A tentativa de dar mais espaço para produções nacionais dentro da Netflix tem rendido bons frutos. ‘3%’, por exemplo, não teve tamanha fama por aqui, mas fora do país se tornou uma das séries mais assistidas e isso, de fato, abriu portas para que o investimento fosse ampliado e histórias mais simples pudessem ser contadas, como o terror ‘O Escolhido’, a comédia ‘Samantha!’ e agora ‘Sintonia’, drama sobre a realidade de jovens da periferia, que buscam realizar seus sonhos apesar das adversidades. O grande desafio, na verdade, é transformar histórias de nicho, como esta, em um produto de comercialização nacional (e internacional também), já que é inteiramente direcionada à um público específico e a trama não tem muito interesse em se expandir além disso, por essa razão, a empatia precisa ser alcançada para que haja algum apego pelos personagens e suas trajetórias, digamos, questionáveis.

No entanto, a realidade humilde do país já é algo que, por si só, tem voz ativa no cinema nacional e, felizmente, chega ao streaming também. O triunfo e o diferencial de ‘Sintonia’ é exatamente se localizar fora do eixo clichê que seria o Rio de Janeiro, já que a trama se passa em São Paulo, onde há comunidades e histórias ainda inexploradas, como essa, que divide seu protagonismo em três pilares, para retratar, com muita veracidade, jovens amigos, que cresceram juntos, mas que seguiram caminhos apostos. Ainda que os poucos episódios não tenham sido o suficiente para desenvolver um conciso arco dramático, já que a trama segue bem devagar e depois passa por cima de tudo para finalizar, há sim valores e autenticidades inegáveis na proposta, que merecem atenção.

Por ser uma parceria entre a Netflix e a produtora KondZilla, responsável por um império audiovisual voltado para realização de videoclipes de funk, o tom é adequado com a proposta, de ser uma série sobre música, no geral, sobre o começo de carreira de um promissor jovem, que entra para o mundo alucinante e glamoroso do “funk ostentação”. A qualidade impressa nos vídeos da Kond, também estão presentes, tornando a série bem filmada e fotografada em sua grande maioria. O piloto é corrido e deixa a sensação de que a direção fez o possível para encaixar todas as introduções em um único capítulo, o que o torna bagunçado e enjoado mas, felizmente, a série pega mais ritmo e fôlego a partir do segundo episódio.

Assim, caminha naquelas, já que o roteiro até possui bons conflitos, mas tudo é facilmente resolvido e não demora para surgir uma barriga, que persiste até o final e faz a história andar em círculos e se repetir inúmeras vezes sem sair do lugar, principalmente na trama que envolve o personagem Nando (Christian Malheiros), a mais intensa e também a mais questionável e cansativa, muito pelo excesso de gírias. O tom novelesco cria uma sensação de estarmos assistindo uma ‘Malhação’ paulistana, que poderia ter 100 capítulos, mas que corre, da metade para o final, para concluir todas as pontas soltas em apenas seis.

E por falar em elenco, os atores são bons, mas limitados até onde podem ir para construção do clima dramático. Há momentos em que o protagonista, vivido pelo também cantor MC Jottapê, consegue entregar emoção, como em uma bonita cena com seu pai no penúltimo episódio, mas em outros, ele está completamente monótono ao viver seu “Playboy da favela”, como um personagem o chama. Muito também culpa do roteiro fraco, que só o coloca em situações semelhantes a todo tempo. Já a atriz Bruna Mascarenhas, que vive a Rita, começa muito bem, roubando a cena, mas seu arco se fecha em uma personagem com cara de encantamento para tudo, ignorando completamente a força feminista que havia sido inserida capítulos antes. Christian Malheiros, a meu ver, tem a trama mais difícil e, por conta disso, entrega uma atuação ao nível.

Outras ideias são colocadas e logo descartadas, como um gráfico assassinato, que acontece no começo, mas que acaba não exercendo nenhum tipo de mudança de caráter no personagem envolvido. Fora a retratação da igreja evangélica. Tem momentos em que a série parece que vai fazer uma dura e pontual crítica ao charlatanismo encontrado em algumas denominações, já em outras, a trama parece venerar a atitude, sem se decidir que rumo tomar sobre isso e, mais uma vez, parte para lugar nenhum. Ainda assim, essa divisão de núcleos entre a música, a religião e o crime, são os pilares da trama, assim como é a realidade dos subúrbios em geral, a ligação entre esses três mundos dá a série uma energia interessante e um equilíbrio entre a crítica social e a admiração por um lugar repleto de arte e cultura, já que a essência consiste em mostrar que não é o lugar que faz o indivíduo, mas sim as oportunidades dadas e como cada pessoa aproveita de forma diferente.

Se lapidar um pouco mais o roteiro e excluir alguns detalhes cansativos e desnecessários, como a palavra “viado”, sendo utilizada por um personagem heterossexual como algo pejorativo, dá para extrair muitas discussões importantes, além de contribuir para retirar o funk do preconceito e da obscuridade, aceitando que é um importante e presente ritmo brasileiro. ‘Sintonia’ é, acima de tudo, uma série sobre sonhar e persistir, e acerta ao dar voz a esse universo repleto de histórias interessantes, escondidas em cada casinha, de cada comunidades do Brasil. A intenção é boa e a fidelidade nua e crua da violência choca, mas as falhas do roteiro pesam. Ironicamente, o que falta é sintonia.

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