Convenhamos que é um pouco ultrapassado e arriscado depositar horror em bonecos que, após tantos anos de cultura pop, deixaram sua marca inicial de assustadores e passaram a ser algo mais cômico. Essa reinvenção de estratégia pegou a boneca Annabelle com força, em especial, no seu terceiro filme, que deposita todas as fichas do horror em outras situações e a coloca apenas como uma entidade sobrenatural coadjuvante. Mas, bem antes que a personagem criada por James Wan ganhasse vida, o temido boneco Chucky já assustava gerações desde 1988, quando o original foi lançado, e logo se tornou um fenômeno, rendendo continuações e remakes. Porém, o tom hilário do primeiro foi se perdendo e, felizmente, retorna com toda sua energia em ‘Brinquedo Assassino’ (Child’s Play), reboot que apresenta o icônico personagem para a Era da tecnologia, ao melhor estilo ‘Black Mirror’.

Não que a franquia não tenha uma temática mais galhofa, que inclusive intensificou e se tornou cada vez mais tosca e brega conforme os anos foram passando, mas há uma súbita beleza, que poucos conquistam, em mesclar humor com horror de forma que ambos se complementam. Nesse quesito, o novo filme funciona perfeitamente dentro da proposta, como nenhum outro da franquia conseguiu alcançar tal qualidade, ao inserir um humor inteligente, simples e eficiente, que desconstrói o vilão de forma necessária para os dias de hoje e o reconstrói utilizando o uso descontrolado da tecnologia. Até mesmo, há um momento em que uma personagem diz que “é assim que todo filme de apocalipse robô começa”, e dessa forma, nos situamos nesse novo conceito.

Dessa vez, Chucky vem carregado de ironias e é apresentado como uma ferramenta tecnológica, desenvolvida para auxiliar tarefas de casa, como cuidar de crianças, aumentar o volume de músicas, controlar a temperatura, e até mesmo fazer companhia, já que sua inteligência artificial é avançada e ele aprende, assim como uma criança, sentimentos e reações que o faz ter sua própria personalidade. Acontece que um boneco, em especial, tem o filtro que o mantém íntegro retirado na fábrica e causa o caos na vida de um menino e sua mãe, se aproximando então da trama do original, com um vilão boca suja, rebelde e psicopata, mas que no fundo, ainda possui um ar de inocente.

E nesse contexto de modernidade, o humor funciona bem melhor, já que está na moda questionar até onde a tecnologia pode ir e seu uso indevido causa inúmeras situações de comédia. O roteiro, que não diz exatamente em que ano a trama se passa, aproveita para fazer piadas com aplicativos de viagem e até mesmo com a aparência do boneco, ruivo, dito como ultrapassado e sinistro demais, além de uma divertida tirada com a escolha do nome “Chucky”. Cada decisão parece ser planejada para realmente não se levar tão à sério e afirmar que é um novo personagem, em um novo contexto, com apenas a essência do que foi o original. Aceitar isso, é o primeiro passo para mergulhar e se divertir, de verdade, com a presepada proposta e com os personagens cômicos, em especial, o ator Brian Tyree Henry (Atlanta), genuinamente hilário, em parceria com a atriz Carlease Burke (O Terminal), que vive sua mãe.

Por falar em elenco, o menino protagonista, vivido pelo ator Gabriel Bateman (Quando As Luzes Se Apagam), cumpre bem a função de ser carismático sem ser enjoado demais, ou infantil demais, sua atuação convence e possui um bom time para comédia, ao lado da atriz Aubrey Plaza (Ingrid Goes West), que também esbanja carisma e absorve a proposta espirituosa do filme. Mas é mesmo o vilão ruivo e de expressão medonha que rouba a cena, afinal, a dublagem fica por conta de ninguém menos que Mark Hamill, o Luke Skywalker da franquia ‘Star Wars’, que coloca no personagem a perversidade de um maníaco, com a doçura de uma criança. O boneco, concebido com uma mistura de animatrônico e CGI, assusta apenas por ter a expressão de criança levada e olhar fixo, como se estivesse absorvendo cada mínimo detalhe do ambiente para converter para o mal.

A direção, do novato Lars Klevberg (Polaroid), é criativa e conduz a trama de maneira eficaz, sem grandes exageros e evitando ao máximo jump scares, até o clímax intenso, em uma loja de brinquedos com vários bonecos medonhos, que conclui a história sem decepcionar. O uso da trilha score, presente em todo o filme, no fundo das cenas, cria essa atmosfera de suspense que contribui para dar uma certa agonia em alguns momentos, como na infame e hilária cena da cabeça no papel de presente. As mortes, sangrentas e grotescas, também seguem a proposta descontraída e lembram filmes como ‘Premonição’, ‘Jogos Mortais’‘Pânico’, onde o suspense que precede o acontecimento vale mais que o fato em si. Agora, impossível não pensar na veracidade da trama, que se não fosse pela comédia assumida, seria extremamente difícil comprar que um boneco de pano e metal, de mais ou menos 60 cm de altura, poderia ser capaz de fazer o que faz sem que nada o atinja. Os furos no roteiro são evidentes e, de fato, o filme não se preocupa em dar explicações elaboradas.

Dessa forma, ‘Brinquedo Assassino’ é uma grata e inesperada surpresa, que deseja apenas divertir sem compromisso com a veracidade e, por conta disso, abraça a essência do vilão sem ter medo de se assumir uma comédia bem humorada com toques de suspense.  Há personagens descartáveis e furos perceptíveis no roteiro, mas é difícil não se pegar rindo alto no cinema ou mesmo tenso com algumas sequências. Vindo de um reboot que tinha tudo para dar errado, é um alívio saber que ainda há formas de inovar e atualizar histórias desgastadas. Já podemos sonhar com um crossover com ‘Annabelle’ ou ainda é cedo?

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