De filmes pequenos, mais focados em diálogos e situações inusitadas até grandes produções sobre a Segunda Guerra Mundial e Velho Oeste Americano, Quentin Tarantino parece ser um diretor versátil, mas sem perder sua assinatura ou até mesmo se tornar uma paródia de si mesmo. Em Era uma vez em Hollywood, o cineasta americano parece ter encontrado o meio termo: Não tão grandioso quanto suas últimas 3 produções, mas ainda muito maior que seus primeiros trabalhos, o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e Bradd Pitt talvez seja a obra mais maluca de Tarantino.

Na Los Angeles do final dos anos 1960 tudo era uma grande confusão cultural. Enquanto a televisão chegava em seus anos de ouro em questão de explosão de audiência e produção de material, os Estados Unidos ainda viviam o pesadelo da Guerra do Vietnã enquanto a onda Hippie tomava o país pregando paz e amor. Nesse turbilhão somos apresentados à Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) uma estrela em decadência que hoje vive de pontas em seriados televisivos. Acompanhado de seu dublê e melhor amigo Cliff Booth (Brad Pitt), Dalton tenda lidar com as próprias crises existenciais entre uma garrafa de uísque e outra.

Apesar de possuir uma linha geral, a trama se assemelha muito à um dos trabalhos mais famosos de Tarantino: Pulp Fiction. Pois, mesmo sabendo que Rick e Cliff são os protagonistas, a grande estrela do longa é a Hollywood da época. O diretor queria mostrar toda a loucura, sonhos e devassidão que a cidade dos anjos possuía e consegue fazer várias abordagens sem ter que utilizar pontuações ou mudanças de protagonistas como em seu filme de 1995.

Margot Robbie entra como uma ferramenta interessante da trama. Na pele de Sharon Tate, na época, esposa de Roman Polansky, Robbie funciona como o lado lúdico da Hollywood de 1969. Uma estrela de filmes mais leves e que tinha prazer em fazer parte da indústria, a personagem protagoniza uma das cenas mais bonitas das obras de Quentin e facilmente a cena mais inocente desse filme.

O destaque da atuação fica para Brad Pitt que rouba a cena mesmo com um DiCaprio totalmente louco no set. O personagem que sempre transita pelos bastidores das produções serve como os olhos do espectador e ao mesmo tempo como alguém totalmente alheio àquele mundo, uma espécie de agente neutro em meio à toda loucura.

Tarantino parece ter prestado bastante atenção em Leonardo DiCaprio no Lobo de Wall Street e viu que o ator tem potencial na comédia do absurdo, pois é assim que Rick Dalton funciona na maior parte do tempo. Por mais que a academia tenda a relevar atuações mais engraçadas, não seria surpreendente que ele fosse indicado à alguma premiação ano que vem.

A direção segue o padrão de qualidade de Tarantino, mas sem uma quebra de narrativa no meio da trama como já havia sido feito em Django e Os Oito odiados. Algo que, particularmente, acho que tiram alguns pontos das duas excelentes obras. Na opção por fazer uma espécie de compilação de curtas com os mesmos personagens, o diretor consegue fazer um filme longo que não é cansativo.

A trilha também dispensa comentários, sempre foi o ponto forte de Quentin e não seria em um filme ambientado na década de 60 que ele iria deixar a peteca cair.

Com uma trama mais contida, atores em excelentes apresentações e uma direção afiada, Era uma vez em Hollywood consegue ser o melhor filme do ano até aqui.

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