilitando seus caminhos até objetos e lugares que precisam ter ou estar para que a trama possa ficar mais intensa. Por outro lado, segue também a subtrama do jovem imigrante, vivido pelo ator Michael Garza (Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1), com um interessante discurso político por trás, evidente, mesmo que pouco aprofundado. Já o tão aguardado clímax, em que a protagonista enfrenta a vilã cara a cara, ao melhor estilo ‘Silent Hill’ (com personagens no mesmo espaço, só que em dimensões diferentes), mas que se assemelha mesmo é com uma cena típica de ‘Todo Mundo Em Pânico’, por mostrar uma redenção fácil demais para tamanho perigo que havia sido desenvolvido ao longo da trama.

Dessa forma, com uma atmosfera oitentista, que está na moda, ‘Histórias Assustadoras para Contar no Escuro’ certamente irá provocar algum desconforto, em especial, pelas criaturas que arrepiam até os pelos da nuca, no entanto, infelizmente, não há muito além disso que torne o filme inovador para o gênero. O excesso de clichê aumenta proporcionalmente à ausência de sustos bem elaborados, o que contribui para que o terror e a fantasia não encontrem um equilíbrio. Ainda assim, há momentos de diversão que, se o roteiro for melhor trabalhado, pode definitivamente ter uma sequência mais criativa. Como roteirista, Guillermo del Toro continua sendo um excelente diretor.

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