Há diversos elementos que contribuem para que um filme seja cansativo, entre eles, e talvez o pior de todos, está o ritmo (ou melhor, a ausência dele!). Uma obra de quase duas horas de duração, sem ritmo, é como assistir um documentário sobre o mundo animal realizado para ficar passando durante o dia na TV. Após a sensação de cansaço bater e o roteiro não fazer nada para reerguer a trama, o caminho é cada vez mais pra baixo. E é exatamente por conta disso, mas não apenas por isso, que o drama policial ‘Rainhas do Crime’ é desastroso e desperdiça todas as oportunidades que tem com uma narrativa lenta, sem ânimo e exaustiva.

Com o selo da Vertigo (DC Comics), o longa é uma adaptação da HQ ‘The Kitchen’, que se situa em uma sombria Nova York dos anos 70, dominada por gangues poderosas, que controlam os comércios, a polícia e a criminalidade de bairros como Hell’s Kitchen e Brooklyn. Nesse contexto, que aparentemente seria obscuro e digno de um bom filme de super-herói, três mulheres, esposas de homens poderosos, começam a liderar a organização criminosa e esbanjam girl power ao conquistar lugares de fala e destaque dentro do machista mundo da máfia. Até aí, tudo bem, no entanto, a boa proposta da trama (vinda da fantástica HQ) perde o rumo e entrega uma adaptação tão preguiçosa e desconcertante, que mais parece o primeiro corte do filme de tão sem nexo.

O longa marca a estreia de Andrea Berloff (indicada ao Oscar pelo roteiro de ‘Straight Outta Compton: A História do N.W.A’) na direção e, apesar de ser bagunçado e desperdiçar oportunidades de ousar em enquadramentos elaborados e estilosos, digno de quadrinhos, o maior problema esta mesmo é na montagem, picotada, repetitiva (só contar quantas cenas de funerais o filme exibe) e arrastada, exatamente pela ausência de ritmo e de uma boa trilha sonora para guiar seu percurso. A sensação que fica é que a direção teve medo de assumir o lado cartunesco e optou por fazer um drama clichê, que poderia ser indicado ao Oscar. Esse rumo da narrativa é o grande desperdício de fazer algo original, ao estilo ‘Sin City’, por exemplo, ou mesmo pé no chão, como foi o mediano ‘Viúvas’, que segue a mesma temática, mas que funciona melhor por ser brutal e consistente.

E não tem como falar em desperdício sem citar o caro elenco, que conta com talentos como Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?), Tiffany Haddish (Uma Aventura Lego 2) e Elisabeth Moss. Primeiro, a trama apresenta muito mal suas protagonistas, sem uma introdução cativante e, logo mostra o desequilíbrio entre elas, em especial Moss, atriz brilhante em ‘The Handmaid’s Tale’, mas que entrega uma personagem tão sem graça e realizada no piloto automático, que chega a causar vergonha. Haddish ainda tem seus momentos e falas empoderadas, mas é mesmo McCarthy que rouba a cena, fazendo novamente drama e saindo, mesmo que levemente, da sua zona de conforto. Isso para não citar Common (Esquadrão Suicida) e Domhnall Gleeson (Questão de Tempo), dois ótimos atores, que não servem para absolutamente nada aqui.

Ainda assim, obviamente, o projeto existiu para dar voz as mulheres e desmistificar a presença delas em filmes desse gênero, já que as coloca em papeis de destaque e abre ampla discussão sobre violência doméstica, racismo e masculinidade tóxica, no entanto, mesmo com boas falas feministas, o texto não encaixa na proposta, que mais parece ter sido trabalhado apenas para condizer com os atuais movimentos do cinema. A atitude é válida, porém, forçada, assim como as personagens, que seguem alguns estereótipos já desconstruídos em outros filmes até menores. Fora isso, de fato, a trama é vazia e completamente descartável, dessa forma, nem mesmo a fotografia sépia, típica dos anos 70 e a vibe nostálgica dos figurinos e da direção de arte salvam, é o empoderamento que sustenta a história e nada mais.

Após uma conclusão abrupta, talvez o filme renderia uma boa série feita para a TV ou streaming, porém, no cinema, infelizmente a adaptação de ‘Rainhas do Crime’ é um completo e desastroso caos sem ritmo, sem força e que navega no texto feminista da HQ para justificar sua existência, mas que, na verdade, coloca o espectador para cozinhar por quase duas horas em fogo baixo e ainda queima a receita no final.

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