No hoje longínquo ano de 2006, chegava às bancas americanas o quadrinho The Boys. Com muita escatologia, violência gratuita e conteúdo sexual, a obra escrita por Garth Ennis e desenhada por Darick Robertson fez barulho por mostrar um olhar obscuro sobre a indústria de super-heróis. Treze anos depois a série de TV baseada na HQ chega ao Amazon Prime com um mundo onde os personagens de Marvel e DC estão diariamente nos produtos que consumimos. Teria a série de streaming atingido o mesmo grau que sua versão impressa? Sim, mas de maneira diferente.

Primeiro, temos que imaginar um mundo em que super-heróis existam de fato, mas sem todo o filtro de grandiosidade e salvadores que estamos acostumados a ler e assistir. Em The Boys, os poderosos são propriedade privada e dão muito lucro. Por conta disso, suas reputações tem que ser imaculadas e seus erros acobertados. Claro que isso eventualmente vai fazer com que os ditos heróis cometam as maiores atrocidades e é então que o grupo dos “rapazes” entra: para colocar os “super” na linha.

Com uma trama simples, mas que logo vai se tornando grandiosa, a série acertar em enxugar as edições inicias da HQ, que demora muito tempo até chegar em uma ameaça maior para o grupo de protagonistas. Além disso, apesar de filtrar muito do conteúdo sexual da mente doentia de Garth Ennis, a produção da Amazon não poupou esforços na hora de ser o mais sangrenta possível. Para os mais sensíveis, algumas cenas certamente terão que ser puladas.

As atuações também são um ponto de destaque. O antagonista principal, Capitão Pátria, interpretado por Anthony Starr, rouba a cena em suas transições de homem público e psicopata particular. Isso dá o tom certo para que o espectador entenda a ameaça que o mundo fictício da série vive. Contrastante a isso, temos a personagem Luz e Estrela, vivida por Erin Moriarty, que é uma heroína pura que realmente está ali para fazer um mundo melhor. Erin realmente consegue fazer uma mudança mais gradual da menina inocente que é aos poucos corrompida pela sujeira ao redor.

Do lado dos “mocinhos” também temos que destacar Karl Urban, que faz o líder dos rapazes, Billy Butcher, e consegue convencer que existe um ódio dentro de si maior do que a razão pode lidar. Apesar de não estarem ruins, o restante dos integrantes passa mais com o carisma e como ferramentas de roteiro do que por mérito de atuação em si.

A produção de The Boys também merece todo reconhecimento pelo modo como construiu esse mundo de heróis. Com referências aos obscuros seriados da década de 80 e 90, passando pelo filtro e referências bíblicas dignas de Zack Snyder, nada na série está jogado. Cada vez que um super aparece, existe uma referência na forma como ele é apresentado.

A série do Amazon Prime Video pode não ser tão pesada quanto o quadrinho, mas acerta demais em como conduz a trama e deixa todos os personagens entre as camadas de cinza, ao invés de focar no tradicional preto no branco.

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